Lounge
- E ela não costuma te esperar feliz, é? Que estranho... - Ela disse mexendo no canudo do drink, brincando com a intenção de tomar mais um gole, observando, secretamente, o quanto ele disfarçava bem que não se importava se ela beberia ou não.
- Ela me recebe bem o suficiente. - Ele a respondeu sorridente, saboreando mais um pouco do whiskey com gelo que pedira ao barman. - Só acho que às vezes podia ser um pouco mais quente, sabe?
- Mais quente? Mais quente como?
- Ah, sei lá. - Ele disse olhando em volta, como quem buscasse um rosto conhecido pelo lounge da companhia aérea. - Mulheres são criativas, né? Você me parece ser bem criativa.
- Você acha, é? - Ela respondeu deixando que um brilho sedutor escapasse dos olhos perigosamente cativantes, cujo olhar nem mesmo o garçom, acostumado com as idas e vindas de incontáveis passageiros diários, foi capaz de escapar.
- A senhorita precisa de alguma coisa? - O rapaz, perdido entre os seus vinte e poucos anos, abençoado pelo charme, e amaldiçoado pela ingenuidade, foi gentil o suficiente quando a perguntou.
- Não, moço. Muito obrigada. - Ela o disse, já se munindo de uma voz diferente da que conversava com o estranho que sentou-se próximo dela, na poltrona ao lado. - Talvez eu queira só outro desses quando terminar este daqui, tudo bem?
O rapaz, intoxicado pela mera sugestão de talvez ter conseguido ser marcante o suficiente, retirou-se educadamente, alimentando, em vão, fantasias na sua mente jovem e feroz.
- Você tem um jeito com as pessoas, né? - Ele a questionou, terminando o whiskey e gesticulando para que lhe trouxessem outro. - O rapaz não ouviu nada que você falou, aposto.
- Não ouviu por que? - Ela disse, soando genuinamente curiosa. Assim era o seu talento.
- Você gosta de ouvir o que faz, é? Que fetiche é esse de se fazer de tonta?
- Tonta? Você me acha tonta, então? - Ela recuou um passo, repousando o drink de morando e gin sobre a pequena mesa. - Que estratégia é essa?
- Ué, você sabe o motivo do rapaz sair flutuando. Você sabe o que faz. Sabe como faz. Inventa de perguntar o motivo porque gosta de ouvir. Não é isso? Se não for, é essa minha curiosidade. Não tem ninguém chamando ninguém de tonto aqui... A não ser, talvez, você em relação a mim. Olha só... - Ele olhou para o garçom, apontando com a vista para o rapaz, que já servia outro senhor mais ao longe. - Desse jeito, você não tava nem aqui, provocando... Observando... Brincando com a ideia de me fazer pensar que pode rolar algo contigo, né? Você gostou de mim, ou pelo menos tá curtindo a brincadeira, porque sabe que eu dou conta das tuas estratégia. Não é por ai? To errado?
- Eu gosto de ouvir. - Ela disse, enfim, agarrando o canudo nos lábios escuros e terminando o drink. - Me diz, vai... Por que foi que ele não ouviu nada que eu disse?
Ele sorriu sem jeito, olhando em volta novamente, a fim de tentar parecer seguro de si... Confiante.
- Por que se eu tivesse a idade dele, e uma mulher feito você... - Ele deixou que seus olhos passeassem pela figura dela. Um vestido preto a cobria, moldando a sua forma provocante, e quase onde, pela lateral, um corte no tecido se construía, era onde ele deixava a imaginação fluir, e o olhar se prender mais um pouco. - Com esses cabelos pretos, essa pele café com leite, e esses olhos... - Ele interrompeu a fala para sorrir, enquanto eles trocaram olhares.
- Continue... - Ela disse com uma mão sobre o queixo.
- Ele vai pensar em você a noite toda. Talvez a semana inteira. Pobre coitado. - Ele continou.
- Você já parou pra pensar que talvez seja você quem esteja nessa condição?
- Eu sei como pensa o homem. Eu já tive essa idade.
- Nem todos os homens são como você... São?
- Olha, se fossem a competição seria bem maior.
- Aaahh...! - Ela afastou-se de volta para a cadeira, como que reprovando a fala cheia de arrogância. - Você é presunçoso assim com a sua esposa também? - Ela disse tocando a sua aliança com seus dedos delicados, aproveitando para deixá-los deslizar sobre os dele.
- Sempre. É o que ela mais gosta.
- Nossa... Ela deve ser uma guerreira.
- Uma guerreira?
- Pra te aguentar. Você deve ser um mandão... Um daqueles homens insuportáveis que sempre saem mandando pra lá e pra cá... - Ela disse permitindo que um sorriso devasso se formasse de um canto ao outro dos seus lábios.
- Você não consegue nem terminar a frase sem mostrar que adora, né? - Ele disse sorrindo fartamente.
- Não! - Ela falou antes de uma gargalhada nada sensual, mas cheia de amor e alegria. - Não consigo, honey. Você sabe que eu adoro quando você manda.
- Então pede a conta. A gente tem que ir pro portão.
- Sim, senhor, meu marido.

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