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Showing posts from June, 2022

A Tela Incompleta

Quando eu entrei na casa dele, me surpreendi com a quantidade de pinturas que cobriam partes estratégicas do apartamento. Umas belíssimas, outras nem tanto... Quem era eu pra julgar a arte dele, afinal? Foi justamente quando pensei que a mancha de tinta verde nos braços não precisava mais de uma explicação, que percebi uma tela incmopleta em cima do cavalete de madeira...  - E esta aqui? - eu perguntei me aproximando. - Tem mais de cem quadros aqui. - Ele disse arrumando os lençóis em cima da cama, que ficava bem no meio da sala. - Cem modos de se expressar. Cem teorias de como você encara qualquer uma delas... E você consegue focar justamente na única incompleta? - Me pareceu um mistério, ué.  - Talvez seja. - ele disse, sem demonstrar muita expressão, a não ser um resquício de talvez um pouco de descontentamento, que eu achei que valesse a pena perseguir. - Te deixa triste? - eu questionei. - Eu... - ele ponderou a resposta enquanto olhava nos meus olhos. - não sei. - Qual é...

À Praia

Nós sequer fomos à praia...  Não caminhamos juntos com os pés na areia e mãos dadas sentindo o carinho da brisa do mar...  Não encontramos um cantinho discreto, não tão longe de todo mundo, e nem tão perto assim... Pra gente sentar juntinhos e conversar sobre o que quer que fosse o assunto que viesse à nossa mente... Nunca foi um problema encontrar, no meio de tantos beijos e carinhos estranhos, um assunto randômico qualquer, pra não falar aleatório. Não dividimos uma água de coco usando o mesmo canudo, enquanto eu te olhava e te admirava em meio a uma narrativa qualquer sobre os babados do meu dia, ou sobre os vira-latas perdidos no teu caminho... Não... Nada disso aconteceu, pra que eu pudesse pelo menos ter saudade. São memórias que sequer existem.

O Alarme das 7h:30min

Eu ainda tenho o alarme das 7h:30min ativado no meu celular.  Hoje, resolvi adormecer um pouco a mente pra conseguir dedicar meus pensamentos na gente. Nos nossos momentos mais íntimos, que são, na minha opinião, os nossos finais de semana juntos. Daí, com isso em mente, acho que descobri uma espécie de falha... E me perdoe se vou soar arrogante ou presunçoso, mas trata-se uma falha mútua.  Como diria o detetive, talvez você até as tenha visto, mas não observou... Ou talvez as tenha observado, e se privou de as expor. De qualquer modo, cabe a mim a patente da descoberta que se segue: - Oi, chuchu... - Ela disse, ao telefone, conforme se distanciava para o quarto, em busca de isolar-se de quaisquer ouvintes sorrateiros. Ele, em função de não ser confundido por um, tomou o rumo do quarto escuro na outra ponta da casa, onde deitou e se afundou na mais perfeita escuridão de uma mente quase desligada... E chegou a pensar como seria bom se pudesse, de fato, desligá-la.  Em pouc...

Escritos Diários

 Existe um motivo pra que um diário se chame assim. Acredite, eu sei.  A escrita diária me aproximava, de um certo modo, de quem eu sentia uma falta imensurável. Na época, digo, eu imaginava ser assim. Quem nunca errou? Acabei descobrindo um ciclo vicioso que eu nunca pensei que existisse...  A saudade diária, suprida quase que religiosamente todos os dias, se tornou infinitamente superior quando os motivos, que me motivavam à escrita, se afastaram do meu toque. Você. E, assim, eu fui deixando escapar a alegria de lhe escrever textos dedicados quase que exclusivamente a ti... A alegria que vinha principalmente das tuas opiniões diversas, escondidas no brilho do teu olhar quando você referenciava algo velado no texto do dia anterior... Se foi. Eu perdi isso... Perdi a tua reação. Teu olhar, cedinho pela manhã, que me esperava com algum comentário a respeito do texto da vez. Meu texto.  Teu texto. A escrita diária servia pra me lembrar do quanto amo quase tudo a teu re...

Mochilas Prontas

Escondida onde só eles dois sabiam onde, a cabana era uma espécie de santuário onde eles podiam se permitir intermináveis intimidades distintas e deliciosas... Um local onde os pecados do mundo afora eram não somente bem-vindos, mas vistos e encarados como belas virtudes. Havia, porém, feito uma mancha de vinho tinto sobre o assoalho, uma sensação de que a cabana, junto de tudo aquilo que ela representava pra eles, era tão frágil quanto era perfeita... Tão duradoura quanto a eternidade de um breve momento... Tão tangível quanto a própria saudade que ela prometia deixar, uma vez que não mais existisse...  Por tanto, era comum que os dois sempre estivessem, durante aquele precioso tempo juntos, de mochilas prontas para a eventual partida... tanto de um, quanto do outro, quanto também, diga-se de passagem, dos dois juntos, porém separados... Seguindo, pela floresta afora, caminhos distintos. Lamentavelmente distintos. - Sabe... - Ele disse. - Diz, diz... - Ela respondeu, deitada junto...

Em Vão, as Palavras Sinceras

Foi impossível não escutar as duas conversando, na fila do restaurante, sobre o namorado de uma delas. Eu acho até que preferia nem ter ouvido...  - Ele já vinha agindo estranho desde o domingo, lembra que até comentei contigo? - Uma delas disse. - Mais grudento, mais presente... Mais apaixonado, talvez.  - Sim, eu lembro que você tinha dito mesmo. - A outra respondeu. - Mas e tu, pensa o que disso?  - Olha, não sei. Às vezes gosto do jeito carinhoso e atencioso. - Ela disse. - Mas não me deixo levar não, sabe? Falar é muito fácil.  - Mas se tu mesma disse que ele tava tentando ser mais presente... - A amiga argumentou. - Pois é! Tem isso! Daí ontem, ele me falou umas coisas tão sinceras, que se eu pudesse eu tinha registrado o momento!  - Como assim? Quais coisas? - A amiga perguntou, pro bem da minha curiosidade intrometida. - Nossa, ele olhou pra mim com um olhar tão intenso, e me disse que fazia tempo que não se sentia tão em paz como tinha se sentido comigo...