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Showing posts from February, 2022

Preocupado

Consegui disfarçar um olhar relutante hoje? Entenda... Eu não quero te puxar junto comigo pra esse abismo que é a minha alma. - Ele disse, exalando a mais pura sinceridade. - Não quero despejar sobre ti nem ao menos uma fração do peso o qual às vezes sinto que nasci pra carregar sozinho.  Um peso que me me diz incessantemente que eu não mereço nem um terço da felicidade que eu sinto quando junto de ti.  Hoje, olhei fundo dentro dos teus olhos castanhos e senti que podia ter dito qualquer coisa pra ti, e que você teria, em troca, realizado qualquer pedido que eu tivesse tido a audácia de pedir...   Senti certo....... Enquanto você sussurrava "fica", eu dolorosamente me afastava, percebendo, em mim mesmo, a essência de uma inconsolável tristeza antiga e interminável, que insiste, até hoje, em me achar aonde quer que eu vá... Seja na decisão mais covarde, seja no ato mais ousado.  Minha preocupação, enfim, não é comigo... E sim com o teu sorriso, o teu olhar, e até...

Morreu Como, Ele?

 - Foi muito trágico... - A senhora, irmã do falecido, próxima ao caixão aberto, sussurrou para um amigo presente no velório. - Apesar da idade, ele tinha um espírito muito jovem. Acabou que não soube gerenciar essa... Essa... - Ela buscava, enquanto gesticulava com a mão no ar. - Essa discrepância de caráter. - Raquel, sinto muito... - Ele disse, enquanto que sem querer escutava a irmã de um dos seus melhores amigos, agora morto, ajudando o Cão a condenar a alma do falecido. - ... pela sua perda... O Dalton era um grande amigo. - Ôh, Claudenberg... - Ela disfarçou muito mal. - Era sim, né? Pelo menos um amigo ele tinha, afinal. E eu vivia falando que um d-- - Morreu como, ele? Que houve? - Ele a interrompeu.  - Se eu te falar... Sumiu no mundo na segunda pra pular carnaval! Deixou todo mundo preocupado. Louco! Um sádico desses! O hotel me ligou dois dias depois pra avisar que tinham deixado ele no quarto, cheio de bebida, droga, e tudo que não presta... Eu ainda avisei que el...

A Ninfa do Mar Insólito

 - Acorde, acorde, - Ela sussurrou em seu ouvido enquanto alisava delicadamente o seu rosto e a sua barba áspera, procurando em todo o seu semblante de paz, algum motivo que justificasse as condições nas quais ele foi capturado, quase dois dias atrás, pelas bravas acólitas.  A luz do sol, sorrateira e discreta, encontrou uma brecha pela qual decidiu se convidar para dentro do quarto, que se iluminou brandamente enquanto o distante som das ondas do mar velava o sono do prisioneiro. - Vamos, homem... - Ela disse, quase impaciente. - Se não despertar logo, te jogo no meu zoológico de espécies! - Quem...? - Ele desertou, enfim, abrindo os olhos lentamente, se adaptando ao ambiente. Seus olhos encontraram os dela, e por um breve momento, a felicidade quase lhe tomou conta da face... Quase. - O que é isso? Que lugar é esse?! - Olá, estranho... Eu sou Anya! - Ela disse, melhorando sua postura e, permitindo que seu vestido fino e translúcido se tornasse mais revelador que o necessário...

Se Eu Voltasse

 - Tem certeza de que quer fazer isso? - O cientista louco me perguntou uma última vez antes de acionar a máquina que transportaria minha consciência de volta pra Outubro. - Depois que eu te mandar de volta... Não tem volta!  - Claro que não, mas é a única opção que eu tenho... - Eu o respondi, me despindo e entrando na sua estranha máquina do tempo.  - E se você não conseguir acertar as palavras novamente? Entenda que a conexão incomum e inexplicável de vocês se deu por uma série de eventos interligados que dependeram desde reações químicas adversas até o mero humor no qual ela se encontrava no dia em que te viu pela primeira vez. E se alguma variável do espaço-contínuo alterar esse curso, e você voltar pra esse dia, e tudo der errado? E se você tropeçar e sem querer empurrar ela junto? A primeira impressão é a que fica! - Doutor! - Eu berrei, no auge do nervosismo. - Meu plano é infalível... Prossiga! Acione a máquina! Como que num brilho interdimensional que separa as ...

Leitura Molhada

- Nossa... - Ela disse baixinho enquanto deixava o corpo nu, brandamente iluminado pela luz amarela, delicadamente adentrar a banheira de água morna que ele havia preparado. - a água tá perfeita. - Eu sei. - Ele disse, puxando de dentro da bolsa uma folha de papel dobrada. - Preciso que você relaxe... E só escute esse texto que fiz pra ti... Pode ser? - E precisa perguntar? - Ela sorriu antes de fechar os olhos e obedecer. - Bom... Lá vai... - Ele disse, limpando a garganta. "Não se acanhe com o meu olhar enquanto você tira a roupa e caminha até mim, me seduzindo enquanto desfila e exibe todo o seu erotismo que me acende feito a chama faz com a vela... "Vem... Me olha daquele modo que eu amo, e me fala alguma coisa qualquer, só pra me dar a sensação de ouvir tua voz, e de imaginar ela baixinho no meu ouvido, disfarçada num dos teus gemidos... "Deixei a água quentinha, mas nao tanto quanto você e eu quando estamos enfim sós, porém juntos, escondidos no encontro um do outr...

O Tapa

O estalo ecoou pela escadaria principal do palácio como o vento de inverno invade a abadia no silêncio da noite e perturba a paz das chamas que alumiam o salão. Tomada pelo ímpeto do desejo intenso que lhe consumia os nervos e a pele, a princesa dos olhos castanhos como o mel cedeu, apenas por um breve instante, a um de seus momentos de impulsividade incontrolável, e logo após o beijo quente e acolhedor de seu amante, o estrangeiro, desferiu-lhe contra a face nua um tapa tão forte quanto a paixão do romance que lhes consumia por dentro...  - Agora sim... - O estrangeiro disse por trás de um sotaque vizinho, tomado por um vestígio de surpresa, e pela deliciosa ardência que lhe beijava o rosto, sorrindo como quem desse as boas vindas ao golpe inesperado...  - Como ousa? - Ela agora, em puro deboche e pudor clandestino, em virtude enfim da compreensão da força demasiada do tapa, como sugerido pela vermelhidão na pele dele e pela dormência na palma de sua mão, optou por acariciar ...

Um Crime

 - Olha teus olhos... - Ele disse enquanto alisava o rosto dela delicadamente com as duas mãos, sentindo o calor da sua pele - Olha teu olhar... Teu rosto... Teu cabelo... Olha até esse teu sorrisinho novo, bobo e entregue, que eu amo tanto. Me diz como faz pra não te prender aqui no meu coração, igual a como teu jeito inteiro se prendeu à minha mente? Eu te prometo que, se você me der essa fórmula, eu te solto... Te deixo sair solta, correndo pra bem longe do meu abraço.  - Meu bem, - Ela disse me seduzindo com o seu olhar... me encantando com o seu sorriso. - Você não precisa me prender... Como que prende alguém que deseja, acima de tudo, estar ali? Me solta... Vê o que acontece... Me solta pra me ver correndo de volta pra cá, pra dentro do teu abraço. Não precisa prender. Eu quero estar aqui. - Você me solta uma fala dessas... Acaba comigo... Me faz me sentir o homem mais desejado do mundo... Mulher, tu não entende, né? Eu preciso te prender.  - Ah, é? Por que...? - Po...

O Clarinete

- Não, mamãe... - A moça respondeu o comentário ácido da mãe. - Ele não é nenhum guru da literatura brasileira. Sequer deve ter lido alguma obra portuguesa... E se eu falar do Chico, ele é o primeiro a sair da sala, a não ser que seja algo meu pra ele... Alguma referência. Ele é todo diferente! Todo! E eu adoro cada discrepância que existe entre a gente. Ah! Eu quero mais é que chegue logo amanhã só pra ver aquele sorriso convencido de novo...! - Diferente? - A mãe a indagou, não ocultando o tom de desconfiança da voz rouca. - E como que esse pilantra te cativou assim, menina? Não tá vendo que isso não presta?! - Sim! É verdade! Não presta! - Ela disse, empolgada. - Acontece que todos os dias ele dá um jeito de esconder um bilhetinho na minha mesa! Só um! Sempre com uma única frase, e nunca uma repetida! - Uma frase?! - a mãe a indagou. - Num bilhete? Qual a graça disso? - As frases! O modo que elas soam... São pra mim, mamãe! Ele faz pra mim... E todos os dias!  - Ele só tá nessa ...

Os Planos de Amanhã

- Quais os planos pra amanhã, Danilo? - Ele me perguntou já no final da sessão, quase que numa precisão cirúrgica. Senti um leve aperto no peito, e uma leve palpitação de ansiedade, mas pensei ter disfarçado na respiração. - Vou almoçar com meus pais. - Eu disse. - Talvez fique por lá o resto da tarde. Faz tempo que eu não vou por lá, sabe? - Sei... - Ele disse, esticando o ditongo de um jeito irritante. - E de verdade, vai fazer o quê? - É sério. - Eu reafirmei. - Vou almoçar com eles. Tá aqui a mensagem, olha só.  - Não precisa mostrar nada. - Ele protestou enquanto eu buscava o celular nos bolsos. - Eu só quero sinceridade, Danilo. Tudo bem que o almoço é real... Mas e o resto da narrativa... Qual é? - Olha... - Fica a dica de que essa é a parte onde eu geralmente penso no que vou falar em seguida. Pode ser uma mentira. Mas pode ser uma espécie de arranjo das palavras pra que elas soem melhor do que a ideia em si que eu estou sugeringo. - Não é que não tenha uma narrativa tangen...

Mal Acostumado

Ela não me acordou. Em vez disso, preparou nosso café bem cedo, sem me despertar, apesar do meu sono leve... Foi à cozinha, achou os dois pratos, e ajeitou a mesinha da sala pra gente. Mexeu na geladeira, pegou a goma e a manteiga... Preparou as tapiocas, e os ovos... Daí, de um modo tão carinhoso que eu nem sequer sei descrever ao certo, ela foi foi lá me acordar, com vários dos seus típicos beijinhos de bom dia... Beijos que ela bem sabia onde nos levariam...  - Que delícia... - Eu falei com a minha voz de sono, passando as mãos pelo seu corpo, sorrindo no escurinho do quarto, apesar da janela do quintal estar aberta, e o céu das seis nos espiando. - Delícia é o nosso beijo. - Ela me disse, se deixando deitar novamente sobre mim conforme eu a puxava pra de baixo do lençol. - Fiz o café. - Fez? - Eu indaguei, transbordando alegria...  - Fiz. Bora... Ou quer comer alguma coisa antes? - Ela disse, descendo os beijos quentes pelo meu queixo... pescoço... peito...  - Você nã...

Desprovido

Eu tentei ler as tuas cartas hoje, mas as letras não faziam mais sentido...  Era quase como se alguém as tivesse espalhado de uma folha pra outra, ou encaixado as sílabas com outras que não fossem as mesmas. Passei os olhos por todos os bilhetes escondidos... Todos os contos escritos à mão que te demoraram dias, e as vezes até semanas pra me entregar... E nada fazia o menor sentido. Lembro que arremessei a pequena caixinha de lembranças e palavras no chão, e que tentei correr pra ver se te encontrava na cama, ou no sofá, mas até isto se mostrou um desafio incomum... Acontece que quando cogitei a possibilidade de que talvez você não estivesse mais ali, minhas pernas estremeceram, e eu me vi impedido, pela própria força que me faltava, de correr até você, onde quer que estivesse...  Pensei em berrar teu nome, pra que de alguma forma, você pelo menos soubesse que eu te procurava incansavelmente... Mas na hora, meu berro soava tão fraco que mais se adequava num sussurro de uma lam...

Querer... Precisar...

 Pensei, hoje mais cedo, em como estas duas ações possuem toda uma relação secreta entre si... São quase protagonistas de um caso de amor do qual apenas elas duas tem conhecimento, enquanto que à todas as demais palavras, resta apenas a indagação desolada. Veja bem...  O que é que não começa como um desejo? Qual é o bem material na tua estante ou mesa que de fato nao teve origem num desejo, repentino ou premeditado?  - Eu quero...  E assim vem um livro, uma folga, um beijo, um presente....  Sim, o querer é simples de ser compreendido, e não é pra menos, visto que representa todo um instinto primitivo da nossa curiosa espécie.  Mas...  E quando esse desejo evolui? Será que penam muito nisso, como eu pensei hoje? Será que alguém por aí escuta um belo "eu preciso de ti..." e começa a pensar de onde aquilo ousou surgir?  Ao contrário do que muitos pensam, nós não precisamos realmente de muitas coisas. Mas aplicamos o verbo coloquialmente e sem dedicar...

Terapia Ocupacional

 - Mas... Por que exatamente você pensa que ele pode estar demonstrando algum sinal de interesse? - A terapeuta da empresa, perguntou, quase escondendo-se por trás dos seus óculos de armação preta e grande.  - Ai, Débora, não sei bem explicar, sabe?  É o jeito que ele tem de sorrir quando a gente tá no refeitório no horário do lanche. Ele é tão atencioso e gentil... Mas eu admito que pode ser uma confusão minha. Será? - A moça admitiu, quase envergonhada de estar trazendo o assunto à tona pela incontável vez durante suas sessões semanais com a terapeuta.  - Sim, pode ser... Mas o que exatamente te faz pensar nisso? É só a gentileza dele, ou tem algo a mais de fato? - Ela insistiu. - Acho que se eu pensar bem... - Clara lamentou. - Acaba sendo só a gentileza mesmo. Será que eu devesse fazer algo a respeito? Pagar pra ver? Chamar pra sair?  - Só você pode responder essa pergunta. Mas... Será se vale a decepção? -  Débora a questionou, removendo os óculos lent...

Sem Olhar Pra Trás

- Danilo? - Conforme ele o caminhava cautelosamente pelas rachaduras escondidas pela escuridão, a sua voz ecoou pelo submundo até se chocar contra as fundações eternas do alicerce que o mantinha de pé desde o início dos tempos. - Danilo, preciso que siga a minha voz. Meu nome é Manuel Exício, e sua família me contratou pra que eu viesse buscá-lo... Preciso que você se concentre. É importante que saiba que eu vim pra te levar de volta... Pois há pouco tempo atrás, você morreu, Danilo. Não houve resposta imediata a não ser pelos trovões que rasgavam o céu negro logo acima, pincelando luz sobre a terra desforme conforme raios selvagens açoitavam as nuvens, que tristes, choravam sem fim.  - Eu morri...? - Uma voz perdida atravessou a neblina que se formava ao redor de uma colossal entrada de pedras em formato de um arco enorme.  - Morreu... Não mais do que algumas poucas horas atrás. - Manuel falou buscando sempre, pela escuridão molhada e fria, os melhores caminhos até a alma per...

A voz... O Olhar... O Sabor...

- Vai um cafezinho? - Ele me perguntou naquela voz rouca e cansada de sempre. - Vô, - Eu respondi, sentado na mesa da cozinha, observando ele tirar o filtro e o coador de um pequeno armário embutido na parede. - já são quase 22h... - Olha só! Ele sabe as horas! - Ele retrucou, e dessa vez foi até gentil. - Macho, tu já pensou em ser detetive, com essa esperteza toda? Quem foi Dupin perto de ti, hein?  - Eu falei pelo horário, vô! Deixe de ser sabido, que o senhor entendeu.  - Quer ou não quer? - Ele disse enquanto deixava a água da torneira encher a chaleira devagar. - A mãe só deixa eu tomar uma vez por dia. Dezesseis anos ainda é criança, segundo ela. - Quer ou não quer?! - Vai, - eu me rendi, enfim. - Quero. - Tá vendo? Tá vendo o arrodeio? Pelo amor de Deus... - Ele acionou o botãozinho do fogão elétrico, e uma das bocas acendeu, aquecendo a água. Daí ele veio e sentou perto de mim à mesa. - E ai, como que tá aquele lance lá com aquela gatinha do colégio? Chamou pro cinema...

Meu Limbo

 - Mas que lugar é esse afinal? - Ela o questionou enquanto ele ficava por lá, no vazio, olhando para o nada, em relativa e aparente paz...  - É onde eu descanso. É onde eu venho pra estar entre os sentimentos, e entre os pensamentos. Nunca nem em um, ou no outro. - Ele a respondeu se virando pra ela, sorrindo de uma maneira quase incompleta. - Eu não sei como cheguei aqui, nem me lembro da primeira vez que vim pra cá... Mas tenho quase certeza que fui eu quem construiu isso. - Construiu...? - Ela se aproximou dele, olhando aos arredores, buscando algum sentido em meio a tanta insensibilidade. - Como? - Eu não faço a menor ideia, acredita? É uma espécie de santuário onde só a dormência sobrevive. Foi se tornando real conforme o tempo foi passando, e eu vim cobrindo as coisas que passavam por mim numa manta de indiferença... A manta foi crescendo, e de algum jeito, depois que tentei te explicar o que se passava, eu me vi... Aqui. Ela, ainda confusa, tocou em seu ombro, e se apo...

Receios

Estes, quase que inteiramente gerados pelas experiências que trazemos da série de aventuras e desventuras no decorrer de toda uma vida que existiu antes mesmo da mera ideia de um dia trocarmos olhares, e sentir a necessidade de estar no abraço carinhoso e apaixonado um do outro...  Eu trago os meus receios como se fossem uma espécie de livros de receitas pra não te magoar, e não te afastar... E demoro, às vezes, a perceber que frequentemente, os melhores bolos e tortas se dão pelo preparo improvisado, quando o açucar e os demais ingredientes são adicionados somente na imprecisão exata da mão do boleiro...  Pensa bem nisso... Mas pensa mesmo, lendo devagar, pra poder absorver bem cada sílaba... Houve um dia, não tão distante assim, no qual nenhum de nós dois fazia a menor ideia de que o outro existia... Agora tenta imaginar essa situação absurda, e me diz, como isso pode ser possível?  Me diz como é que podia haver um "eu" andando por aí sem te conhecer? E o que é que diab...

O César

- Esses aviões de hoje são tão pequenos que são quase um ônibus, né? - Olha... tudo o que eu mais queria era poder descansar durante a viagem. O voo não seria longo, durando um pouquinho mais de uma hora. O dia em si já tinha sido desafiador, e eu não tava muito interessado em ter que fingir interesse no papo de ninguém. Então... Quando ela tentou puxar assunto comigo, eu retribuí com o meu melhor olhar de desinteresse absoluto. Ela... Continuou falando. - A gente paga tão caro. Eu digo assim, - Ela falou movendo os mãos no ar, procurando uma forma melhor de explicar algo pela qual eu de nenhuma forma havia requisitado. - Porque não é barato, uma passagem dessas... O César é quem diz que a gente precisa viajar mais pra poder conhecer o mundo, sendo que as minhas sobrinhas sempre sabem dos melhores dias pra comprar as passagens, e acaba que sempre que ele pergunta pra elas sobre preço e essas coisas, a gente acaba nunca comprando porque é sim um valor alto. - Quê...? - Eu me irritei, e ...

Mentiras Delicadas

 - Puta que pariu...! - Ele exclamou em êxtase, apertando suas mãos nas dela, enquanto os dois trocavam beijos e abraços marinados no calor um do outro, encharcando os lençóis da cama de desejo e paixão. - Onde tu vinha se escondendo esse tempo todo?  - Eu? - Ela respondeu num gemido delicioso, carregado das mais sórdidas necessidades... - Você que demorou pra me achar. Mas agora tô aqui... - Ela disse, lançando sobre ele aquele olhar... Aquele que certamente era a sua arma mais penosa e certeira.  - Tá sim... Entre os intermináveis momentos observados pelo relógio de parede do quarto, os dois pareciam não saber exatamente onde começava ou terminava o próximo carinho, a provocação seguinte, o beijo adjacente, ou a iminente transa que se sucederia... Era nisto, um ritmo próprio, envolto num sentimento de saudade mesclado quase que num desespero de estar um no outro, perdidos de propósito entre as horas intermináveis da madrugada. Toda tempestade, porém, se vê seguida por u...

De Manhã, Cuscuz com Café

"Chego por aí em dez minutos." Eu nem acreditei quando, quase as 22h, o celular vibrou em cima da mesa e mandou aquele som estranho pela sala inteira. Me assustei, e pensei de pegar o aparelho nas mãos e conferir quem havia falado comigo... Mas existe um receio que talvez você conheça... O de decepcionar-se conferindo uma mensagem que não vem de quem esperávamos. Não seria ela. Não poderia ser. Poderia?  Era ela! E o melhor... Em dez minutos!  "Tudo isso? Quero você aqui comigo AGORA!" Eu prontamente respondi, sem medo de parecer que estava a postos esperando uma resposta.  Acontece que me pareceu que os tais dez minutos duraram toda uma eternidade. Bebi água... Fui ao banheiro... Conferi a rua... Voltei pra dentro... Acendi duas velinhas pequenas ao lado da cama pra deixar o ambiente mais... Sedutor? Mágico? Místico? Não sei! Mas queria que fosse perfeito.  Um carro parou pertinho da porta, e eu sabia que só poderia ser ela.  - Meu Deus do Céu... Tu veio! - Eu ...

As Últimas Duas Horas

Se algumas coisas fossem um tiquinho diferentes... E de alguma maneira mágica eu viesse a descobrir que só me restavam duas horas de vida pelo mundo... Eu escreveria um último conto pra ti.  Nele, eu faria questão de escrever tudo o que ainda não fui capaz de expressar nos decorridos últimos dias, aliás dias estes nos quais meu maior e principal prazer tem sido me deliciar nas minhas próprias palavras, muitas vezes tão confusas quanto minha própria personalidade é pra ti, somente pra poder manter uma espécie de comunicação entre nós.  Eu me permitiria estar nesse espaço uma última vez, que é onde eu consigo estar em plenamente em paz... E não é porque o conto é meu, ou por conta das palavras serem minhas, não não... É porque consigo sentir teus olhos devorando cada letra... cada palavrinha... cada sentença... cada mensagem que eu deixei aqui pra ti. Só pra ti... Especialmente pra ti.  Duas horas seria pouco demais pra todo o resto. Pouco demais pra encaixar todos os nosso...

O Meu Poço de Virtudes

As carícias entre uma xícara de café e outra eram discretas, porém tão verdadeiras quanto os sentimentos que os dois mantinham reprimidos superficialmente, na mais fina camada de pele, quase como uma tatuagem escondida que se revela em pequenos relances vez ou outra pela manga da camisa.  A mesa no canto da parede, perto da janela que exibia o jardim da padaria, um tantinho isolada das demais, já era íntima dos segredos compartilhados em sussurros amorosos e apaixonados de um domingo de manhã... Mais um, isto é, de um casal que não deveria, pelo menos em teoria, sequer existir. - Por que é tão bom estar contigo? - Ela disse enquanto procurava arrumar os cabelos com uma mão, e degustava de um pedaço de bolo. - É de uma delícia que só perde pra esse bolo.  - Ah, perde pro bolo, é? - Ele a questinou beliscando seu braço num carinho tão sutil quanto o aceno das rosas do jardim para o vento.  - Só pro bolo. - Ela sorriu. - Eu gosto disso. Da gente. É fácil ficar contigo... Se ...

O Náufrago e a Sereia Perdida

- Lembra da noite em que você veio parar aqui? - Ela o indagou enquanto deixava suas unhas carinhosamente passear pelo seu peito despido.  Os dois deitavam na areia da praia, sob a luz simpática das estrelas enquanto aproveitavam a brisa fria que acompanhava o som inquieto, porém sereno, das ondas do mar na madrugada escura. - A noite que mudou tua vida? - Ele a respondeu enquanto alisava sua pele macia. - Presunçoso! Onde tu encontra tanta presunção numa ilha deserta no meio do nada? Onde? - Ela o arranhava mais forte, enquanto sorria, deixando transbordar a sua felicidade mais plena.  - Claro que eu lembro... Lembro todos os dias daquela noite. - Ele a envolveu no seu abraço, e fechou os olhos, como que grato pelo momento, quase num desejo absurdo de que durasse para sempre. - Lembro que eu pensei que fosse morrer no mar escuro e gelado.  - Se identificou, né?  - Demais. Me senti em casa. Aliás, lamentei pelo mar, o coitado. Não merecia me engolir inteiro... Tanto ...

Selecionar texto... Deletar

22h  - E aí... Chegou bem? Demorei um pouco mais que o costume hoje... E logo quando cheguei, precisei corrigir os textos das teses, o que acabou tomando todo o meu tempo. Devo ter aberto tua conversa umas duas vezes, e visto tua foto, mas acabo apagando o que escrevo porque penso que de repente você nem pode visualizar agora, ou que pode ser alguém usando... Selecionar Texto.... Deletar. 22:08h - E aí, chegou em paz? Como sempre, é uma tortura te ver indo embora, e não aproveitar aquele momento nosso pra sempre. Não sei porque, mas demorei a chegar em casa hoje, mas é claro que valeu cada segundo de atraso. Enfim, acabei precisando focar nos textos das teses, e não pude vir falar contigo, que é sempre a minha primeira vontade, mas aí também, sei lá, numa sexta a noite, você pode estar numa festa... Curtindo... Em vez de lendo essa mensagem idiota e ridícula... Selecionar Texto... Deletar. 22:32h - Opa... Acabei perdendo a noção do tempo! Cheguei tarde e fui direto corrigir as tese...

Nunca Mais...

"Eu vinha caminhando pensativo pela calçada, sem sequer perceber o som do trânsito caótico do final do dia. "Perceber som de carro pra quê? Porra, que narrativa tão idiota e forçada é essa que eu tenho às vezes? Vai me ajudar a ficar menos irritado se eu parar e ficar feito um inútil percebendo o som dos carros? Não! O que ajudaria seria ver ela... Aliás, onde eu enfio esse ódio e essa frustração, que nem sequer são justificados? É quase estranho pensar nisso, considerando o modo pelo qual o dia teve a audácia de começar..." Eu pensei, ou talvez ele. Uma parte de mim... A menos inteligente, e consequentemente a mais sofrível. A que age na impulsividade e acaba fazendo com que o resto de nós seja sugada na espiral do poço das lamentações sem fundamento." - Nunca mais. É isto. - Ele disse pra si mesmo no ritmo de um pé após o outro. Vinha concentrando nisso desde que descera do veículo, e insistia na tecla, a pedido do raciocínio guiado pela fúria, que se referia a el...

Beijos de Café

- Sai, sai sai, - A moça da mesa ao lado, acompanhada do namorado, reclamou quando ele tentou beijá-la após degustar de alguns poucos goles de café. - Nem vem com esse bafo horrível de café. Não suporto!  A incoerência era além de insuportável, chegando a ser quase tangível, pensou a adorável moça da mesa vizinha. Em qual mundo uma pessoa concordaria de ir numa livraria-cafeteria como aquela, onde o tão singular e acolhedor cheiro do café pairava pelo ar, enebriando os fregueses com os seus feitiços, só pra ao final do encontro negar, em pleno abuso e repulsa, um beijo recheado pela própria essência daquilo que os cercava? Era tal qual recusar um beijo gelado de alguém a quem você mesmo oferecera um pouco do seu sorvete.  O rapaz, num sorriso ensaiado de quem talvez já escutara a reclamação incontáveis vezes antes, recuou desapontando e trouxe consigo o braço com o qual abraçava a moça, quase como quem removesse a coroa de um monarca destronado. Passeou os olhos pela mesa, e a...

Eu Pensei...

- Calma... - Ele disse cautelosamente, de braços abertos, tentando se aproximar dela sem que aparentasse fazê-lo.  - Calma? - Ela o questionou com um isqueiro numa mão, enquanto o cheiro de querosene tomava o cômodo para si. - Mas eu tô super calma. Quem parece meio inquieto aqui... é você. - Você jogou... querosene nas minhas coisas? - Ele a indagou sentindo o cheiro hostil, e vasculhando seu escritório enquanto procurava os resquícios da substância, porém sem sucesso. - Não, né? Eu não sou nenhuma louca. - Ela o respondeu, se inclinando na poltrona na qual estava sentada. - Eu despejei um copo em cima do seu computador...  - Quê...? - Ele a questionou surpreso, virando o rosto para o objeto de trabalho.  - Por acaso eu sei que é onde você guarda os arquivos dos contos. - Ela disse se permitindo um semblante de presunção. - Dos meus contos. Os que você fez pra mim... Né? - Eu tenho cópias online também... Não adianta incendiar o computador.  - Mentira. Você me conto...