O Clarinete

- Não, mamãe... - A moça respondeu o comentário ácido da mãe. - Ele não é nenhum guru da literatura brasileira. Sequer deve ter lido alguma obra portuguesa... E se eu falar do Chico, ele é o primeiro a sair da sala, a não ser que seja algo meu pra ele... Alguma referência. Ele é todo diferente! Todo! E eu adoro cada discrepância que existe entre a gente. Ah! Eu quero mais é que chegue logo amanhã só pra ver aquele sorriso convencido de novo...!

- Diferente? - A mãe a indagou, não ocultando o tom de desconfiança da voz rouca. - E como que esse pilantra te cativou assim, menina? Não tá vendo que isso não presta?!

- Sim! É verdade! Não presta! - Ela disse, empolgada. - Acontece que todos os dias ele dá um jeito de esconder um bilhetinho na minha mesa! Só um! Sempre com uma única frase, e nunca uma repetida!

- Uma frase?! - a mãe a indagou. - Num bilhete? Qual a graça disso?

- As frases! O modo que elas soam... São pra mim, mamãe! Ele faz pra mim... E todos os dias! 

- Ele só tá nessa pra conseguir o que quer, menina! Assim que tiver, oh... - Ela então bateu as palmas das mãos uma na outra. - Cai fora junto com as tuas frases! 

- Mamãe! - Ela exclamou passando as mãos pelos cabelos negros. - O que ele queria, ja teve! E não só uma... Nem duas... Nem três! Mas várias! E a cada uma, a fórmula dos bilhetinhos parece que muda! Me atrai de um jeito tão diferente... Ai, mamãe... Nao tem como explicar o modo como isso mexe comigo.

- Criatura... - Ela disse desligando o fogo de uma das bocas do fogão. - Tu tá aí toda besta pra esse sujeito e uns bilhetinhos, mas esquece o que foi que aquele outro rapaz fez, né?

- Quem? - Ela indagou, genuinamente confusa.

- Aquele lá que lhe dá carona todos os dias. Aquele rapaz bonzinho, e bonito. Aquele do clarinete, que aprendeu a tocar só pra te impressionar com aquela música do Chico! Lembrou agora?! - Ela questionou a filha de um modo, que se nao fosse materno, quase seria agressivo. - Esse malino aí dos bilhetes não deve sequer saber tocar clarinete. Sabe?!

- Não, mamãe... - Ela a respondeu quase sem um sorriso na ponta dos lábios, igual aos dele. - O clarinete, não. 





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