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Showing posts from April, 2022

Novo autor. Primeiro conto.

       "As vezes no silêncio da noite, eu fico imaginando nós dois. Eu fico ali sonhando acordada... Jun-tan-do... o antes, o agora e o depois." A música tocava ao fundo enquanto os dois se emaranhavam no sofá e já não atentavam para a noite que se aprofundava no mundo lá fora.       Era estranha a sensação que quase fazia parecer que só havia, de fato, eles dois num mundo inteiro cheio de possibilidades e decepções. Era estranho prepará-lo um lanche, observá-lo na sala de casa sentado ao sofá, mexendo distraidamente no celular...  Pensando bem, só era estranho porque apesar de ser a sua 3ª visita, e eu ainda tratá-lo como visitante, a sensação de tê-lo ali era tão familiar que lhe confundia. 

Sem Contos

Numa realidade alternativa, eu não estou nem do teu lado, vendo você acessar esse conto, porque nunca te conheci.   Nessa realidade, você não conhece o meu sorriso malino que me deixa com os olhos cerrados. Aquele sorriso que você gosta, e que acabou contraindo também depois de um tempinho. O mesminho que derrete o meu coração.  Não sei explicar o quanto as coisas seriam diferentes, porque o escopo dessa ramificação se dá numa escala quase que universal. Não no que diz respeito ao cosmos... Mas em relação às infinitas realidades nas quais eu permaneceria sorrindo sem você. Sorrindo de forma incompleta, lembra?  Não seria apenas o sorriso. Todo o conjunto das nossas desventuras não seria sequer uma memória. Daí, cogite o seguinte pensamento... O que pode ser tão distante quanto uma memória? Um sonho? Será se você e eu, dessa realidade infeliz e alternativa, sonham conosco e com o nosso romance, sem reconhecer o nosso rosto? Será se eles acordam e falam... - Nossa, son...

A Minha Amnésia

E se eu perdesse a memória...? Algo tão súbito e assustador quanto um raio perdido na escuridão da madrugada chuvosa?  É quase que praticamente impossível não transitar pelos domínios do clichê quando se fala nesse tópico... Mas... Se permita imaginar por um instante nessa fantasia assombrosa. E se eu esquecesse nao só de ti, mas também de tudo... dos momentos, dos abraços, dos beijos, das palavras, das risadas...  Dos sinais, dos indícios, da amizade, das indiretas... Dos reconfortos, do sono velado, dos carinhos estranhos, da voz boba... De nós. Se assim fosse... E aqui, vale ressaltar que por muito pouco, quase preferi selecionar o texto inteiro e deletá-lo... Mas me vi acordado o suficiente pra ousar lançar o questionamento. Então, se assim fosse, o que você faria ?  Pense bem... A resposta pode muito bem não ser tão simples quanto parece.  Você também enxerga a bifurcação que se fez presente na estrada, ou será se ela só existe na minha mente? De um lado, o rest...

Três Opções

- Tem chocolate? - Ele questionou o atendente, ignorando a placa da sorveteria que anunciava os sabores.  - Tem. - Ah, pois eu quero chocolate, por favor. - Ele confirmou. - Pronto... O senhor quer pra cá ou pra viagem? - Pra cá.  - No momento, eu sugiro que o senhor peça pra viagem, porque estamos sem mesa. É mais fácil pro senhor. - Ah, entendi. - Ele disse olhando em volta. - Tudo bem, mas eu posso... Comer a casquinha em pé mesmo. Ou então aqui no balcão.  - Mas é mais fácil pro senhor pedir pra viagem, né? No balcão, o senhor tem que ficar em pé. Peço pra viagem mesmo, então? - Cara... - Ele refletiu por alguns momentos antes de continuar. - Eu vou ali na praça deixar uma encomenda, e deixo pra comer a casquinha na volta mesmo, já que vai ser rápido, tá bom?  - Tudo ótimo, senhor.  ... - Voltei, meu caro! Vi que tem uma mesinha ali no canto, né? - Ele disse alguns momentos depois de ter resolvido quanto à encomenda. - E só agora que eu fui ver que tem Bisco...

Tapioca Peneirada

 - Prefere a goma peneirada? Ou... - Ele julgou, depois de ver o semblante de insatisfação tomando conta do rosto dela, que seria mais sábio nem terminar a frase.  - Peneirada? É sério, isso? - Ela perguntou cruzando os braços.  - É... Porque, assim, eu não ligo muito pra isso, né...  - Ah, mas eu ligo, né?! - Ela esbravejou tentando manter a seriedade, e virando as costas para ele, de modo que pudesse esconder o sorriso. - Quer saber? Faz mais não. perdi a vontade. Vou comer meu iogurte mesmo. - Mulher, - ele disse dando as costas para a frigideira quente, caminhando então até ela, e abraçando-a com numa mistura de amor e racionalidade. - Mas foi uma pergunta válida. Eu posso fazer do jeito que a siora achar melhor. Me fala de qual jeito você prefere, vai... Ela, então, se virou de volta pra ele, e mantendo o semblante de seriedade, lhe disse... - Como é que o sinhô prepara as suas tapiocas?! - Esmagando as bolotinhas de goma com a colher, olha só... Assim... Não f...

A Minha Vontade Própria

- Egoísta? - Ela o questionou um tanto incrédula, trazendo naquela voz meiga e suave, uma pitada de acidez. Os olhos castanhos cerrados, inspecionando o rosto dele, na esperança de encontrar um vestígio que pudesse indicar que era tudo uma brincadeira... Porém, nada encontrou. - Tu parou a tua explicação... pra me falar que se acha egoísta por me mostrar as coisas que tu gosta? Ele puxou ar como quem fosse fornecer algum tipo de resposta.  - Não, não, não... - Ela o interrompeu, levantando-se da cadeira dele, segurando nas mãos uma das caixas colecionáveis de edição limitada de um dos seus joguinhos preferidos. - Nem adianta tentar começar a se explicar. Eu entendi o que você quis dizer, porque, pra variar, você pensa ou supõe que tá sendo inconveniente. Que tá me conduzindo, ou convencendo, ou sei lá, me guiando até alguma coisa que só você gosta. Agora, quer saber? Deixa eu te falar uma coisa... Eu não me deixaria ser conduzida, nem convencida, e nem tão pouco guiada até algo, al...

Sem Espaço

O apartamento sempre havia sido pequeno. Bastante pequeno. Demasiadamente pequeno.  Mas naquela tarde... A percepção mudou.  Ela percebeu, enquanto aguardava a sanduicheira assar alguns sanduíches de frango desfiado, o quanto, na realidade, o espaço apertado e claustrofóbico do imóvel era, no final das contas, perfeitamente adequado pra todo aquele amor que emanava daquela relação entre ela e ele. A janela na sala, por exemplo, permitia que a luz do dia iluminasse o ambiente inteiro. Desde as paredes creme da sala e da cozinha, até as marcas do rosto dele... A porta do quarto, de frente pra sala e ao lado da porta de entrada, facilitava a entrada apressada daqueles que sentiam saudade excessiva da cama, desde as motivações devassas às mais sonolentas...  Da cozinha, pequena e separada da sala por um balcão americano discreto, não era muito chegada à ideia de mais de um visitante por vez... Por isso ela costumava se inclinar sobre o balcão para observá-lo enquanto ele prep...

O Abismo

Será se faz sentido mudar a narrativa assim tão de repente?  A escalada não foi fácil, e eu sei que deixei muito sangue nas rochas que ficaram pra trás... pra baixo. Mas na realidade, eu nem sequer havia enxergado, ou melhor, percebido! que se tratava também de um abismo. De uma jornada pra cima. Muitas vezes, praticamente até ontem, me parecia uma jornada linear, repleta de altos e baixos. Um mar violento. Uma ilha carinhosa ao longe.  É um penhasco também. E eu sinto que finalmente toquei a rocha mais alta. Não é que tenha sido fácil. Não foi. Não vem sendo... As palmas das mãos, entre calos e lacerações, já me parecem dormentes, e, conseuetemente, eu me pergunto se o meu carinho ainda causa algum prazer na pele de quem ouso amar.  Celebrar a vitória antes do tempo me assusta. É uma das minhas pouquíssimas superstições... Porém, não acho que haja mal em visualizar o fim da linha. O objetivo final. Estar, sempre que possível, em perfeita sintonia com o sonho que se escon...

Tópicos Pra Quando Te Ver

Eu francamente nem entendo porque é tão difícil nos dias que não te vejo.  Não é como uma chama que se apaga. Não é como a magia que se esvai a cada momento longe da fonte, atingindo um ponto em que o feiticeiro já nem mais consegue produzir sequer fogos de artifício. É diferente. É quase uma tristeza de não ter visto o teu olhar, ou talvez... Ah... Já sei...  É válido enfatizar que foi escrevendo que me veio a resposta? Ou entraria em mais um âmbito das minhas verdades que são postas em cheque? Ajudaria se eu jurasse por Elendil? Tudo bem que as palavras fazem referências a herdeiros e à jornada de além do mar... Mas há quem interprete as referências como bem acha melhor. Quem com ferro fere... tanto bate até que fura, não é mesmo? Calma, eu não perdi o foco. Foi só uma distração.  A dificuldade de encontrar o tópico vem se tornando mais árdua. A tarefa de me tornar diariamente constante vem se mostrando cada vez mais desafiadora. E decidi por hoje pensar num motivo que ...

Previsões e Recordações

Numa certa noite prazerosa e estranha, um tempo atrás, revelei que escondo, entre as intermináveis palavras, pequenas referências cuja maioria jamais chegará sequer perto de compreender, assim como também disfarço algumas narrativas reais como se fossem ficção. Umas são previsões, cuja minha presunção me obriga a tornar públicas, e outras são, acredite se quiser, recordações de eventos que se transcreveram, muitas vezes, tal qual as palavras descrevem.  São recordações.  E eu as disfarço de ficção.  Existe, é claro, um toque de transformação literária à qual eu admito que exploro com bastante amor e orgulho. Um café derramado na cozinha pode virar uma narrativa preferida. Uma casa sem energia facilmente assume o manto de uma história à luz de velas...  Já um filme, ou até mesmo uma mera fala como um "fica", podem ser, imagine só a audácia, previsões de momentos os quais eu anseio... Se é que já não aconteceram.  Vez por outra, é claro, me vem uma saudade diferen...

O Caminho Secreto

- Mas onde fica isso, afinal? E como eu faço pra chegar lá? - Eu não posso te contar, né? - Ela respondeu sorridente enquanto abraçava o braço dele conforme os dois desciam a escadaria.  - Ué, mas eu te falei como chegar no meu. - Ele retrucou, como quem argumentasse algo irrefutável.  - Falou? - Ela questionou debochadamente. - Falou, foi? Tem certeza? - Olha... - Ele disse enquanto buscava a certeza que queria ter. - Eu posso até não ter falado falado, mas fui deixando as dicas. Não fui? - Ahh, mas aí foi decisão sua. E você foi deixando as dicas porque no fundo não imaginou que eu fosse encontrar nenhuma, avalie seguir. Agora é tarde. - Ela disse enquanto eles se sentaram juntos num dos bancos da praça.  - Então é assim? - Ele disse, disfarçando a seriedade por trás de um semblante de brincadeira. - Fica só eu aqui nessa situação, então? Ansioso, pensativo, questionando e maquinando quatro cenários diferentes em cima de um sumiço teu? - É só perguntar onde eu estava. ...

Uma Parede

Alguém construiu uma parede aqui, tá vendo? Bem aqui, olha só. Entre você e eu...  Como eu sei que você tá do outro lado? Pois é, eu não tenho como saber de verdade... Mas eu posso apostar que sim, e por tanto o faço. Quando o assunto é você, eu penso que talvez nem seja tão sábio apostar tão alto. Mas quem disse que eu ligo, afinal?  Não é uma parede qualquer, caso você não consiga ver. É o que qualquer um espera de uma parede, eu acho. Tapa a visão... Prende a luz... Não me deixa chegar perto de ti do jeito que eu quero, e te impede de vir até mim sempre que você quer. Pois bem, não que estejamos impedidos de estar um com o outro... Não é por aí, é? Já saltamos fossos medievais pra estarmos perdidos no abraço um do outro. Quebramos contratos tão reais quanto as mentiras que contamos pra si mesmos no começo.  Não é a parede que parece que surgiu do nada que me assombra. Não é isso.  Não é a altura que parece aumentar a cada dia... Não é isso também.  O que me a...

Uma Ilha no Horizonte

Contam-se agora, com o início desta narrativa, dez dias perdido num mar violento que às vezes parece se cansar em função da minha inacabável paciência... Eu gosto quando vejo que o cansei. Gosto tanto que quase me deixo levar pelo sentimento maléfico de um prazer que só me traz sentimentos sinistros. Mas gosto quando o deixo cansado... É no mínimo merecido.  A jangada metafórica na qual eu veio remando vem enfraquecendo, é verdade. Por muitas vezes eu jurava que afundaria e que seria o fim... Seria tragado às profundezas desse mar escuro e frio, que me abraçaria como uma criança ignorante à sua força abraça um filhote e o sufoca até a morte. Mas... A madeira não se desfez... As cordas ainda não se soltaram... E o remo ainda não escorregou das minhas mãos. Eu continuo remando, enfim...  Há noites e dias mais turbulentos que os demais. Há calmarias que intercedem uma tempestade da outra. Mas em meio a tudo isso, e além dos desafios que ainda nem começaram, há lá na frente, quase...

Às 4 da Manhã

Ela acordou quase como quem não tivesse sequer dormido.  O frio da madrugada lhe fazia companhia enquanto a solidão velava seu sono conturbado até então... Era uma agonia estranha que lhe arranhava os sentimentos ligados ao coração... Uma espécie de saudade que ela preferia não admitir sentir.  Foi até a cozinha em poucos passos, e demorou alguns momentos até que finalmente desse fim ao copo d'água. Continuava a pensar nele, e não havia mais como, naquele momento, buscar um álibi que servisse a si mesma. Era a lembrança dele que lhe assombrava na noite fria e lhe roubava o sono de uma forma antagônica à qual ele tão carinhosamente a fazia dormir em seu colo.  Pensou em chorar, mas descartou o sentimento como quem recusasse uma ligação indesejada de algum presídio. Abandonou o copo na pia e seguiu de volta até o quarto, onde optou pela cadeira em vez da cama. Abriu o laptop e em dois cliques acessou as armadilhas literárias por ele armadas num passado distante, e lá deixad...

Eu, Convidado

Quando eu te disse que faria quase qualquer coisa por ti... Já havia contido, no meu repertório de possibilidades incomuns e imprevisíveis, quase todos os tipos de estranhezas. Inclusive, diga-se de passagem, o convite que gerou a narrativa que se segue... - Pro culto? - Eu indaguei logo quando a Adélia lançou o chamado. Geralmente, naquela situação, eu teria de alguma forma educada e polida recusado em questão de segundos. Porém... Sabe aquele respeito e decoro que a gente tem pela Adélia? Pois é... Será se ela tira proveito daquilo? Ou será se ela realmente tirou foi proveito da minha fraqueza por ti quando mencionou teu nome junto do convite? - Olha, eu admito que é uma honra que eu não imaginava que fosse receber, Adélia. Sinceramente... Acho que seria um prazer.  E foi assim que começou essa história...  Imagine... Você, que vem me acompanhando a algum tempo ou esporadicamente e talvez até me conheça pessoalmente, já pode até abrir o sorriso só de me imaginar todo arrumad...

À Luz de Velas

O quão incrível foi a noite chuvosa de ontem, na qual eu pude, pela primeira vez, ver a cor e o brilho selvagem dos teus olhos alimentados pelas chamas delicadas das velas? Em quantos sentidos será que eu fui a tua prioridade no decorrer de um dia interminavel, que insistia em se arrastar cruelmente pelas noções do tempo? - Em pelo menos dois, meu amor. - Eu ouço a tua resposta no eco da tua voz castigada pela rouquidão do ofício. Dois? Eu pergunto, mas já sei a resposta. É só por vontade e egoísmo de querer ouvir novamente, e não pela última vez. Dois como? - Num deles, eu optei, em meio a diversos outros convites distintos, por estar contigo, à luz das velas improvisadas, num colchão qualquer arremessado ao chão, deixando e desejando tuas mãos pelo meu corpo...  Me lembro bem. Não será uma noite facilmente esquecida.  Mas... E o outro? Esse primeiro, se não fosse uma lembrança deliciosa, quase poderia ser uma alfinetada. Quase merecida. Quase requisitada. - No outro, eu opte...