Eu, Convidado

Quando eu te disse que faria quase qualquer coisa por ti... Já havia contido, no meu repertório de possibilidades incomuns e imprevisíveis, quase todos os tipos de estranhezas. Inclusive, diga-se de passagem, o convite que gerou a narrativa que se segue...

- Pro culto? - Eu indaguei logo quando a Adélia lançou o chamado. Geralmente, naquela situação, eu teria de alguma forma educada e polida recusado em questão de segundos. Porém... Sabe aquele respeito e decoro que a gente tem pela Adélia? Pois é... Será se ela tira proveito daquilo? Ou será se ela realmente tirou foi proveito da minha fraqueza por ti quando mencionou teu nome junto do convite? - Olha, eu admito que é uma honra que eu não imaginava que fosse receber, Adélia. Sinceramente... Acho que seria um prazer. 

E foi assim que começou essa história... 

Imagine... Você, que vem me acompanhando a algum tempo ou esporadicamente e talvez até me conheça pessoalmente, já pode até abrir o sorriso só de me imaginar todo arrumadinho e engomado, quase como quem buscasse impressionar os avós.

Entrei no local sagrado, e já fui logo me imaginando em combustão espontânea... Mas não. Talvez tenha sido bem recebido por Ele, ou então o Seu senso de humor supera o meu. Talvez um dia eu descubra. 

Ficamos lá naquela terceira fileira, Adélia, empolgadíssima pelo novo convidado... Eu, o novo convidado... E do meu lado, o motivo inteiro de todo o meu sacrifício divino... Você. 

Enquanto as pessoas de bons costumes se assentam e buscam os melhores cantos, eu penso baixinho... "Será se a minha presença aqui não vai... Sei lá... Causar nenhum transtorno?" 

Não é que eu seja nenhum devoto ou fiel... Mas vai que toda a mitologia é real... Um incrédulo do meu calibre poderia mesmo passar despercebido?

Não.

Todos já estavam bem sentados e preparados para o evento. E foi aí que tudo começou a dar errado. Houve uma súbita queda de energia exatamente no momento preciso em que a cerimônia começaria... Coincidência? 

As pessoas, porém, não partiram. Não, não, não... Alguns ligaram as lanternas dos celulares, e fácil assim decidiram dar continuidade. Olha, eu admito que achei admirável. No meu estado atual, falta de luz ou de energia é suficiente pra que eu cancele tudo que eu tenha pra fazer... Ou quase tudo. 

As canções, mesmo cantadas por todos juntos, ficou um momento meio estranho pra mim, já que eu não conhecia as letras... Sendo que até isso foi uma espécie de coincidência estranha que parecia mirar o mistérios dos acontecimentos justamente em mim... Entenda... havia, segundo Adélia, uma apresentação de PowerPoint que seria projetada na telona lá na frente, com as letras. Mas estávamos sem luz! Daí... Me restou ficar naquela boa e velha vibe de fingir que tava super afinado e em sintonia com a galera toda. 

Até aí, acredite ou não, até que tava tudo bem... 

Mas foi então que o salão inteiro se infestou de... Crianças! Tinha uma pra todo mundo, ou pelo menos a sensação térmica era essa, sabe? Acontece que a salinha de recreação infantil ficou no mais absoluto breu... E nisso, as tias que olhavam e cuidavam da molecada não tinham como dar conta de tanta criançada, e o resultado não podia ter sido outro se não as ferinhas soltas, correndo, gritando e pulando entre nós, os civilizados. 

Enfim... Foi isto. Um completo desastre. Nada escapou intacto que pudesse ter sido chamado de pelo menos um vestígio de sucesso. Porém... 

A falta de luz, que deixou a todos nós no calor, não me afetou tanto... Eu até achei interessante o modo como todo mundo se uniu pra iluminar o local com os celulares.

A falta das letras das canções acabou me divertindo enquanto a voz das outras pessoas me guiava pelas canções. Admito que sorri bastante ali, e me senti bem de estar tão deslocado.

Até a criançada me fez repensar a atmosfera do local inteiro. 

E só no final de tudo foi que eu percebi o quanto tinha sido uma noite interessante... Veja bem... Não era sobre o ar-condicionado, ou a falta da projeção das letras, ou sequer sobre a barulheira das crianças. 

Era sobre estar ali pertinho de ti, compartilhando um sorriso escondido só nosso entre uma pequeno equívoco e outro... 

Era sobre estar contigo, uma pessoa que consegue, sem o menor esforço, me fazer me sentir bem, feliz e especial até no mais improvável dos ambientes.

Sempre vai ser sobre isso. 

Estar contigo.




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