Posts

Torniquete

Havia uma faca enferrujada no meio da poça de sangue que se estendia por debaixo da perna dela até o corpo de um desconhecido próximo deles. O quarto era bastante escuro, mas uma pequena vela de cera de abelha alumiava o cenário violento o suficientemente para o que estava por vir.  - Você...  - Não fala. - Ele disse amarrando o pano sobre a ferida na sua perna. - Poupa energia.  - Não vai, não. - Ela desobedeceu. - Fica aqui comigo. - Isso vai doer um bocado, tá? Mas não tem outro jeito. - Ele deu um nó gentil nas pontas do pano manchado de sangue, e buscou pelo chão um pedaço de um cabo de vassoura quebrado.  - Você vai me deixar sozinha? - Ela perguntou sentindo as lágrimas encharcarem seus olhos e escorrerem pelo seu rosto entre as manchas secas de sangue. - Eu não vou aguentar. Você precisa ficar comigo. Espera aqui junto comigo. - Ninguém vai vir. Não tem ninguém. Só tem a gente. - Ele disse enquanto prendia o cabo num nó atado sobre o primeiro nó. - Isso vai d...

Se eu fosse Ulysses

Se eu fosse Ulysses, hoje eu teria visto o desenho perfeito do teu rosto belíssimo esculpido entre as formas das ondas do mar que me mantém tão afastado do teu amor. Teria te visto por um breve instante que me separa simplesmente do próximo momento em que estarei quase morto de saudades, buscando respirar tranquilamente em meio à pior agonia que já senti na vida... Estar longe de ti como um dia Ulysses esteve de Penélope.  Espero que não se incomode de ter a metáfora repetida novamente. Pra ser bem além de verdadeiro, não sei ao certo se metáfora é a figura de linguagem correta. Sei como funciona uma, e sei bem, você sabe. Onde se constrói a sensação de incerteza é por volta da mesma região duvidosa que me diz que o romance narrado por Homero não foi mera ficção, mas sim um ultraje da mais pura realidade já relatada... Um amor tão puro e visceral que fez com que um homem buscasse reunir-se com sua mulher por anos de obstáculos. Se foi real, e eu ouso comparar-me a ele sem, de fato,...

Olhos de Penélope

Não sei como foi que Penélope olhou Ulysses quando ele partiu para Tróia. Mas se não tiver sido como ela me olhou hoje quando eu parti, então ouso dizer que entendo mais de mulher apaixonada do que o próprio protagonista de Homero.  Feito o que eu imagino que Penélope tenha vislumbrado seu marido pela última vez antes da sua partida, eu imagino que ela me olhou, e nos olhos dela havia todo um oceano infindável de lágrimas que me foram reservadas pelo seu mais puro e inquebrável amor. É assim o tanto que eu sei que ela me ama... De uma forma que não se acaba. De uma forma que apenas aumenta. De uma forma que só ela e eu é quem sabemos.  Eu havia iniciado este último parágrafo afirmando que não saberia como foi que Ulysses fez pra aguentar tanto tempo longe de Penélope. E seguiria explicando como a distância provoca uma dor no espírito que vai se abrindo feito um poço profundo na alma deixando uma sensação de vazio horripilante. Como ele pode ter conseguido seguir tanto tempo se...

Lounge

Image
  - E ela não costuma te esperar feliz, é? Que estranho... - Ela disse mexendo no canudo do drink, brincando com a intenção de tomar mais um gole, observando, secretamente, o quanto ele disfarçava bem que não se importava se ela beberia ou não.  - Ela me recebe bem o suficiente. - Ele a respondeu sorridente, saboreando mais um pouco do whiskey com gelo que pedira ao barman. - Só acho que às vezes podia ser um pouco mais quente, sabe?  - Mais quente? Mais quente como?  - Ah, sei lá. - Ele disse olhando em volta, como quem buscasse um rosto conhecido pelo lounge da companhia aérea. - Mulheres são criativas, né? Você me parece ser bem criativa.  - Você acha, é? - Ela respondeu deixando que um brilho sedutor escapasse dos olhos perigosamente cativantes, cujo olhar nem mesmo o garçom, acostumado com as idas e vindas de incontáveis passageiros diários, foi capaz de escapar.  - A senhorita precisa de alguma coisa? - O rapaz, perdido entre os seus vinte e poucos an...

Além do irreversível

Quando o célebre e inconfundível Dr. Tithonus adentrou o auditório, um breve e estranho silêncio se construiu entre todos os cientistas, jornalistas e especialistas das suas respectivas áreas que estavam ali presentes para a conferência. O momento de puro silêncio então perdurou até que, num irrisório intervalo que separa um suspiro do outro, como que em sintonia, todos lembraram de aplaudir a lenda viva que se prestava a caminhar entre eles.  - Bom dia a todos. - Disse Tithonus, sorrindo e buscando contato visual com o máximo das pessoas que o assistiam atentamente enquanto incontáveis flashes de várias câmeras capturavam os menores movimentos do seu rosto durante as suas falas. - Eu gostaria de agradecer a todos que se dispuseram a estar aqui hoje para, enfim, presenciar a comprovação final de uma tese que há muito nos foi lançada como um desafio... - Ele então olhou em volta, e novamente o seu semblante foi tomado pelo brilho das câmeras. - Conforme a humanidade foi capaz de ati...

MARCAS QUE MARCAM

 - Então, tu acabou que não conheceu ninguém de interessante? A viagem inteira, criatura? - O colega de trabalho a questionou, buscando disfarçar menos o quanto não acreditava na resposta, recém chegada de intercâmbio da Inglaterra.  - Mulher, conhecer conhecer desse jeito assim, conheci não, pra ser sincera. - Tatiana respondeu, deixando os olhos passearem pelo cardápio do restaurante. - Mas teve gente que chamou a atenção aqui e ali? Teve.  - Hmm... - Ele disse.  - Hmm o quê? - Ela soltou, sorrindo e falando sem palavras que havia mais o que ser dito, afinal, desde que fosse indagada sobre.  - Pois sim, diga logo. Quem foi? - Ele a disse, acenando para a garçonete ao longe que pareceu fingir que não o via.  - Dizer o quê, homem? - Ela o disse.  - Tu voltou e trouxe contigo a habilidade de postergar teus próprios suspenses, foi? Bora, Tatiana. Quem foi o infeliz que mexeu contigo? Se é que teve.  - Ah, não sei se mexeu, mas... Deixou um gosto dif...

A Personagem Desaparecida

Era uma noite sombria e chuvosa quando o autor, cujo nome se perdera nas emaranhadas teias do tempo, se encontrava sentado numa sua velha escrivaninha de madeira sofrida, mergulhado nas lembranças mais profundas que por vezes nem ele mesmo as reconhecia... Era um criador de mundos, um tecelão de histórias que, por décadas, havia dado vida a inúmeras personagens que povoavam as páginas de seus incontáveis livros... Entretanto, algo o atormentava naquela noite de tempestade. Aconteceu que uma personagem, e não uma qualquer, mas sim a sua mais preciosa criação, havia desaparecido de suas obras completamente. Não tratava-se um sumiço casual, pois todas as personagens que ele já havia desenvolvido antes deixavam um rastro, uma memória viva em suas histórias no formato doce ou amargo de suas pegadas pelas linhas e entrelinhas dos mil contos. Mas essa, cujo nome ele havia selado numa caixa dentro do coração, havia se desvanecido como uma estrela que perde o brilho no céu noturno. O autor revi...