MARCAS QUE MARCAM
- Então, tu acabou que não conheceu ninguém de interessante? A viagem inteira, criatura? - O colega de trabalho a questionou, buscando disfarçar menos o quanto não acreditava na resposta, recém chegada de intercâmbio da Inglaterra.
- Mulher, conhecer conhecer desse jeito assim, conheci não, pra ser sincera. - Tatiana respondeu, deixando os olhos passearem pelo cardápio do restaurante. - Mas teve gente que chamou a atenção aqui e ali? Teve.
- Hmm... - Ele disse.
- Hmm o quê? - Ela soltou, sorrindo e falando sem palavras que havia mais o que ser dito, afinal, desde que fosse indagada sobre.
- Pois sim, diga logo. Quem foi? - Ele a disse, acenando para a garçonete ao longe que pareceu fingir que não o via.
- Dizer o quê, homem? - Ela o disse.
- Tu voltou e trouxe contigo a habilidade de postergar teus próprios suspenses, foi? Bora, Tatiana. Quem foi o infeliz que mexeu contigo? Se é que teve.
- Ah, não sei se mexeu, mas... Deixou um gosto diferente. - Ela disse sorrindo buscando na memória a sensação que havia sido deixada pra trás.
- Eu te peguei no aeroporto ontem, Tatiana. - Ele a disse chacoalhando a cabeça em falsa desaprovação. - Tu ainda não escovou os dentes?
- Tão engraçadinho... - Ela o disse cerrando os olhos. - Um gosto de sensação, idiota.
- Um gosto de sensação. Entendi tudo. - Ele disse enquanto acenava novamente obtendo tanto êxito quanto da última vez.
- Lá a gente foi numa festa na casa de um dos funcionários da lanchonete.
- Sei... Finalmente. E ai? - Ele disse voltando-se completamente para a mesa e para ela, entregando o corpo e a mente à sua fofoca internacional.
- Nisso, era um flat, sabe? Um apartamento super bacana e diferente, e tinha um monte de gente, e bebida e dr--
- Gente bonita, claro.
- Tinha gente feia também, acho que é uma pandemia. - Ela o respondeu sarcástica.
- Continue, continue...
- Mas tinha lá um cara... Muito mau encarado, meio isolado, sem dar muita bola pra ninguém, que parecia que nem queria estar ali.
- Truque. - Ele disse.
- Truque?
- Mulher, continua! Eu tô pensando alto. Vai, vai... E aí?
- Pois bem... E aí que eu quis que ele me visse, né?
- Hmm...
- E foi assim que eu sem querer derramei meu copo perto dele, e me ajoelhei feito uma puta desesperada pra colher os cacos do chão.
- Ele era muito mau encarado, então. Né? - Ele disse.
- Muito. Mas por que? - Tatiana questionou.
- Se não fosse, tu teria só derrubado a bebida, mas não era garantido ele ajudar, né?
- Faz sentido! - Ela disse.
- Mas e aí? Não para a história! Continua! Quem era? O que come? Onde vive?
- Olha, dessas todas aí eu só sei responder uma..... - Ela disse cerrando os olhos no modo mais íntimo e sujo que ela poderia ser.
- Cachorra...
- Nada disso... Estrangeira confusa que mal sabe falar inglês... Fui a mais perfeita donzela em apuros. Um homem daqueles, com aquela barba, aquele olhar... Eu era a isca perfeita. Tentei, né?
- Mas e aí? Tu não chegou a conhecer? Nem o nome? - Ele indagou, sem decidir se gostava da anonimidade ou não.
- Nada. Ele mal falou... A arte dele tava em outras partes. Outros atos... mas teve uma coisa que ficou...
- O quê?
- Ele tinha marcas no braço... Uns símbolos que eu não soube identificar de jeito nenhum. Umas espécies de hieróglifos, acho. Mas não eram hieróglifos, não...
- Como tu sabe?
- Porque, na sala, quando ele me puxou pela cintura e subiu a mão pelo meu pescoço, eu reparei bem e peguei nos traços ou marcas lá, e perguntei... "what it is?"
- Ele disse o que?
- Pois é, acho que ele não entendeu, ou então só me corrigiu mesmo. Ele só sorriu um pouquinho pela barba e disse "english". Vai entender né...
- Ué, todo mundo tem sotaque... Que grosso. - Ele disse, enquanto a garçonete enfim se aproximou da mesa.
- Muito grosso!
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