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Showing posts from January, 2022

Somos Todos Luz

- Somos todos luz... E todos vocês são meus. - A luz, o grão mestre celestial, antecessor e sucessor eterno de um dos incontáveis palácios da aurora infinita ecoou sua voz celeste pelos quatro cantos do Salão do Retorno.  - Somos todos luz... E todos somos teus. - Luzes não tão ofuscantes quanto a do grão mestre, os onze discípulos da aprendizagem cósmica seguiram a saudação em sintonia, acompanhando seu mentor.  - Estamos reunidos aqui para recebermos, finalmente, o retorno de nossa décima segunda discípula. Em seu vigésimo sétimo ciclo de vida, discorrido na dimensão inferior, como aprendizado vigente, ela aprendeu e absorveu experiências que serão úteis para a Luz Incandescente, e para todo o conhecimento do cosmos. Bem vinda de volta, Ar't! - Bem vinda de volta! - Todos repetiram novamente, enquanto a luz de incontáveis sóis inundava o centro do salão, e vagarosamente se extinguia, formando o semblante magnífico de uma mulher -  um eco de sua imagem quando ainda em ex...

Eu Dei Aula Essa Sexta?

- Cleyton? - Ele disse ainda atordoado, procurando abrir os olhos em meio a ardência da manhã, estranhando a chamada de vídeo tão cedo num domingo.  - Túlio, puta que pariu. Meu brother, me ajuda. - Cleyton suplicou.  - Caramba, Cleyton... Que houve, cara? Diz ai. - Túlio respondeu sentando-se na cama, quase como que num ritual que lhe trouxesse de volta uma fração da vontade de viver.  - Túlio, me diz pelo amor de Deus... Eu fui dar aula na sexta?! Eu apareci no colégio? - Porra, Cleyton, é sério isso? - Nem por um segundo ele cogitou que fosse uma indagação séria. - Cara, sem brincadeira. Eu juro que é mais sério que o ego de um estudante de psicologia que ainda não se formou. Por favor. Só me diz... Eu dei as caras na escola na sexta?  - Deu, pô! - Ele respondeu se levantando e abrindo as cortinas da janela. O céu porém, ainda estava no comecinho da ousadia de iluminar um domingo. - Aliás, pegou todo mundo de surpresa, né?  - Puta que pariu, cara. - Cleyton r...

A Última Taça

 - Pronto. - Ele disse a encarando, devolvendo a taça, agora vazia, de volta à mesa. Percebeu em suas olhos uma espécie de arrependimento que não correspondia com a sua pessoa, e ele pensou, por um breve instante, que talvez fosse um sentimento genuíno. - O que houve? - A taça, - ela disse, derramando uma lágrima repentina que lhe escorreu pelo rosto como uma estrela cadente corta o céu noturno. Ela enxugou o rastro com uma mão, e o olhou fixamente. - Tava envenenada. - Eu sei. - Ele revelou friamente, ainda tentando buscar pela luz branca da cozinha, sem charme algum, um meio pelo qual pudesse deixar de amá-la, ou pelo menos de desejá-la, e assim, naquele último instante, se ver finalmente livre do seu terrível encanto, moldado na base da mais cruel e sutil manipulação. - Como? - Ela lhe indagou, demonstrando surpresa, e consequentemente vulnerabilidade. - E isso importa? - Segurando um colapso emocional, ele sorriu. - Mas...  - Não. - Ele já sabia qual seria a indução da per...

Antes da Despedida

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"Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças" é um dos melhores filmes de ficção científica que já vi nada vida... Mas... Mudando de assunto... Existe um momento mais doloroso que aquele que antecede a despedida? Aquele que vem antes do último abraço e do último beijo? Eu penso que se houver, eu ainda não conheci... E não penso que o nome seja "Saudade", porque como já expliquei dia 11, em disfarce de ficção, a saudade traz alguns atributos misturados com a melancolia que lhe acompanha...  Longe de mim brandar o peso da ausência que se gera depois. É um poço interminável de vontades e sentimentos facilmente associadas a um vício. Porém, aqui nesse limbo existem atributos que permitem sorrisos intermitentes entre um estágio melancólico e outro, como por exemplo... O acesso às memórias doces, doces como goiabada; e a lembrança dos mimos, desde o beijo gentil ao abraço companheiro, das mordidas inconsequentes de um desejo oprimido à troca de ideias a respeito de um assun...

O Cheiro

 - Nossa, esse perfume... - Ele levantou o rosto como quem procurasse alguém conhecido entre as mesas do restaurante. Sondou as mesas vizinhas, repletas de casais iluminados pela luz branda das luminárias rústicas, mas acabou voltando o olhar pra ela. - Tá sentindo? É um perfume masculino.   - Um pouco longe, mas tô sim... - Ela o respondeu, afastando os cabelos castanhos do rosto com um movimento sutil da cabeça. - É muito bom. - Teve uma vez... E eu nunca esqueci esse dia... Eu tava voltando de uma reunião da empresa. Aliás, eu fiz foi conseguir sair mais cedo... Escondido! A parte final era uma análise idiota de um filme, e eu nunca tive paciência pra filme. Nisso, eu caí fora apressado, louco pra voltar pra casa, trocar de roupa, e ir ver a final com os caras.  - Isso tem quanto tempo? Você ainda tava com a outra lá? - Ela perguntou, sondando por uma informação específica enquanto brincava com a taça de vinho branco. - Tava, tava sim. Isso foi um mais ou menos na...

Medo e Tes--... Desejo!

- Tá sozinho aí? - Ela me perguntou quando me encontrou sozinho na varanda, com uma cerveja na mão, e quase triste espiando as janelas dos prédios vizinhos pra ver se dava a sorte de ver alguma sacanagem.  - Tava. - Eu respondi me virando pra ver quem era. Era uma moça alta, do cabelo curtinho e loiro. Trazia uma serenidade no olhar que eu nem sabia que tava precisando naquele momento. - Mas pode ser que eu precise de companhia.  - O que tem aí fora de tão interessante? - Ela falou se aproximando, deixando a festa pra trás e fechando a porta de vidro que separava os cômodos.  - Olha, além desse vento frio, só tem eu mesmo... Sinto muito.  - Mas já me parece valer a pena. - Ela disse tomando a cerveja da minha mão e dando um gole. - Por que você tá aqui fora? Tá muito doidão? - Ela perguntou num tom de preocupação genuína, o que me fez sorrir. - Ainda não. Mas eu chego lá, com certeza.  - Chegaremos. - Ela disse pouco antes de dar outro gole. - Mas fala, tá pensa...

Um Dia Ruim

 - Eu preciso muito daquela tua cara de safado... - Ela disse tão prontamente quanto ele abriu a porta.  - Eu bem que estranhei quando você mandou mensagem no meio da semana. - Ele disse sorrindo com a ponta dos lábios, enquanto seus olhos a revistavam por completo, dos pés à cabeça, por dentro e por fora. - Entra, entra...  Ela obedeceu, e jogou a bolsa em cima do sofá, e deu meia volta pra se deixar encaixar naquele abraço perfeito dele. Era uma visita inesperada, ela sabia, mas não havia como infelizmente não se apaixonar um pouco sempre que ele se mostrava tão presente. Às vezes, aliás, ela até preferia que ele não fosse tão doce, e tão irresistivelmente imprestável.  - Saudade... - Ela falou enquanto o beijava, ignorando o odor o sabor e o odor da erva, ainda tão frescos nos seus lábios e no ar. - Vem cá... - Ela o puxou em direção ao quarto.  - Opa, calma aí... - Ele a segurou gentilmente pela mão. - Senta aqui rapidinho. Me conta qual foi. Que houve? - Ai...

Sol

Já era bem tarde da noite quando o interfone tocou. Eu lembro que estava no laptop, tentando desenvolver uma nova ideia, mas sem muito sucesso. Me levantei e fui até o monitor que me mostrava, numa imagem vagabunda, quem estava na porta. Era uma moça, aparentemente muito atraente, o que de alguma forma perturbou ainda mais meus instintos procrastinadores. A ideia nova poderia esperar.  - Oi? - Eu falei pelo interfone. - Pois não? - Boa noite! - Ela disse carregando um tom de indiferença. - Eu posso subir? Preciso conversar um pouco contigo.  - Comigo...? Qual seu nome? - Eu a questionou enquanto começava a ficar um pouco tenso. Odeio quando não lembro das pessoas, o que infelizmente não é algo muito incomum na minha vida.  - Eu sou a Sol, e sou uma grande fã do seu trabalho. Queria te fazer umas perguntas. - Ela parou um pouco pra olhar para os lados, como se estivesse com receio de que algum delinquente aparecesse. Ou poderia ser tudo um truque...  É lógico que estr...

Alegria Clandestina

As portas do elevador se abriram e, aos olhos de qualquer observador, os dois entraram separados e despretenciosamente, quase que por mera coincidência, porém juntos. Ela apertou um botão, e ele se escorou com as mãos nos bolsos. Lentamente então, as portas se fecharam enquanto que nas distintas mentes um do outro, eles rezavam pra que ninguém aparecesse subitamente como nos filmes, impedindo que as portas se fechassem completamente, e adentrasse, dolorosamente interrompendo o momento. Fechadas as portas, seus olhares se encontraram, assim como suas mãos, seus corpos, e seus lábios. A saudade que os torturava durante os dias de ausência por um fio não explodia em paixão e desejo...  PLIM....  O som do primeiro andar se fez ouvir, e eles sabiam que tinham pouco tempo... Pouco demais pra tanto calor e impulso. - Não dá certo... - Ela disse, pensando em recusar um beijo que ansiava mais que tudo. - Eu sei. Eu não ligo. - Ele a respondeu enebriado pelo seu perfume. PLIM... - Vão p...

A Maldição da Bruxa

 ... e aí, como se não bastasse essa baita dor de cabeça no Reclame Aqui, me entra na loja, já quase no fim do expediente, uma mulher irritadíssima. Nossa, parecia que ia tirar da bolsa um revólver e me dar seis tiros. Daí, ela vai até o balcão, passa direto pelas roupas, nem sequer olha nada, e me pergunta assim sussurrando mais alto que o som do carro do ovo! "Você que é a Emissária da Lua? Eu preciso muito da sua ajuda!"  "Daí, eu sorri, né? Agora que eu sabia que ela não tava atrás de me matar! E sim, de um feitiço básico que só a Emissária aqui sabia fazer. Ela me disse que um amigo tinha me indicado porque viu aquele meu post do instagram, e que somente eu poderia confirmar uma suspeita... Vai entender, né?!  - Então, a senhora quer que os olhos do seu marido fiquem inflamados e vermelhos de tanto coçar, caso ele esteja olhando pra outra mulher...? Entendi direitinho? - Eu perguntei pra confirmar a maldição do jeitinho que ela queria. - É quase isso, Emissária! Qua...

Um DVD Faltando

 - Tem um DVD faltando na coleção dele. - Ela disse, com rancor e ressentimento na voz. - Tá... - O melhor amigo disse comendo uma das bolinhas de peixe, enquanto o sol castigava a pele dos banhistas e dos garçons da barraca. - E o que é que tem? Ele perdeu? - Não, cara. Você não tá... - Ela suspirou olhando pro mar não tão distante. - Você não conhece ele e o amor que ele tem por aquela coleção.São poucos DVDs, sabe, mas são organizados por ordem de raridade, e edição, e uma ruma de outras coisas.  - Entendi... E daí que tem um faltando? Qual o problema? Ele emprestou, ué... - Mais uma bolinha banhada ao molho enquanto a amiga aflita parecia caçar pensamentos com os olhos verdes mirados nas ondas. - Esse é o problema! Em nove anos, ele nunca deu, nem doou, nem emprestou DVD nenhum pra ninguém... E ai? O que é que isso significa? Óbvio, né?! - Tomada pela ira, ela finalmente pegou uma bolinha, que distraidamente acabou comendo sem o complemento do molho. - Mulher, tu nem botou...

O Pano Azul

Voltei ao nosso recanto ontem, só pra tentar lembrar e ficar em paz por uma tarde inteira... Levei um livro da capa vermelha que ja li mil vezes, uma garrafa de suco de abacaxi, pelos velhos tempos, e o mesmo pano azul que costumávamos usar quando íamos nos esconder do mundo lá por de baixo daquela árvore, perdida e solitária, pelo bosque do rio... Cheguei, abri a mochila, tirei o nosso pano azul e o estendi pela sombra da árvore. Me deitei e me dei a liberdade de não pensar em absolutamente nada.  O som dos pássaros me acalmava, enquanto o sol tentava me atingir pelas brechas das folhas, mas sem muito sucesso.  Pensei em abrir o livro e terminar os últimos três capitulos que havia reservado justamente para aquela tarde, mas a preguiça parecia ter me encontrado, e eu resolvi apenas apreciar o momento e o ambiente, que juntos me encheram de saudade e nostalgia...  - Como era bom as nossas escapadas... Como era bom o nosso abraço e o nosso beijo, que só perdiam pro nosso pa...

Dezesseis Pregos

 TOC TOC TOC - Quem é?! - Eu berrei o mais alto que pude depois de respirar fundo e sentir os ossos se esfarelando. Berrei pra que entendessem o quanto eu não queria receber ninguém. Berrei pra deixar claro que não seria hospitaleiro. Berrei por berrar, porque ainda podia.  TOC... TOC... TOC...  - Puta que pariu..! - Me levantei da cadeira, com uma garrafa pela metade da pior cachaça que você possa imaginar numa mão. Fui até a porta, e abri de uma vez pra ver se de repente conseguia fazer quem quer que fosse o imbecil se tocar do horário, e da inconveniência. Nada no mundo jamais poderia ter me preparado pra quem tava do outro lado daquela porta. O impacto inicial quase me fez esquecer a dor do câncer que me comia vivo, de dentro pra fora. Eu a olhei da cabeça aos pés, e não conseguia entender o que era que tava acontecendo... Até que olhei pros olhos dela, e percebi a imperfeição... O brilho do castanho tava errado. - Até que enfim, né? - Eu disse, abrindo um pouco mais ...

A Fada no Armário

- Por que você abriria mão de tudo que tem aí fora?  - Essa é fácil... Aqui fora não tem você!  ... Essa história é diferente das outras.   Já tem um tempo que descobri algo extraordinário onde trabalho... Nem sei se daria certo escrever aqui a respeito, mas depois de considerar o absurdo dos fatos, pensei que a veracidade incomum dos eventos acabaria se disfarçando bem no meio dos outros contos... Pois bem... Vou resumir.  Eu estava completamente sozinho numa sexta-feira à tarde quando pensei ter ouvido um pequeno ruído num dos vários armários da vasta sala de descanso. Me levantei, sem me preocupar muito com meus afazeres, e tentei escutar melhor de onde parecia vir o som.  Me deixando guiar pelo ouvido, acabei chegando até um dos armários localizado na parte mais baixa das fileiras. Me ajoelhei, e quando toquei a mão na pequenina maçaneta, o ruído parou. Abri a portinha lentamente, e pra minha surpresa, era uma belíssima fadinha, não muito menor que meu ...

Até Que Chegue Sexta

Vai ser quase que uma eternidade, pelo menos aos meus sentidos, até que chegue sexta. E não é pelo final de semana, acredite se quiser. Existem coisas, situações, meios, e instrumentos mais importantes, que contribuem mais... Que me fazem querer, por incrível que pareça, que a sexta decidisse se juntar logo com a segunda.... Mas são coisas raras. Pessoas raras, pra ser mais exato. Beijos raros, pronto.  Só de pensar que ainda é segunda-feira, eu sinto uma espécie de saudade que não tem quem explique de um jeito que possa sequer começar a parecer nítido, porque não é. É uma pintura abstrata que deixaria o dadaísmo espumando de inveja, beirando a lógica aritmética. É intolerável pensar que ainda estamos a quase quatro dias inteiros nos ver novamente.  Estar aqui, dessa ponta da semana e você da outra, quase me causa uma sensação de melancolia familiar, que eu não sabia exatamente o que era ou de onde vinha, mas que era como se houvesse algo entre nós, uma espécie de obstáculo de...

A Confissão

- Que houve, meu filho? O que é que te aflinge dessa vez? - O padre me perguntou sentando-se ao meu lado depois que a capela já estava vazia, e apenas eu permaneci lá, com os olhos molhados... de sono. - Tem tanta coisa, padre, que eu nem sei se vale o seu tempo. - Eu respondi, já quase me levantando e partindo.  -  Não sabe? E ficou a missa inteira aí pra decidir isso agora? Que tal, - ele me questionou cruzando as pernas e se sentando de frente para o altar. - se a gente deixar o drama de lado, e você me falar logo o que é que tá te comendo por dentro? Eu admirei o quão direto ele foi... Isso é algo que eu gosto nas pessoas, apesar de ser muitas vezes incapaz de usar essa habilidade. Porém, pela admiração, eu me senti... Inspirado. - Eu acho que eu tô apaixoado, padre. - Imediatamente depois de falar, me veio uma tsunami de vergonha alheia, e eu me senti como um garotinho de 5a série... Fechei os olhos e levei uma das mãos até a cabeça numa espécie de manerismo de disfarce.....

Uber

Ela nem parecia que queria, de fato, rachar aquele Uber... Acontece que no início, minha intenção não poderia ter sido outra que não fosse das mais obscenas. Quando vi ela naquele vestidinho amarelo, foi como se toda uma emoção presa nos confins dos meus sentimentos tivesse voltado... E já havíamos deixado claro, semanas atrás, que não haveria mais nada entre nós.  - É esse, TED-0169... - Eu falei quando vi o Uber se aproximar do estacionamento. Era quase meio dia, e o sol não me deixava esquecer disso. Quando pedi o carro, marquei o endereço da minha casa, que por acaso, passava pertinho do apartamento dela... Que eu conhecia bem. Meu plano agora era simples... Convencê-la, no trajeto até a sua casa, a me chamar pra subir, ou simplesmente continuar no carro, e acabar indo comigo até a minha casa. Entramos pela porta de trás. Ela ficou atrás do motorista, e eu ao seu lado...  - Nossa, eu pensei que essa sexta nunca fosse chegar. - Ela disse, passando a mão pelos cabelos negros...

Horário Comercial

 - Sabe? Entende? Por isso que eu nunca sei se tá tudo bem mesmo, ou se, sei lá, de repente falei algo ou fiz alguma coisa que possa ter gerado alguma insatisfação.  - Olha, Danilo, - O psicólogo disse olhando o relógio rapidamente. - Nem sempre tudo o qur acontece com o humor das pessoas vai ter uma relação direta com algo que você fez ou falou. Isso é um pensamento até bastabte egocêntrico. Essa história do gato que você supõe que te despreza... O zelador do seu prédio que você dedu que te m ranço de ti só porque nao te deu "bom dia"... E até essa moça agora que você tá paquerando, que você cisma em pensar que "nao gosta tanto assim" de você... Sabe, Danilo, às vezes, aliás muitas vezes, é algo totalmente não relacionado contigo. Isso tudo é egocentrismo teu. Nem todo mundo é obrigado a te dar as respostas que você pensa que merece.  - Sei... Acho que sobre a Sara e o zelador, você pode ter razão. Mas aquele gato me despreza sim. Eu tenho certeza. - É, pode ser. É...

Danado

 - E aí, Miguel... Dá licença aí um pouco, só um pedaço aqui da cama. Eu nem vou ficar muito tempo, sério. Pode ser? Vai fazer eu implorar mesmo? - O gato Danado falou, apesar de saber que o velho Miguel jamais o poderia entender. Não completamente. - Danado! - A voz trêmula e falha de Miguel escapou pelos seus lábios murchos. - V-veio... se despedir, né? O leito estava dentro de um quartinho iluminado pela confortável penumbra de um abajur ao canto. Próximo da janela, havia um monitor aferindo os batimentos cardíacos e a saturação do paciente, um homem cuja idade já lhe cobrava caro demais por cada suspiro de vida.  - É, Miguel... É hora. Eu gostaria muito que tivesse algo que eu pudesse fazer. - Danado lhe disse enquanto se aconhegava no leito, se deitando próximo do rosto do seu amigo de longas datas.  - Como é que você sempre sabe a hora certa, hein, Danado? A Maria... O Carlos... O filho do Carlos... - Miguel questionou o amigo enquanto o acaraciava entre as orelhas ...

Janeiro

 - Sabe qual é o principal problema de Janeiro? - Eu perguntei pra ela, enquanto ela anotava alguma baboseira qualquer no caderninho. - É que ele acaba. As oportunidades que ele traz vão se extinguir com ele. - Eu continuei, mesmo achando que ela não me ouvia. E daí? Se ela não se importava, quem diria eu... Eu só queria desabafar um pouco sobre toda aquela sensação de explosão dentro de mim. - São alguns dias de aventura, êxtase, euforia, e claro, saudade... Saudade pelos dias que já se acabaram, e é sempre assim, em Janeiro. Vivendo cada dia sorteado intensamente, porém, tentando manter frescas, na memória, as lembranças do dia anterior. As aventuras devassas, e os toques proibidos...  O calor emprestado do corpo dela, e o som do seu beijo, tão hipnotizante quanto o prazer do seu gemido. Quase sempre, o que eu faço é parar um pouco... Daí eu seguro o rostinho dela nas mãos e fico olhando, tentando tirar uma fotografia mental, sabe? Eu tento parar aquele momento, com ela nos ...

Saudade

 - O problema não é ter sido bom ou não... O problema é justamente porque foi perfeito.  Essa história de como eu conheci a Iara tem tudo pra ser uma ficção bem daquelas bem clichês, cheias de errinhos ortográficos e uma pontuação sem sentido, porque quase parece ter sido escrito por uma adolescente do Fundamental 2... Mas é tão real quanto a saudade que ela deixou marcada no meu peito naquela praia... - Mas se foi perfeito, pra quê terminar? A gente praticamente acabou de se conhecer! Não tem nem uma semana... Isso era eu suplicando, me humilhando pra ela... Já pensando que o sabor dela, ainda forte na minha boca, ia aos poucos se acabar, e é claro que eu iria querer mais.  A gente se conheceu totalmente por acaso, num workshop qualquer de algum coach cheio de conhecimento pra dar. Eu era de uma cidade, ela de outra, e acabamos sendo enviados pro mesmo evento, e hospedados no mesmo hotel... Eu tava mortalmente entediado durante a primeira palestra, e percebi o sorriso de...

Cinema

- Com licença, moça... - Ele se aproximou educadamente por trás dela na pequena fila do cinema, e mostrou a tela do smartphone, que mostrava os assentos disponíveis para uma das sessões que estava para começar. Eram muitas, já que, além do shopping não ser um local tipicamente lotado, não eram muitas as pessoas que se viam na vontade ou possibilidade de estar no cinema em plena terça-feira a tarde. - Você consegue me dar uma ideia de onde se sentar? É que eu não conheço esse cinema muito bem. - Ele disse.  - Engraçado... Eu podia jurar que já tinha te visto por aqui antes. - Ela respondeu sorrindo, movendo uma mecha de cabelo para o lado. Os dois trocaram olhares familiares por um breve instante enquanto antes dela descer os olhos para a tela do celular, analisar por um momento a tela, e enfim o responder. - Eu gosto muito desses aqui, os mais altos. Mais privacidade, eu acho.  - Tá, entendi. Eu tinha pra mim que, numa sala vazia assim, em questão de privacidade, o ideal seria...

Rosas Brancas

 - João? Tá acordado? - Quase como que pedindo licença ao som tranquilo e serene da noite, uma voz distante, quase espectral, tentava chamar atenção do amigo que descansava ali perto. - Diz, Fernando. Que houve agora?  - Olha só essas flores brancas. Lindas, né? Foi minha neta que veio hoje me visitar.  - Sua neta? Aquela bebezinha daquele dia? - Ela mesma! Só que agora já é uma moça. Linda e esbelta, cheia de vida. Ficou horas aqui conversando... Me contou tudo que é novidade na família. Ainda bem que ela deixou as rosas, se não era capaz de eu pensar que tinha sido tudo um sonho. - Realmente...! Era mais fácil, já que, hoje em dia, as pessoas não visitam mais cemitérios, Fernando.

Olhos nas Janelas

 - Acho que tem alguém naquela janela, lá de cima. Tenho quase certeza. - Ela me disse quando eu saí do banheiro só de toalha, e a vi na cama da suíte, coberta pelo edredom. Somente o edredom. - Eu acho que o vidro da janela tem fumê. Não perguntei ao recepcionista, mas pelo tom do vidro... - Eu falei olhando a vidraça por cima.  - Será? Foi ali, olha, onde tem aquela cortina semi aberta, com as luzes apagadas. Eu vi mexendo. - Ela disse sentando na beira da cama, usando o edredom feito uma capa. - Será se tavam tentando de ver nua...? - Eu a indaguei erguendo as sobrancelhasnum tom leve... E dai se algum voyeur no hotel em frente tava de olho na gente? Além do que... Pelo tom do vidro, nossas janelas tinham fumê... Eu acho. - Me ver?! - Ela riu. - Talvez queiram ver você, todo bonitão ai de toalha. Super sexy. - Nao seja por isso! - Daí, lógico que eu tirei a toalha e deixei cair no chão...  - Olha só... - Ela disse me olhando dos pés à... Cabeça. - Olha, acho que não fu...

Tempo e Cama

- Caramba, que horas sao..?! Eu perguntei eufórico enquanto as mãos dela passeavam pelo meu corpo, me explorando e me acariciando. Nao tinha como saber quem era o beneficiado ali, debaixo dos lençóis da cama dela, na penumbra deixada pelas cortinas. Eu ainda lembro da primeira vez que ela me chamou pro seu apartamento. Ainda me causa um frio no estômago e uma palpitação gostosa no meu peito... Lembro do modo meigo e sedutor com o qual ela sinplesmente me olhou e disse "passa lá em casa hoje... Fica a tarde inteira comigo." Meu corpo disse 'sim' antes mesmo que eu tivesse compreendido a pergunta.  Naquela tarde infinita, aquele apartamento virou o palco de uma peça que teria deixado o próprio Marques de Sade orgulhoso... dentre outras  coisas.  - Não sei, tanto faz... - Ela me respondeu, perdida entre meus braços, meu cheiro, meu abraço...  Eu olhei em volta e achei um pequeno relógio na cabeceira... Que estranhament marcava 14:08h... Cedo... Deliciosamente cedo. Me e...