Saudade
- O problema não é ter sido bom ou não... O problema é justamente porque foi perfeito.
Essa história de como eu conheci a Iara tem tudo pra ser uma ficção bem daquelas bem clichês, cheias de errinhos ortográficos e uma pontuação sem sentido, porque quase parece ter sido escrito por uma adolescente do Fundamental 2... Mas é tão real quanto a saudade que ela deixou marcada no meu peito naquela praia...
- Mas se foi perfeito, pra quê terminar? A gente praticamente acabou de se conhecer! Não tem nem uma semana...
Isso era eu suplicando, me humilhando pra ela... Já pensando que o sabor dela, ainda forte na minha boca, ia aos poucos se acabar, e é claro que eu iria querer mais.
A gente se conheceu totalmente por acaso, num workshop qualquer de algum coach cheio de conhecimento pra dar. Eu era de uma cidade, ela de outra, e acabamos sendo enviados pro mesmo evento, e hospedados no mesmo hotel... Eu tava mortalmente entediado durante a primeira palestra, e percebi o sorriso dela de longe quando ela me viu lutando contra o sono...
- Uma semana indescritível, - ela me disse, tocando minhas mãos e as levando pra perto do rosto... - Você foi ótimo. Aliás, você é incrível. É muito fácil só olhar pra ti e te puxar te volta pro quarto, mas não é isso que vai acontecer. Amanhã é meu voo, e o seu logo depois, e aí...
Depois da palestra, fui lá trocar uma ideia com ela, e a gente acabou se entendendo muito rápido. Mas quando eu falo que foi rápido, é porque foi mesmo... Não sei se foi o clima da praia, ou algo assim, mas naquela primeira noite, a gente passeou juntos pela areia, trocando carícias, e foi tão intenso que só faltou mesmo uma trilha sonora do Renato Russo pra combinar. Eu falei que gostava de desenhar, e ela me pediu pra ver alguns desenhos... No meu quarto, claro.
- E aí, a gente cultiva o que aconteceu aqui, - eu falei puxando ela pra perto de mim. Eu gostava de sentir a respiração dela pertinho da minha... - A gente leva pra nossa vida, sei lá. A gente tenta fazer algo acontecer. Por que não?
Eu nem sei onde a gente passou mais tempo. No quarto dela... No meu... No chuveiro dela... No meu... Na sauna... Na piscina... Ou na praia, esquecendo toda e qualquer noção de responsabilidade.
- Porque não vai ser assim, como foi aqui. Não vai... Isso que a gente teve aqui foi... Foi um algo único. Um evento único, entende? Eu sei que cada um de nós tem pra quem voltar. Vida, trabalho, rotina... Se a gente forçar o que rolou aqui, não vai dar bom, e vai ser um fracasso. Tem que acabar como começou... Entende? Só assim pra gente poder lembrar e sentir falta. Lembrar de como foi perfeito o encaixe.
Iara... Eu queria que ela pudesse me ouvir agora, aqui na varanda do mesmo hotel, um ano depois. Sinceramente, eu nem me reconheço, olhando pra lua no alto, com os olhos molhados, e o vento me consolando.... Iara, como foi gostoso te conhecer, te beijar, te abraçar e me perder no teu sabor.
- Tá bom... Eu discordo totalmente, Iara... Mas quer saber, se é assim que você quer, é assim que vai ser. Se é pra cultivar saudade e nostalgia, tudo bem... Nem que todo dia eu faça um desenho diferente pra ti... Pra ser meu jeito de conversar contigo, mesmo sabendo que você nem tá ali pra ver... Agora vem, vamo pro quarto que eu quero te aproveitar enquanto ainda te tenho.
Não tem palestra esse ano, mas ninguém precisava saber disso quando eu agendei o voo de volta, na mesma época e pro mesmo hotel... Eu entendo que é um baita tiro no escuro. Talvez um prejuízo... Mas na pior das hipóteses, eu vou me embriagar nas lembranças do toque e do calor do encaixe que a gente teve...
Eu me pergunto até se consegui esconder os olhos vermelhos de um choro reprimido de saudade e desejo, quando de fininho, quase que num gemidinho, a voz dela me fez cócegas no ouvido falando...
- Eu quero ver todos os meus desenhos.......
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