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Showing posts from May, 2022

Eco Pelos Corredores

- Eu as ouvi de novo,.... As vozes perdidas pelos corredores da casa. - Ele me disse enquanto o olhar perdido buscava algum consolo pela mesa do café da manhã que eu o havia preparado.  - Não conseguiu dormir de novo, Nilo? Tomou o remédio que o médico passou? - Eu o questionei enquanto, com as minhas mãos velhas e trêmulas, enchia sua xícara com café.  - Tomei não. Esqueci. - Ele me respondeu levando a xícara até perto do rosto. Deu um cheiro na fumaça do café como sempre fazia, na esperança que melhorasse o fungado forte que o acompanhava pelas manhãs, e depois um gole bem raso. - Era ela, Alfredo. Era a voz dela de novo. Ele se prendia à memória dela quase como uma obsessão que muito em breve lhe consumiria o espírito totalmente, e não havia mais nada que eu pudesse fazer que eu já não tivesse tentado. - Quem sabe a gente pudesse fazer aquela viagem, hein, Nilo? Visitar aquela sua amiga que vive te chamando pra ir lá conhecer o litoral.  - Viajar pra quê, Alfredo? Com ...

"Let's get out of here."

Vez ou outra, entre um momento repentino e um sussurro de uma oportunidade, eu costumava te chamar com a provocação de uma fuga impensável.  É verdade que desejamos a felicidade do próximo, ou pelo menos dos que no são próximos ao coração. O custo que e paga por tamanho altruísmo é alto o suficiente para que se questione a própria conduta louvável. Até onde vale a autenticidade de um "Estou feliz por ti", se no fim do dia, o que conta, de verdade, é o nosso tão esporádico sorriso sincero? "Bora cair fora daqui." Eu dizia. Você foi. Eu continuo aqui.

Estranho

Me explica esse adjetivo, jogado assim, tão solto e certeiro, quase perdido - se não tão acusativo, apesar de injusto - no final, longo onde, de uma despedida de um verso de amor. Me explica de um jeito que ilumine os meus pensamentos não como a lua se despeja sobre a floresta, mas como o sol toca o deserto.  Me explica sem os teus devaneios e meias palavras que fingem não dizer nada, mas que na verdade trazem a tua consciência velada. Me explica falando o que é que tem escondido entre uma sílaba e outra, no intervalo interminável entre um silêncio e outro.  Estranho é o desconforto que a ausência da tua voz me faz.  O silêncio perturbador que ecoa pelos oito cantos da casa. A cama que sente comigo o frio da madrugada. A melancolia que me acompanha até a porta.  Esse é o meu estranho. E o teu, qual é?

Suada e Com Fome

Uma gota de suor lhe escapou o rosto e se atirou sobre o piso do apartamento antes mesmo que ela pudesse entrar.  A respiração ofegante, produto dos quatro lances de escadas intermináveis vencidos poucos segundos atrás, quase lhe distraía o suficientemente para que esquecesse que antes mesmo de um bom banho, precisava desesperadamente comer...  - Amor? - Ela espalhou o som pelo apartamento, mas não obteve resposta.  Alguns poucos passos a levaram até a porta do quarto, onde ela o viu, após abrir a porta delicadamente, dormindo profundamente, alheio às necessidades dela, o filho da puta , ela pensou. Jogou o celular sobre o sofá. Expirou quase que extremamente irritada, e despiu-se ainda na sala. Tomou as roupas nos braços, e quando precisou cruzar a cozinha de modo a despejar as roupas na máquina, atentou num papeiro ainda morno em cima do fogão, acompanhado de um pequeno bilhetinho no qual os garranchos da caneta esferográfica liam... "Amor, não consegui te esperar porqu...

Tá Gostando?

- Amor? - Ele perguntou, movendo o rosto um tantinho pro lado, desconfiando que ela havia, na verdade, adormecido entre uma cena e outra do filme que se desenrolava na pequena tela do laptop sobre a cama. - Tá gostando?  Ela, então, despertou de um sono leve e gostoso que cambaleava entre a realidade e o sonho, enquanto ela fazia do seu peitoral despido um travesseiro quente e acolhedor. Inspirou um pouco e sentiu o cheiro dele lhe enfeitiçar e lhe seduzir enquanto buscava fingir que não dormia.  Ela apertou vagarosamente seu ombro macio, resistindo à tentação de arranhá-lo apenas para que pudesse desviar do assunto por um breve instante... Curto o suficiente para que pudesse esconder o bocejo, e ele não se irritasse e acabasse se movendo, destruindo a perfeição que era aquele momento naquela posição, tão intimamente satisfatório... Tão deliciosamente mergulhado numa luxúria apaixonada e romântica.  - Tô amando . - Ela respondeu.

Pouco Mais de 8 Minutos

Observei as estrelas ontem de noite, e pude perceber o quanto elas me fazem lembrar de ti... E nem é pelos motivos óbvios. Não é pelo brilho singelo e belíssimo que elas irradiam em meio à escuridão absoluta do céu noturno. Aliás, essa própria descrição me compele a imaginar: em quantas histórias reais, essa metáfora ousa encaixar-se? Seria você um brilho singelo e belo na escuridão que é o meu amor? O nosso romance?  Neste caso... Será se começamos a apaixonar-se num pôr do sol metafórico? Em que altura da noite ou da madrugada estamos, então? E desejar que o sol não venha a nascer se encaixa em qual tipo de pecado?  Mas não... Não é o brilho que me lembra você. Não é a beleza delicada dos astros também.  É a melancolia de saber que a distância entre mim e elas é tortuosamente imensurável... Ao ponto em que uma fração destas estrelas, modestas e encantadas, já nem sequer existem mais no nosso plano cósmico, e o que me encanta no escuro da noite é apenas a lembrança das s...

Foi Tudo Uma Grande Viagem

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Foi tudo uma grande viagem.  Não havia nada daquilo que eu pensei que houvesse, e apesar de, por muitas vezes, ter me parecido óbvio e sensato pensar que tudo era alucinação do cogumelo rabiscado em sentimentos, eu insistia em depositar minha fé nos movimentos psicodélicos daquela viagem tão irreal quanto um brigadeiro sem leite condensado.  Aliás, eu senti fome pelo doce que não existia, e me lembrei de uma referência romântica de uma sobremesa que, na realidade, nunca foi sequer preparada. Tudo foi fruto de uma imaginação fértil submetida aos delírios das toxinas de um rabisco tão bem desenhado que eu julguei ser digno de um conto inteiro. Aqui estamos.  Tirei a margarina da geladeira e imitei o que ela fez, ou melhor, o que eu imaginei que ela fez. O que eu pensava ter vivido. Aquilo que eu pensei ter acontecido. Eram quatro ou cinco colheres? Tanto faz... Desisti do doce, e de alguma forma lembrei de apagar o fogo. Se é que eu havia, em algum momento da aventura, acen...

O Dicionário

Diferentemente de ti, eu não amaldiçoo meus títulos com letras minúsculas nos começos das palavras. Mas... Eu penso, reflito, e pondero sobre essa falta absurda que você me faz. Essa saudade que atormenta, de um jeito silencioso e cruel, o meu dia. Como se já não bastasse todos os motivos que eu tenho pra não sorrir sinceramente, ainda me vem mais isso... Eu escrevo, traço, grifo... Formas literárias organizadas em contos enquanto ouso usar uma parte do meu dia pra pensar em ti. Lembrar de ti. Buscar nossos momentos na lembrança. Na memória. E fico cogitando, contemplando, imaginando as tuas caras e bocas quando ler cada uma das nossas referências.   Eu me irrito, me frustro, me enraiveço com essa distância estúpida, idiota, e imbecil, que insiste em me afastar, me isolar, me separar de quem, até tão recentemente, me alegrava com o mais simples dos olhares... Que falta me faz o teu olhar.  Eu desejo profundamente, no decorrer dos meus dias atrelados de atividades, te ver ...

Observando e Contemplando

A Ilha sempre foi real. Houve já uma série de expedições nas quais eu me joguei sem pensar duas vezes. Mentira seria se eu afirmasse que pensei ao menos uma vez antes de jogar as roupas na mochila e partir na direção dela. Da ilha, digo. Não se perca na narrativa. No passado, é justo admitir que as viagens eram um produto de uma diversão sem medida. Um ato regado pelo sabor da aventura de se emaranhar com o perigo de toda aquela selvageria, que aos poucos foi se tornando o meu ambiente quase preferido. Será se é certo falar assim? Gramaticalmente?  As idas tendem a ser mais alegres que as voltas. Imagine que a balsa que me leva até lá demora cinco dias inteiros pra chegar, enquanto que na volta, é como um domingo que se estende por toda uma hora inteira... Tão sorrateiro e rápido quanto uma desilusão. Em verdade, eu odeio as voltas, e às vezes penso que sou um escravo das idas. Talvez isso, ousando um pensamento doloroso, mereça alguma espécie de revisão.  Existem incontáveis ...