Eco Pelos Corredores

- Eu as ouvi de novo,.... As vozes perdidas pelos corredores da casa. - Ele me disse enquanto o olhar perdido buscava algum consolo pela mesa do café da manhã que eu o havia preparado. 

- Não conseguiu dormir de novo, Nilo? Tomou o remédio que o médico passou? - Eu o questionei enquanto, com as minhas mãos velhas e trêmulas, enchia sua xícara com café. 

- Tomei não. Esqueci. - Ele me respondeu levando a xícara até perto do rosto. Deu um cheiro na fumaça do café como sempre fazia, na esperança que melhorasse o fungado forte que o acompanhava pelas manhãs, e depois um gole bem raso. - Era ela, Alfredo. Era a voz dela de novo.

Ele se prendia à memória dela quase como uma obsessão que muito em breve lhe consumiria o espírito totalmente, e não havia mais nada que eu pudesse fazer que eu já não tivesse tentado.

- Quem sabe a gente pudesse fazer aquela viagem, hein, Nilo? Visitar aquela sua amiga que vive te chamando pra ir lá conhecer o litoral. 

- Viajar pra quê, Alfredo? Com qual intuito? - Ele se entregava novamente a cada sílaba. Eu havia feito um café bem forte, mas por pura necessidade. Acontece que até o bendito café havia sido corrompido pela lembrança dela. 

Não era pra menos que Nilo sentia falta da companheira. Eu, assim como ele, lamentei profundamente a sua partida, mas diferentemente dele, eu soube aceitar e entender os modos pelos quais a vida traça as suas rotas tantas vezes injustas e tão amargas quanto o café que ela preparava pra ele com tanto amor e carinho nas manhãs frias de Janeiro.

- Viajar pra melhorar, Nilo. Esquecer essa casa um pouco... Deixar pra trás esse clima tão pesado. Essas vozes pelos corredores. - Foi quando senti o acusação no seu olhar. Ele não estava tão perdido, afinal, ao ponto em que não reconheceria minhas intenções veladas por trás das minhas palavras sinceras, porém sorrateiras.

- Você não acredita, né, Alfredo? - Ele me questionou, repousando a xícara de volta à mesa, e, entre um fungado e outro, levantando-se lentamente, como quem buscasse forças na vontade de viver, em vez de no próprio corpo. - Não acha que ela esteja por perto, né? Você acha que eu tô ficando doido.

- Não, Nilo. Não. - Eu não podia acreditar naquilo nem por um segundo. Seria perder a única pessoa a quem eu ainda tinha neste mundo. Se eu perdesse Nilo, seja pra loucura ou para a morte, em quanto tempo estaria eu buscando sinais de sua presença, assim como ele faz por ela? - Eu só quero que você fique bem... Que você se recupere desse estado no qual você se deixou cair, rapaz... Que você seja capaz de seguir em frente. - Eu o disse me aproximando dele, e segurando uma de suas mãos geladas.

- Eu sei. - Ele me disse tentando me reconfortar num abraço que eu prontamente devolvi. - Eu te entendo demais... Mas tenta me entender também. Pode ser? - ele me perguntou enquanto me olhou nos olhos, e naquele momento, ele até que parecia bem, e quase conseguiu me fazer me sentir bem por um instante. - Fica tranquilo, tá bom? Tudo vai ficar bem. 

Naquele dia, realmente parecia que havia alguma presença a mais na casa... Não pelas tais das vozes que o Nilo dizia ouvir madrugada à dentro, mas por um peso que eu senti durante o lento decorrer das horas. 

Lembro que abri algumas janelas pra que o sol pudesse entrar e tentar iluminar um pouco o clima, mas nem assim eu consegui me livrar do gosto amargo que insistia em perdurar pelo dia adentro.

Nilo não desceu para o almoço, e durante a tarde não tocou nem nas tapiocas que eu preparei. Decidiu que ficaria novamente apenas na degustação do café... Eu me retirei até a cozinha, onde ignorei a fome e o cansaço, em função de pensar numa solução que pudesse ajudá-lo de alguma forma. Lembro de ter enxugado os olhos uma ou duas vezes antes de tomar minha decisão... 

Liguei para o médico da família quando a chuva começou, quase já no encalço da noite fria que se aproximava. Ele me garantiu que estaria em nossa residência logo cedo pela manhã, porém antes que eu pudesse agradecê-lo imensamente, precisei desligar quando pensei ter escutado o som de água correndo por dentro de casa. A chuva me fez pensar duas vezes, mas eu tive a certeza de que não me enganara.

- Nilo? - Eu gritei da cozinha, deixando o telefone sem fio sobre o balcão. Ele não me respondeu. Repeti o apelo algumas vezes conforme caminhei até a escadaria da casa, apenas para me deparar com a cascata d'água que descia os degraus da escada. - Meu Deus! Nilo! Olhe isto! - Gritei por ele, imaginando de início que um buraco no telhado do andar de cima pudesse ter deixado toda aquela água da chuva entrar... Nunca estive, porém, tão longe da realidade.

Me esbravejei como pude e comecei a subir as escadas cautelosamente, sem saber exatamente onde o som da água parecia mais ensudercedor... lá fora no temporal assombroso, ou lá dentro, na solidão tempestuosa. Não tardei muito até que meus pés me conduzissem, enfim, até o andar de cima, e eu pude então seguir a água pelos corredores intermináveis até seu ponto de origem... O quarto de Nilo. 

A porta, por sorte ou por azar, não estava trancada, e eu pude entrar no quarto sem muito esforço... Não havia ninguém na cama, e o riacho que percorria e alagava o cômodo claramente se originava no banheiro, onde entrei desesperadamente, sentindo o aperto no peito... Um aperto que jamais poderia me preparar para a horripilante e trágica cena que se seguiu perante meus olhos incrédulos... 

Nilo estava jogado na banheira, cuja torneira esguichando água, encontrava-se totalmente aberta... Quando me arremessei sobre ele para evitar, em puro instindo, que se afogasse, foi que reparei em sua cor pálida, seus olhos deprivados de vida, e seus punhos abertos e vazios do tanto que já haviam compartilhado sangue com toda aquela água espalhada por toda a casa.

...

Em algum momento da manhã seguinte, algumas horas depois da torneira ter secado a reserva de água da casa inteira, ainda de joelhos na banheira, senti a mão do bom Dr. Rodrigo me apalpar o ombro... E só então me dei conta, de fato, que segurava em meus braços o meu menino Nilo. Eu não poderia soltá-lo durante a madrugada... Não poderia tê-lo abandonado ali, naquele estado... E por tanto, passei a noite inteira com ele, evitando que se machucasse ainda mais. Evitando o inevitável.

Dr. Rodrigo me guiou até o andar de baixo, onde juntos ligamos para as autoridades locais, que não custaram a chegar. Expliquei ao perito, conforme fui capaz. o que havia transcorrido... Porém expliquei sem lembrar, entende? Narrei a história como havia acontecido, mas não consegui me dar conta de que ela havia de fato transcorrido... Como poderia? Já era manhã... Como era possível que eu falasse da morte de Nilo, se na minha mente, logo logo ele desceria para tomar café? Como pode um sentimento ser tão avassalador e, ao mesmo tempo, intangível, quanto a perda irreparável de alguém cuja hora se mostrou tão precipitada? 

- Não faz sentido, doutor... Nilo era tão jovem. - eu disse ao bom médico, procurando onde depositar o meu olhar perdido.

- Vamos, Alfredo. Você fica lá em casa por um tempo... Aqui não é lugar pra ninguém ficar. - Ele disse me guiando pelo ombro conforme atravessávamos a porta da entrada alguns momentos após a partida de todas as autoridades. 

Foi naquele momento final, quando busquei as chaves da residência no porta-chaves na parede, que pensei ter ouvido por um breve instante apenas, vindo lá de cima do casarão vazio, ecoando em segredo pelos corredores intermináveis, tão familiar quanto na manhã de ontem, um forte fungado....



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