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Showing posts from July, 2022

A Formiga Dagoberto

- Vem cá, - a formiga Dagoberto disse. - Tu num tinha dito que nem queria ir nessa balça? - Arca, Dagoberto. - Respondeu Teolinda, a formiga. - O cara lá fez uma arca. É uma arca. E sim, eu não queria ir. Mas agora, vendo que o céu tá realmente ficando nublado, acho que não faz sentido alguém me perguntar um dia "você foi pra arca?" e eu disser que não. - Entendi... - Dagoberto disse enquanto passavam, há poucos metros de uma enorme rampa de madeira, por de baixo de uma linda violeta cujas pétalas as protegiam do sol, quase como que lhes cobrindo numa fenda. - O que foi? - Ela perguntou gentil e cuidadosamente. - Nada. - Ele lhe disse indiferente.  - Tem certeza?  - Só achei estranho. Só isso. Não é nada demais. - Disse Dagoberto. - Fala... - Não é nada. Mas é estranho você resolver que quer ir na barca no mesmo dia que o Waldir resolveu ir também. - Ele disse, enfim.  - Arca ... Olha, não tem como eu inventar que isso não me motivou. - Ela disse tentando mesclar o rosto ...

O Inesperado Caso do Deliciosamente Proibido

 - Não tem como afirmar ao certo o que houve. Só lembro que a sedução era o que me motivava, mas não a sedução física que ele prometia e cumpria. - Ela disse, evitando parecer tão perdida em sua própria certeza. - Não, não... Era uma sedução diferente.  - Diferente? - Ele a questionou, desenhando pequenas esferas do dragão no caderninho de anotações.  - É... Diferente. - Ela reafirmou. - Diferente como, Taís? - Sabe quando a gente nem tá muito interessada em fazer uma coisa, mas só por conta que alguém disse que não podia, a gente foi lá e fez?  - Quem disse que você não podia, nesse caso? - Ele a questionou.  - O jeito dele. O modo como ele parecia estar... Num outro plano. Um lugar distinto... Longe. - Ela falou quase levantando-se da poltrona conforme buscava a palavra certa.  - Um lugar diferente daquele ao qual vocês dois pertenciam. Já que a unidade de vocês, na realidade se fazia pela distinção, e não pela união. É justo afirmar que a identidade de v...

A Conquista da Praia da Areia de Cristal

Havia já algumas boas semanas desde que exploradores bêbados falavam pelas estalagens da cidade a respeito da tal praia das areias de cristal... Mentira, lenda ou mito, a história não tardou em ganhar força entre os exploradores e conquistadores do rei, que se prontificaram a descobrir de uma vez por todas se a praia era real ou não. Acontece que na história também havia um importante complemento... As dificuldades para se chegar até lá... A travessia pelos corais que saltavam para fora das águas violentas que cercavam a ilha da tal praia era dita ser impossível.  Mais de vinte marinheiros, dentre eles, piratas, capitães, pescadores, mercantes e até professores e contistas, se atreveram a embarcar na jornada que prometia pouco além da morte certa e fracasso.  - Se hoje partimos, é com a esperança de um dia alcançarmos e conquistarmos esta praia...! - Bradaram os aventureiros rumo ao horizonte.  Passaram-se vários meses, e com eles a aventura foi se intensificando. As temp...

Um Bosque Que Se Chama Solidão

Nessa rua, Nessa rua tem um bosque... Onde eu cresci, de fato havia um bosque bastante extenso. Lembro que ainda muito novo flertava com a ideia de me aventurar por entre suas árvores e ousar me perder para quem sabe nunca mais ser encontrado. Ser esquecido, ou deixado pra trás, era algo que não só agitava o meu âmbito, mas como também, me acompanhava pela mão até a porta de entrada para o que hoje em dia nós chamamos de excitação.  Que se chama, que se chama solidão...  Não sei ao certo afirmar, mas talvez seja por conta da canção de ninar que eu sempre associei aquele e qualquer outro bosque à solidão. Se eu parar pra pensar no quanto esse conceito se tornou um parasita da minha alma, eu sinto até ódio de até hoje não ter sido capaz sequer de me acostumar à sua insuportável presença.  Dentro dele, dentro dele mora um anjo... Poderá haver, em toda a ficção ou realidade, uma criatura mais solitária, afinal? De repente, parando pra pensar... é até uma gentileza dormir sem ...

O Passarinho da Janela Pequena

Eu queria saber exatamente ao certo quantos dias se passaram desde que fiquei preso aqui no porão. No começo até fazia sentido imaginar que uma hora ou outra, dessem pela minha ausência. Porém, conforme os dias foram passando, e a dor se tornando uma confortável dormência, eu comecei a entender que uma vida inteira de isolamento finalmente mostraria as cartas que vinha guardando na manga durante todos esses anos.  Vi um passarinho, que me parecia azulado, visitando a pequena janelinha que dava para a rua. Tive a impressão de que ele me viu aqui caído, mas que nada pôde fazer pra me ajudar. Não conseguiria quebrar a janela... e certamente seria incapaz de buscar ajuda... Mas sei que me viu.  Ele retornou algumas vezes antes que eu me desse conta de que não mais o via, assim como não mais via nada ao meu redor. Nesta última visita, ele me deu o breve conforto do seu canto... Se tentou me falar algo, falhei em entendê-lo... mas quem sabe estivesse me confortando. Que mal há, enfi...

Quer Trocar de Lado?

Era uma cama pequena, mas que quase confortavelmente cabia a nós dois. Eu já tinha me viciado no calor que era aquele corpo dela nas madrugadas frias convidadas pelo sítio sempre quando a noite avançava.  Foi até uma surpresa inesperada quando, numa dessas noites maravilhosas que tivemos juntos, ela chegou a sugerir que trocássemos de lado. Eu ficaria na ponta, enquanto que ela se limitaria ao lado da cama que namorava com a parede... Admito que meu sorriso ao aceitar a proposta foi puramente calculista.  A madrugada não chegou muito longe antes que eu despertasse com a sua manobra evasiva... Senti suas mãos posicionadas entre minha cabeça, enquanto os joelhos cuidadosamente buscavam se apoiar entre o meu corpo... Ela montava em cima de mim, porém buscava um jeito que não me despertasse... Imagine só o susto quando eu sussurrei... - É muito mais difícil ir ao banheiro quando se deita desse lado, né?  

Parte da Platéia

 - E isso foi quando? Ontem? - Não! Isso foi na quinta série! Presta atenção na história, caralho.  - Ué, mas você disse que ontem tua tia te levou num culto, e aí começou a falar dessa menina metida a punk... Me perdi? - Perdeu. Totalmente. Sim, eu fui arrastado pra um culto ontem, e por conta do culta eu me lembrei de uma época, distante e remota da minha vida, na qual eu... me engracei com uma garota metida a punk. E eu lembrei disso porque ontem no dito culto, ao qual fui arrastado pra conhecer gente nova, já que a minha tia me acha um fodido que não pega ninguém... - Ela ainda não entendeu que tu é feio, né? Negação familiar é uma coisa linda. - Ela não entendeu isso ainda. Exatamente. - Prossiga. - Daí, acabou que de fato tinha uma porrada de mulher bonita mesmo por lá, mas assim, sem querer dar uma de inquisidor, porque afinal quem sou eu pra julgar, né? Mas sabe aquela pessoa que é movida a postagem de instagram? Roupinha de lojinha cara de marquinha de blogueira, com ...

Cuidado Com o Espelho

Eu demorei a entender que a sensação de inquietude e assombramento que me visitava sempre que o sol se punha era na realidade algo muito mais perturbador do que quaisquer uma das possibilidades que eu cogitava quando me desafiava a lançar o olhar contra aquele espelho grande do quarto.  Desde muito cedo na infância, eu sentia um terror que me consumia até os ossos sempre que, caída a noite, eu passava, nem que remotamente, por perto de um espelho enorme da época colonial cultivado em bom estado pela minha avó na casa dela. Eu odiava aquela sensação. Acontece que por algum motivo eu não fui contra ficar com o objetivo maligno após o falecimento da vovó. Trouxe pro meu apartamento um quadro de uma praia tranquila e isolada pintado por um tal de J. Carvalho. Em meio aos pertences, há também uma espécie de caixinha de música em formato de uma pombinha branca, cuja melodia não me é familiar, mas que já me apeguei profundamente, e finalmente, o espelho, que eu findei por deixá-lo isolado...

Café Sozinho

A água ferveu rápido hoje... Justo hoje.  Lembro de situações nas quais passei o que me pareceram horas esperando o doce som das borbulhas na chaleira se fazer presente. Hoje, eu até que desejei que demorasse tanto quanto naqueles momentos... Mas foi tão rápido quando o arrependimento que se esconde sorrateiro atrás de uma decisão premeditada. Hoje fiz café sozinho. Verdadeiramente sozinho...  A próxima visita, se pelo menos uma vez tudo ocorrer como planejado, só deve bater à porta em questão de quatro dias. Eu só preciso de quatro minutos. Eu juro que tentei gostar de café sem açúcar, pra tentar de alguma forma te impressionar ainda mais. Em minha defesa, entretanto, é uma das minhas mais preciosas válvulas de escape, esse café nem tão doce nem tão amargo... Quase uma ponte entre a ficção e a realidade... Um limbo onde eu até que não acharia tão ruim de transitar. Quem sabe? Foi estranho fazer café sozinho. Sentir o cheiro tomar a casa pra si, enquanto a água inquieta dissol...

Não Querer Te Ver

Sabe qual é o meu receio mais real perdido entre tantos outros que ainda nem alma tem?  Sim, pois nem todo receio é justificado como são os meus. Os teus que tem algum elo com a minha pessoa, por exemplo, me parecem desalmados feito um pagão perdido na paróquia.  Acontece que você, meticulosamente, porém não cautelosamente, foi montando as estruturas pelas quais se fez construir um monumento de demolição devastadora que pudesse deixar nítido pra mim o quanto eu tinha razão em temer pela destruição daquilo que eu pensei que estivéssemos construindo juntos. Doeu de um jeito que eu quase não consegui fingir que nem foi tanto. Doeu pelo modo ao qual foi arquitetada toda a queda... Doeu de um jeito que eu quase chorei.  Quase. O meu receio é não querer mais te ver nem mesmo quando toda a saudade me rasgar o peito buscando os teus vestígios perdidos no meu coração, saudoso do calor dos teus carinhos estranhos.

Pintei a Parede de Vermelho

- Eu sei que tínhamos combinado que seria azul clarinho, mas quando eu vi esse vermelho sangue foi quase que uma epifania de o que realmente significa lutar pelo que eu quero. Eu até imaginei que talvez você ficasse com raiva, e que sei lá, podia ser que eu te magoasse... Mas olha só essa cor... Olha como é viva. Olha como emana algo orgânico, né? Não sei explicar direito, mas acho válido tentar depois daquela nossa briga. Nem sei se conta como uma briga, conta? Eu sei que eu disse coisas que te magoaram, e que você também acabou falando algumas verdades que tavam te sufocando, e quer saber? Essas coisas acontecem, né? De repente foi isso que me fez escolher esse vermelho tão diferente, tão forte, tão vívido... A reação que eu não tive contigo na hora da discussão, eu acabei tendo quando comprei a tinta... Enfim, é isso... Queria que tivesse outro jeito de te contar que quebrei o acordo da cor da parede... Queria poder disfarçar o vermelho em duas ou três dicas que você eventualmente d...

A Estufa

 - Professora... - o heitor disse, enquanto observava o interior da estufa , negligente à essência de lavanda no ar, as várias amostras distintas de uma infinidade de mudas em pequenos jarros que o cercava. - Ninguém está criticando o trabalho incrível que a senhora tem prestado à Universidade. Longe disso! - Ah, não? - A professora doutora o questionou friamente enquanto borrifava suas pequeninas mudas com água.  - Muito pelo contrário, professora. Até onde eu sei, a instituição tem recebido excelentes avaliações referentes às suas pesquisas mais recentes, e também no que diz respeito as aulas... Digo... - As aulas? - Ela então parou por um instante e virou o rosto para ele. - Os alunos, professora. Estão preocupados, pode-se dizer assim. - Ele disse buscando um tom de acolhimento que não soasse tão... consternado. - Preocupados comigo? - Ela disse quase debochando da situação. - Aparentemente, a senhora tem revelado que passa mais tempo aqui, - ele disse passeando os olhos p...