A Formiga Dagoberto

- Vem cá, - a formiga Dagoberto disse. - Tu num tinha dito que nem queria ir nessa balça?

- Arca, Dagoberto. - Respondeu Teolinda, a formiga. - O cara lá fez uma arca. É uma arca. E sim, eu não queria ir. Mas agora, vendo que o céu tá realmente ficando nublado, acho que não faz sentido alguém me perguntar um dia "você foi pra arca?" e eu disser que não.

- Entendi... - Dagoberto disse enquanto passavam, há poucos metros de uma enorme rampa de madeira, por de baixo de uma linda violeta cujas pétalas as protegiam do sol, quase como que lhes cobrindo numa fenda.

- O que foi? - Ela perguntou gentil e cuidadosamente.

- Nada. - Ele lhe disse indiferente. 

- Tem certeza? 

- Só achei estranho. Só isso. Não é nada demais. - Disse Dagoberto.

- Fala...

- Não é nada. Mas é estranho você resolver que quer ir na barca no mesmo dia que o Waldir resolveu ir também. - Ele disse, enfim. 

- Arca... Olha, não tem como eu inventar que isso não me motivou. - Ela disse tentando mesclar o rosto de inocência pura à sensação de culpa por um assassinato múltiplo. - Eu fiquei interessada em ir, mas porque achei interessante a ideia.

- Tu achou interessante a ideia, Teolinda? Quase toda tarde eu te falava de alguma coisa sobre a porcaria dessa arca, e tu nunca nem cogitou subir lá. 

- Olha, - Ela disse, conforme sentia com as suas anteninhas a chuva iminente, caminhando junto dele, apressando-o para a enorme rampa onde agora outros animais também trafegavam. - Eu não vou com ele, né? Eu vou com você. Né?!

- Mas vai por conta dele... né? Isso não muda. 

- Teolinda?! - Uma outra formiga um pouco mais a frente, já quase na entrada da enorme embarcação gritou e acenou com suas três mãos.

- Teu amiguinho já tá ali, olha só... - Dagoberto disse, quase visivelmente irritado. 

- Caramba, Dago. Pára com isso. Eu vou lá, e vou explicar pra ele que vou com você. Pronto. Não precisa de nada disso. - Teolinda disse. - Vem, anda... Vou na frente pra falar com ele.

Teolinda seguiu um pouco à frente e encontrou-se com Waldir e os dois adentraram a embarcação, passando pela sola do calçado de um velho barbudo à entrada.

- Opa, amiguinho! - O velho barbudo se fez ouvir a Dagoberto enquanto bloqueava seu caminho com um cajado. - Somente duas formiguinhas podem entrar. Até mais, e boa sorte!

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