Torniquete
Havia uma faca enferrujada no meio da poça de sangue que se estendia por debaixo da perna dela até o corpo de um desconhecido próximo deles. O quarto era bastante escuro, mas uma pequena vela de cera de abelha alumiava o cenário violento o suficientemente para o que estava por vir.
- Você...
- Não fala. - Ele disse amarrando o pano sobre a ferida na sua perna. - Poupa energia.
- Não vai, não. - Ela desobedeceu. - Fica aqui comigo.
- Isso vai doer um bocado, tá? Mas não tem outro jeito. - Ele deu um nó gentil nas pontas do pano manchado de sangue, e buscou pelo chão um pedaço de um cabo de vassoura quebrado.
- Você vai me deixar sozinha? - Ela perguntou sentindo as lágrimas encharcarem seus olhos e escorrerem pelo seu rosto entre as manchas secas de sangue. - Eu não vou aguentar. Você precisa ficar comigo. Espera aqui junto comigo.
- Ninguém vai vir. Não tem ninguém. Só tem a gente. - Ele disse enquanto prendia o cabo num nó atado sobre o primeiro nó. - Isso vai doer muito. Eu não tenho como segurar teu rosto no meu peito, então você não pode gritar.
- Entendi.
- Você não pode gritar, Tainá. Não pode. Eles vão aparecer aos montes se você gritar. Mas se eu não fizer isso, você vai sangrar até morrer. Aqui... Coloca isso perto do rosto e morde quando doer. Isso vai doer muito. Você precisa estar pronta.
- Não me deixa aqui sozinha, não. Por favor. - Ela lançou suas mãos delicadas e trêmulas de choque até o seu rosto.
- Eu não quero ir. - Ele disse conforme começou a girar o cabo, torcendo o pano, que comprimia a sua coxa ferida, provocando a mais aguda das dores nos nervos da carne já lacerada pela faca cega que a rasgou brutalmente.
Tainá mordeu o cobertor que ele havia lhe dado, e buscou afogar o seu gemido o melhor que pôde, mas aquela ainda era apenas a primeira volta. Houve mais outra depois, e a dor aumentou como algo muito além daquilo que ela jamais poderia ter imaginado que o pior dos vilões poderia suportar. E depois mais outra volta, e ela certamente não aguentaria a próxima.
- Pronto. - Ele disse. - Eu sei... Dói muito. Mas estancou o sangue. - Ele levantou-se com cuidado e a confortou passeando as mãos pelos seus cabelos pretos. Ela estava trêmula, e não era apenas a dor. - Você precisa deitar. Vem, eu vou te ajudar. - Ele a conduziu até o chão.
- Ta tudo... Tudo sujo... - Ela balbuciou as sílabas.
- Você não tá encostando, e vai já secar. Fica calma. Tá tudo bem. O pior já passou. - Ele então levantou-se e caminhou até seus pés, e gentilmente os elevou com um pouco sobre uma caixa de sapatos vazia. - Você está em choque, mas isso vai passar. Eu vou cobrir o ferimento, tá bom? Não vai doer.
- Por favor... - Ela disse com a voz ainda trêmula. - Não vai.
Ele buscou, dentro de uma mochila velha escondida sobre uma tábua do quarto escuro, uma faixa branca o suficiente que poderia quase ser confundida por um pano estéril. Quase.
- Eu preciso ir. A gente não tem remédio aqui. Não pra isso. Se eu não for agora... - Ele ponderou as palavras conforme contemplou, num suspiro de consciência, o terrível e insuportável produto da sua fala. Ele cobriu a ferida profunda com cuidado, e certificou-se de que o curativo estava o mais adequado o possível.
- Eu tenho sede. - Ela disse.
- Eu sei. Eu não demoro. Eu não tenho opção... - Ele abaixou-se, e beijou os seus lábios da mesma forma que os beijara quando a conheceu e como os vinha beijando há já quase cinco anos. Com fartas parcelas de desejo, amor e paixão. - Eu vou voltar.
- Eu sei... - Ela forçou um sorriso frágil entre um choro inabalável. - Eu confio em você.
Ele abriu a porta do quarto cuidadosamente. Olhou em volta em silêncio. Retornou ao quarto e pôs sobre as suas costas o maldito agressor morto cuja alma ele desejava que estivesse no mais cruel dos infernos.
Saiu, e fechou a porta. E no movimento, a corrente de ar produzida maculou a singela chama da vela.
E o escuro a fez companhia.
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