Cuidado Com o Espelho

Eu demorei a entender que a sensação de inquietude e assombramento que me visitava sempre que o sol se punha era na realidade algo muito mais perturbador do que quaisquer uma das possibilidades que eu cogitava quando me desafiava a lançar o olhar contra aquele espelho grande do quarto. 

Desde muito cedo na infância, eu sentia um terror que me consumia até os ossos sempre que, caída a noite, eu passava, nem que remotamente, por perto de um espelho enorme da época colonial cultivado em bom estado pela minha avó na casa dela. Eu odiava aquela sensação.

Acontece que por algum motivo eu não fui contra ficar com o objetivo maligno após o falecimento da vovó. Trouxe pro meu apartamento um quadro de uma praia tranquila e isolada pintado por um tal de J. Carvalho. Em meio aos pertences, há também uma espécie de caixinha de música em formato de uma pombinha branca, cuja melodia não me é familiar, mas que já me apeguei profundamente, e finalmente, o espelho, que eu findei por deixá-lo isolado, inclinado contra a parede, num dos quartos que eu menos uso.

- Caramba, que espelho bonito. Revelador! - Algumas pessoas falam quando o veem. É raro, mas vez por outra, quando tenho algum convidado, eles sempre encontram algum adjetivo positivo pro objeto de uma das minhas maiores assombrações. 

Apesar dos pesares... Realmente é um espelho bonito, pra se dizer o mínimo... Infelizmente, porém, ele tem essa aura sinistra e assustadora, como se de alguma forma algum tipo de criatura sombria ou entidade maligna estivesse ali, escondida naquele mundo que tem lá dentro, só esperando a chance de se esgueirar pra fora... 

Eu admito pra qualquer um que me perguntar... Tenho pavor de passar perto depois que anoitece, e às vezes até em dias chuvosos, mais deprimentes. 

É um pouco estranho, eu sei... 

Quem sabe se talvez eu não for lá olhar, então o que quer que seja que se esconde lá dentro não vai ter chance de sair.

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