A Estufa
- Professora... - o heitor disse, enquanto observava o interior da estufa , negligente à essência de lavanda no ar, as várias amostras distintas de uma infinidade de mudas em pequenos jarros que o cercava. - Ninguém está criticando o trabalho incrível que a senhora tem prestado à Universidade. Longe disso!
- Ah, não? - A professora doutora o questionou friamente enquanto borrifava suas pequeninas mudas com água.
- Muito pelo contrário, professora. Até onde eu sei, a instituição tem recebido excelentes avaliações referentes às suas pesquisas mais recentes, e também no que diz respeito as aulas... Digo...
- As aulas? - Ela então parou por um instante e virou o rosto para ele.
- Os alunos, professora. Estão preocupados, pode-se dizer assim. - Ele disse buscando um tom de acolhimento que não soasse tão... consternado.
- Preocupados comigo? - Ela disse quase debochando da situação.
- Aparentemente, a senhora tem revelado que passa mais tempo aqui, - ele disse passeando os olhos por todas as mudas, anotações, e cadernos velhos com manchas de café, - do que na sua própria casa. Tem sido observado um comportamento um tanto...
- Um tanto...? - Ela perguntou circulando o borrifador no ar com a mão.
- Um tanto fora do comum, professora. Será que talvez não seria melhor tirar uma semana de folga? Buscar entender melhor o que pode estar acontecendo... De repente fazer uma viagem.
- Uma viagem? - Ela o questionou ironicamente. - O senhor acha que eu preciso de uma viagem? Pra onde exatamente? Porque, olha, eu até já tenho um canto em mente pra onde eu posso sugerir que o senhor vá.
- Professora, - Ele disse, reprimindo o tom desafiador com o qual ele teria reagido com qualquer outra pessoa que não fosse um funcionário capaz de processá-lo por assédio moral. - Eu fiquei sabendo que encontraram uma nova espécie de violetas no Mizorão, na India... Não é verdade? Não seria no mínimo interessante?
- É... - Ela confirmou, desarmando-se e voltando a borrifar as mudas. - Fiquei sabendo mesmo. Parece uma boa oportunidade pra um final de semana, talvez. No máximo. Acontece que, como o senhor claramente não deve ter percebido, eu não cultivo mais violetas.
Foi então que ele se viu buscando em vão pelo ambiente por um vestígio mínimo que fosse da planta que, como um pistoleiro da botânica ou da horticultura, atira as sementes ao ambiente. Não encontrou sequer um vestígio.
- Que houve? Pensei que a violeta fosse o ponto central do seu estudo. Parou de cultivar? - Ele a questionou com genuíno interesse.
- Parei. - Ela disse, mais pra si mesma do que pra ele.
- Mas parou totalmente...? Quando foi isso?
- Quando encontrei a lavandula angustifolia... - Eles então atravessaram uma fina divisória de plástico que separava a estufa em duas partes. Uma das mudas. Uma dedicada inteiramente a um só tipo de planta. - Ou... lavanda inglesa.
- Que mudança inesperada, professora. - Ele disse, observando as plantas e as flores com curiosidade. Olhou para o alto e percebeu que o telhado da estufa estava ausente.
- Eu precisei retirar essa parte, já que a lavanda inglesa gosta de muito sol. - Ela disse, sorridente e encantada pela aparência das flores, quase esquecendo a presença do colega.
- Por isso a separação das mudas? - ele disse.
- A separação é mera precaução.
- Precaução?
- A lavandula angustifolia infelizmente atrai muitas abelhas. - Ela disse enquanto lançava seu mais penetrante olhar de insatisfação... Aqueles que damos aos convidados inconvenientes que se recusam a retirar-se depois da mais afiada indireta, ou pior ainda... Os que chegam sem aviso prévio.
- Claro. Abelhas... Entendo. Pois muito bem, professora... Haja visto que a proposta de uma semana de folga foi recusada, eu vou supor que tudo esteja bem, sim? - O heitor então deu meia volta, havendo entendido que provavelmente tivesse estendido sua visita além dos limites pressupostos pela professora. - Se bem que..., - ele hesitou por um momento e a dirigiu a palavra novamente. - Tenho uma última questão a verificar com a senhora.
- Pois não? - Ela lhe disse.
- A aula de campo das escolas municipais será amanhã... Depois que a senhora não respondeu aos e-mails, eu acabei pedindo que conduzissem os professores até a estufa próxima do açude. Tudo bem?
- Sim, sim... Mas quando é que... Quer dizer, que horas começam as excursões dos meninos? - ela o indagou, quase se perdendo entre uma pergunta e um plano.
- Às 9h, professora, - ele a observou. - Algum problema?
- Não. Nenhum. - Ela sorriu a fim de disfarçar a mentira.
- Bom, eu só perguntei porque a gente sabe como é criança, né? Não pode ver uma plantinha diferente que já quer mexer. - Ele disse enquanto caminhava cuidadosamente entre as mudas até a saída.
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