Foi Tudo Uma Grande Viagem



Foi tudo uma grande viagem. 

Não havia nada daquilo que eu pensei que houvesse, e apesar de, por muitas vezes, ter me parecido óbvio e sensato pensar que tudo era alucinação do cogumelo rabiscado em sentimentos, eu insistia em depositar minha fé nos movimentos psicodélicos daquela viagem tão irreal quanto um brigadeiro sem leite condensado. 

Aliás, eu senti fome pelo doce que não existia, e me lembrei de uma referência romântica de uma sobremesa que, na realidade, nunca foi sequer preparada. Tudo foi fruto de uma imaginação fértil submetida aos delírios das toxinas de um rabisco tão bem desenhado que eu julguei ser digno de um conto inteiro. Aqui estamos. 

Tirei a margarina da geladeira e imitei o que ela fez, ou melhor, o que eu imaginei que ela fez. O que eu pensava ter vivido. Aquilo que eu pensei ter acontecido. Eram quatro ou cinco colheres? Tanto faz... Desisti do doce, e de alguma forma lembrei de apagar o fogo. Se é que eu havia, em algum momento da aventura, acendido de verdade aquela chama. 

Foi tudo uma grande viagem. 

Sentei no sofá e tentei lembrar de como era a sensação daquela alegria de estar ali com ela, e lutei pelas memórias cujo rabisco de um cogumelo me ensinou que eram falsas. Não houve isso nem aquilo, seja lá o que aquilo ou isso fossem... Resquícios de uma maluquice delirante que numa visita resolveu ficar... E justo quando me acostumei com o bem da sua presença, resolveu não ficar mais. 

Imagine só se o rabisco fosse real, eu lembro de ter pensado. Imagine só se em vez de uma única mordida molhada, eu tivesse consumido o fungo desenhado por inteiro e a conexão com a realidade tivesse sido mais clara ainda. Foi cambaleando, por pensamentos filhos da puta, tentando seguir esta linha de raciocínio, que cogitei a possibilidade alternativa de que talvez... eu estivesse errado. 

Se estiver errado...

Foi tudo uma grande viagem?

Errado em pensar que não acendi a chama. A frigideira já queimava, e eu sei porque consegui sentir o calor quando apaguei a chama de verdade, girando a válvula do pequeno fogão até que o brando fogo anil se extinguisse... Não o nosso fogo. Não a nossa chama. Essa, eu jamais apagaria. 

Errado em pensar que não ficou pelo capricho de resolver partir... em vez de por mera impossibilidade. 

Errado em cogitar o absurdo de um título tão errado... Pois tudo aconteceu e ainda acontece, e não cabe em mim um resquício de um sentimento que vá contra a continuidade de tudo o que ainda pode acontecer. Afinal...

Não foi tudo uma grande viagem. 

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