Somos Todos Luz
- Somos todos luz... E todos vocês são meus. - A luz, o grão mestre celestial, antecessor e sucessor eterno de um dos incontáveis palácios da aurora infinita ecoou sua voz celeste pelos quatro cantos do Salão do Retorno.
- Somos todos luz... E todos somos teus. - Luzes não tão ofuscantes quanto a do grão mestre, os onze discípulos da aprendizagem cósmica seguiram a saudação em sintonia, acompanhando seu mentor.
- Estamos reunidos aqui para recebermos, finalmente, o retorno de nossa décima segunda discípula. Em seu vigésimo sétimo ciclo de vida, discorrido na dimensão inferior, como aprendizado vigente, ela aprendeu e absorveu experiências que serão úteis para a Luz Incandescente, e para todo o conhecimento do cosmos. Bem vinda de volta, Ar't!
- Bem vinda de volta! - Todos repetiram novamente, enquanto a luz de incontáveis sóis inundava o centro do salão, e vagarosamente se extinguia, formando o semblante magnífico de uma mulher - um eco de sua imagem quando ainda em experiência carnal pelo ciclo de vida - que se incandesceu e se tornou... Luz.
- Onde...? Quem...? - Ar't estava confusa, como é costumeiro, para alguns, quando a jornada de volta é intensa demais ou, de alguma forma, mais inesperada que o esperado.
- Está tudo bem, Ar't. Está entre nós. - O grão mestre se pronunciou novamente, abrangendo sua luz para abraçar a discípula recém chegada. - Somos todos luz.
- Sim... - Ela começou a lembrar... Da essência. Do brilho. - Todos luz. Somos todos luz.
- Vamos. Precisamos debater as experiências, os mistérios, e as descobertas que cada um dos retornados nos tem a oferecer. O Salão do Conhecimento nos espera, enfim. - Sua luz ofuscante se embrandeceu enquanto se voltava para os onze. Ele passou por entre eles, e um a um, o seguiram como um rebanho... Menos um...
- El'd! - Ela expressou em toda a sua luz oscilante enquanto ele foi ao seu encontro, preenchendo suas oscilações luminosas com os seus feixes incandescentes, num abraço que poderia provocar auroras boreais por todas dimensões imagináveis.
- Não tem a menor ideia da falta que me fez! Nunca um ciclo se mostrou tão interminável! - Ele a disse, sem que emitisse um som sequer. - Quando soube que partiria, pensei em me extinguir, para que pudesse arriscar te encontrar onde quer que estivesse.
- Não! - Ela o repreendeu. - As chances seriam ínfimas! Nos perderíamos um do outro para sempre! Eu retornaria, e você seguiria perdido pelas dimensões! Fez bem... Fez bem e me esperar!
- Por que não me avisou que estava partindo? Eu... - Ele não poderia falar o que queria... Seria um sacrilégio impensável. Talvez até mesmo uma impossibilidade até mesmo de ser pronunciada.
- Eu fiquei sabendo momentos antes da partida, El'd. O grão mestre... - Ela lamentou. - Ele não me deixou escolha! Pensei em correr até você, mas...
- Se tivesse vindo, eu a teria acolhido, Ar't. - Ele lhe disse. - Eu sempre a teria acolhido. - Houve então um momento no qual suas oscilações entraram numa sincronia perfeita, e os feixes de luz, quando deparados com a ausência da essência incandescente, provocada pela dúvida e a incerteza, se exasperou e berrou!
Houve um resquício de uma suspeita de penumbra naquele Palácio da Aurora, e o terror da possibilidade da sombra despertou um alarme como nunca antes presenciado.
- El'd! - Ela lhe disse, quase despreocupada com as consequências que estavam por vir. - O grão mestre logo estará aqui!
- Eu sei... - Ele a respondeu, olhando em volta, buscando uma solução. - Não sei o que podemos fazer. Sinto muito. - Ele se aproximou ainda mais dela, dessa vez disposto ao sacrilégio... Aberto à impossibilidade. - Cheguei a pensar que poderia te perder, e nunca pensei que sentiria tanto a sua falta.
- Voltei porque, de um jeito ou de outro, sabia que estaria me esperando. - Ela o respondeu. - Me diz, El'd... Como pode ser isso?
- O que, exatamente?
- Se somos todos luz... E somos todos dele, - Ela o indagou, se permitindo a reciprocidade. - Como é que posso sentir ciúmes de alguém que não é meu?
A compreensão inundou as oscilações de El'd, e ele se sentiu alterar desde a essência até o propósito, e então tudo se fez aparente.
- Mas quem disse que eu não sou teu? - Ele a respondeu.
Juntos, e ainda no centro do Salão do Retorno, a ofuscante luz de incontáveis sóis se fez presente, ofuscando até mesmo, em função da reação inversa dos dois discípulos unidos pela paixão blasfema, a visão do próprio grão mestre, que acabara de invadir o salão.
- Quem produz tamanha insolência?! - Ele se fez ouvir em forma de trovões por todas as dimensões... E quando o eco da sua ira se dissipou... Nada nem ninguém mais havia ali, a não ser o vazio deixado pra trás, como a fumaça de uma vela é o rastro de uma chama que se extinguiu.
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