A Última Taça
- Pronto. - Ele disse a encarando, devolvendo a taça, agora vazia, de volta à mesa. Percebeu em suas olhos uma espécie de arrependimento que não correspondia com a sua pessoa, e ele pensou, por um breve instante, que talvez fosse um sentimento genuíno. - O que houve?
- A taça, - ela disse, derramando uma lágrima repentina que lhe escorreu pelo rosto como uma estrela cadente corta o céu noturno. Ela enxugou o rastro com uma mão, e o olhou fixamente. - Tava envenenada.
- Eu sei. - Ele revelou friamente, ainda tentando buscar pela luz branca da cozinha, sem charme algum, um meio pelo qual pudesse deixar de amá-la, ou pelo menos de desejá-la, e assim, naquele último instante, se ver finalmente livre do seu terrível encanto, moldado na base da mais cruel e sutil manipulação.
- Como? - Ela lhe indagou, demonstrando surpresa, e consequentemente vulnerabilidade.
- E isso importa? - Segurando um colapso emocional, ele sorriu.
- Mas...
- Não. - Ele já sabia qual seria a indução da pergunta. - Não tomei nada que fosse anular o efeito. Pra quê, né? Pra quê prolongar esse circo? - E então, a tristeza que carregava no coração explodiu, e ele chorou, mesmo sem querer. Sentiu o corpo fraquejar, e o estômago ameaçar uma dor quase como a de uma faca que almejasse sair, nem que fosse lhe rasgando por dentro... Porém chorou por uma dor diferente... Infinitamente maior.
- Circo? - Ela o confrontou, e, em sua voz, trazia o tão familiar tom que o afastou e o transformou numa ilha no decorrer dos anos... - É assim que você enxerga o que a gente tem, né? Claro que faz sentido, até por que o palhaço já tá garantido, que é você! - Ela disse, se exaltando e levantando-se de seu assento de forma brusca. - Poxa, - ela continou. - Custava ter tentado só um pouco mais? Eu me dediquei tanto! Tentei de todas as formas!
- E eu não? - Ele gemeu quando na realidade procurou gritar tão alto quanto ela. A dor que lhe destrinchava o estômago parecia subir como uma chama incandescente pelo esôfago. - As minhas tentativas são nulas pra ti? Olha em que ponto você chegou... Olha o que você fez... - Ele disse, empurrando a mesa e a derrubando, e se deixando cair de joelhos ao chão, enquanto uma mistura de sangue e fluidos internos lhe escorria pela boca.
- Fez! - Ela gritou, se inclinando contra ele, e levando as mãos à cabeça, em uma espécie de desespero. - Todo mundo fez, e não funcionou!
Ela então virou as costas para ele, e cobriu o rosto com as mãos. Ouviu seus grunhidos, e o som do seu corpo se debatendo aos poucos, até que se voltou para ele novamente, e se ajoelhou ao seu lado, segurando uma de suas mãos na sua, e colocando sua cabeça em sua colo uma última vez.
- Por que você tomou essa merda se sabia que tava com veneno, hein?! - Ela o indagou abraçando-o como podia, se deixando sujar pelo sangue e todo o resto. - Por que você sempre é assim? Sempre quer ter razão em tudo... Nunca admite quando erra... Ah, que droga! E agora?! Me diz! Me diz! - Em seus gritos, era quase tangível a relação consumada entre o ódio, e a insanidade de uma tristeza clandestina. - Você... Você me abandonou fazendo isso... Você soltou a minha mão, e me deixou aqui assim...! Você!
- Eu não tomei por você, - Ele disse, num estado além da dor, vivenciando o momento final. O último, enfim, depois de intermináveis anos de abusos, num cativeiro emocional no qual ele optou por vivenciar em função de uma felicidade alheia, de outra pessoa, já livre e em paz há alguns poucos meses... - Eu tomei por mim.
Comments
Post a Comment