Sol

Já era bem tarde da noite quando o interfone tocou. Eu lembro que estava no laptop, tentando desenvolver uma nova ideia, mas sem muito sucesso. Me levantei e fui até o monitor que me mostrava, numa imagem vagabunda, quem estava na porta. Era uma moça, aparentemente muito atraente, o que de alguma forma perturbou ainda mais meus instintos procrastinadores. A ideia nova poderia esperar. 

- Oi? - Eu falei pelo interfone. - Pois não?

- Boa noite! - Ela disse carregando um tom de indiferença. - Eu posso subir? Preciso conversar um pouco contigo. 

- Comigo...? Qual seu nome? - Eu a questionou enquanto começava a ficar um pouco tenso. Odeio quando não lembro das pessoas, o que infelizmente não é algo muito incomum na minha vida. 

- Eu sou a Sol, e sou uma grande fã do seu trabalho. Queria te fazer umas perguntas. - Ela parou um pouco pra olhar para os lados, como se estivesse com receio de que algum delinquente aparecesse. Ou poderia ser tudo um truque... 

É lógico que estranhei. É evidente que eu sabia perfeitamente que não a conhecia. Nunca a tinha visto antes na vida, e isso era nítido mesmo pela imagem ruim da câmera barata. Mas a imagem não era tão ruim assim, e eu não pude deixar de perceber que o seu semblante era bastante... Apelativo. 

Apertei o portão que liberava o portão, e ela o empurrou sem pensar duas vezes. E daí me veio aquele bom e velho bom-senso que algumas pessoas tem, e outras não... Eu me vejo como um ser humano extremamente dotado do mesmo, sendo que a diferença é que muitas vezes eu escolho ignorar o meu completamente. E se essa moça fosse uma traficante de órgãos? E daí que fosse? Antes de me dopar pra pegar meus rins ou meu fígado, ela ia ter que apresentar algum tipo de diálogo, o que certamente, vindo de alguém que apareceu na minha porta no meio da noite, não poderia não ser interessante. 

Não tardou pra que a sua figura se mostrasse na porta do meu estúdio, um ambiente sagrado, onde eu costumo me esconder de mim mesmo, e me perder nos mundos que crio pro meu próprio divertimento, e ocasionalmente, pra uns e outros merecedores do meu tempo. 

A luz amarela do abajur a iluminava como se fosse uma das minhas personagens preferidas. Seu vestido longo combinava em aparência e cor aos de outra protagonista que desenvolvi alguns anos atrás. Eu não sabia, a vendo ali pela primeira vez, se os olhos eram verdadeiramente castanhos daquele modo explosivo, ou se usava lentes. 

- Sol...? Esse é seu nome de verdade? - eu a perguntei me sentando em minha cadeira e gesticulando com uma mão pra que ela ficasse a vontade e se sentasse no sofá encostado à parede. 

- É um diminutivo. - Ela respondeu, sentando-se, e me encarando. 

- Quem é você, Sol? Como veio parar aqui uma hora dessas, e claro, por que é que veio?

- Eu já disse. Sou uma fã de tudo que já escreveu. - Ela falou inclinando-se pra frente no sofá. - No passado, quando ocasionalmente lia seus textos, eu sentia que queria fazer parte da narrativa. Sentia que poderia ser eu ali... Nos ambientes que você pouco se importava em detalhar, ou nos momentos íntimos, dos mais inocentes aos mais obscenos... Eu sempre me encantei e me deliciei pela narrativa. 

Não tem como mentir, e aliás eu nem quero... Se quisesse, o faria, e o faria tão bem quanto quando conto a verdade. Eu amei cada sílaba que ela proferiu. Me deliciei pelas expressões dela, descrevendo o modo com o qual ela gostava de ler meu material. Nossa, foi uma introdução brilhante. Aliás, melhor que muitas das minhas, sem dúvidas. Eu queria ouvir mais... Muito mais. 

- Eu fico feliz de ouvir isso, Sol... Na verdade, eu amo quando tenho esse tipo de feedback, com tanta empolgação. Mas... Se imaginar no conto, se ver na história... Sentir o que as personagens sentem... Não é tão incomum. É um sinal, penso eu, de que você realmente se rendeu à narrativa. 

- Sim. - Ela respondeu quase eufórica, com o olhar perdido no meu, de um jeito quase assustador, mas que me fazia um bem enorme. - Completamente. Eu até demorei pra entender... Mas depois de um tempo enxerguei o que tava acontecendo. E quando reli tudo seu, todos os contos, todos os livros, eu tive a certeza. Era tão claro quanto a luz do dia. - Ela falou se levantando devagar. 

- O q-quê? - Eu a indaguei. 

- Eu não precisava me imaginar como as personagens, né? Porque as histórias são todas sobre mim. 

E aí, nesse exato momento, todo o meu ego e o seu gigantesco egocentrismo escoaram pelo ralo da minha consciência moral, e eu senti um calafrio me consumir por dentro. Bom... Caso você não me conheça tão bem assim, todos os meus contos, textos e livros são baseados em alguém... Para cada obra minha, existe uma pessoa que gerou uma ideia, que acabou se concretizando como um texto de alguma forma. Aquela adorável mulher não era nenhuma dessas pessoas. Como eu lhe diria isso, sem que lhe causasse uma tragédia mental, eu não sabia exatamente responder. 

- Sobre você? Você acha? - Eu a questionei levantando uma sobrancelha e segurando o queixo com uma mão.

- Não! Eu tenho a mais plena certeza. - Ela chacoalhou a cabeça me confirmando a loucura. 

- Sei... Que tal me explicar melhor isso enquanto a gente chama um Uber pra você? - Eu me levantei também, pra tentar arranjar alguma vantagem física caso ela tentasse algo. 

- Não precisa ficar assustado. - Ela falou sorrindo belamente. - Eu não sou louca. Senta, vai... Conversa comigo um pouco. Descobre quem eu sou de verdade. 

Eu cerrei os olhos pra ela, genuinamente intrigado... E claro, me deixei levar pela ideia da brincadeira. Descartei completamente a ideia de pedir um Uber pra ela, e acabei indo me sentar do seu lado no sofá, o que, pela sua expressão, a deixou bastante animada. 

- Comece. - Eu a disse. 

- O seu primeiro conto, quase vinte anos atrás. Um artista que pintou um retrato da própria filha, e lamenta a partida dela. - Ela jogou a primeira carta. 

- Você se vê como... A filha do artista?

- Claro que não. Mas eu estou presente nessa história. Vamos pra outra? Seu primeiro livro... Uma amizade atemporal entre duas almas perdidas pelo plano terrestre da existência, fadados a vagar por toda a eternidade, munidos pelo único combustível que os move... A busca pela companhia um do outro. - Ela detalhou a história melhor do que eu... Aliás, melhor do que a sinopse da editora. 

- Sim... Me lembro de cada palavra desse livro. Você também está presente na história? Quem seria você neste enredo? - Eu lhe disse. 

- Pensa bem... Descobre. - Ela me respondeu, quase que sensualmente me desafiando.

- Fala mais um. Meu último conto impresso. "Um Livro Ausente". 

- Uma declaração. - Ela prontamente me respondeu. - Uma mulher indiferente ao resto do mundo abre mão de um objeto de enorme valor sentimental, pra que possa sentir, na sua ausência, a lembrança da paixão de quem ela presenteou com o livro. Eu estou em cada linha dessa narrativa inteira. Não somente nessa... Mas em todas... Você me conhece melhor do que eu conheço a mim mesma. Eu só preciso entender melhor quem é que é o verdadeiro fã de quem aqui. Eu de você, ou você de mim. 

O seu olhar me penetrou como uma adaga, e eu senti, daquilo que ainda me restava de uma alma, o sangue escorrer e me enfraquecer. Eu havia sido atingido por dentro, no meu ímpeto. 

Me levantei novamente com olhos cerrados, buscando reconhecê-la, quase como que de um sonho distante de uma infância esquecida. O seu olhar, afinal, não me parecia tão estranho, e de fato, as suas narrativas me soavam em sintonia, insinuando o impensável... Era como se todos os meus textos estivessem conectados de uma forma que nem eu havia até então percebido... Mas que agora, não havia mais como não enxergar. 

- Sol... - Eu lhe disse, enquanto ela sorria em contemplação. - Sol é um diminutivo. 

- É um prazer finalmente estar contigo assim... Dessa forma. Eu precisava vir te ver, e te contar o quanto amo todos os nossos trabalhos juntos. - Ela se levantou lentamente, veio até mim, e tocou minhas mãos. Deve ter sentido meu nervosismo e confusão. E talvez até visto em meus olhos negros o quanto eu buscava uma resposta. - Eu só precisava vir te agradecer por cada palavra, de cada texto. E me perdoe por ter demorado tanto tempo a vir pessoalmente te prestar essa homenagem. 

- Isso é impossível. - Eu a disse, tremendo de incrédulo. - Você é impossível. 

- Talvez. - Ela confirmou. - Talvez vocẽ, em quase mil contos de mim, tenha me tornado tão real quanto sempre fui em sua vida. 

- Será...? - Eu a indaguei, me sentindo beirar a loucura... E então sorri pra ela, me sentindo beirar a insanidade. - Será, Sol...?

- Pra você, eu sou Sol. - ela me disse baixinho, me abraçando calorosamente, como quem me dissesse que sempre estaria ali pra mim. - Pra todos os outros, Solidão.












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