O Pano Azul
Voltei ao nosso recanto ontem, só pra tentar lembrar e ficar em paz por uma tarde inteira... Levei um livro da capa vermelha que ja li mil vezes, uma garrafa de suco de abacaxi, pelos velhos tempos, e o mesmo pano azul que costumávamos usar quando íamos nos esconder do mundo lá por de baixo daquela árvore, perdida e solitária, pelo bosque do rio...
Cheguei, abri a mochila, tirei o nosso pano azul e o estendi pela sombra da árvore. Me deitei e me dei a liberdade de não pensar em absolutamente nada.
O som dos pássaros me acalmava, enquanto o sol tentava me atingir pelas brechas das folhas, mas sem muito sucesso.
Pensei em abrir o livro e terminar os últimos três capitulos que havia reservado justamente para aquela tarde, mas a preguiça parecia ter me encontrado, e eu resolvi apenas apreciar o momento e o ambiente, que juntos me encheram de saudade e nostalgia...
- Como era bom as nossas escapadas... Como era bom o nosso abraço e o nosso beijo, que só perdiam pro nosso papo. - Eu disse como se ela pudesse mesmo me ouvir... Apesar de saber que não, havia um conforto, que não sei bem explicar, em conversar com ela. Era como se eu, de alguma forma, estivesse dando continuidade ao que começamos um dia no passado... Era como alimentar uma sensação de que a qualquer momento ela aparecia, e viesse apressadamente até mim, e eu a sentiria novamente nos braços.
- Com quem cê tá falando, moço? - Uma vozinha infantil me tirou do transe. Virei a cabeça e a vi. Uma garotinha, acompanhada de um jovenzinho segurando uma bola suja que deveria ter bolado até ali perto. Acabaram me achando por acidente.
- Oi... - Eu a respondi. - Ah, eu tava falando com a minha namorada!
- E cadê ela? - A garotinha indagou olhando em volta.
- É mentira dele. Ele ta sozinho, não tá vendo? - O rapazinho intercedeu.
- Ué, eu tô sozinho sim, mas tô falando com ela também. Eu sempre falo com ela quando venho aqui, por que esse era nosso lugar preferido na cidade inteira! Foi aqui onde a gente..... Mas e vocês, tão jogando bola?! - Eu os questionei tentando ser o mais cordial e alegre o possível.
- Sim! - Ela disse. - Mas aí chutaram a bola com força pra fora do campo e a gente veio pegar. E ai a gente viu você ai falando sozinho... Quer dizer... Falando com a sua namorada.
Eu sorri cabisbaixo.
- Faz muito tempo que ela não participa das conversas? - O garoto me questionou enquanto tirava a lama seca da bola. Nao sei se foi impressão minha, mas o seu semblante me parecia difetente de poucos momentos atrás.
- Olha... - eu respondi. - tem um tempinho, sim. Pouco mais de um ano.
- Entendi... Às vezes eu também falo com a minha vó, mesmo sabendo que ela não me ouve. Ela já morreu.
- Entendi... - O que mais eu podia falar...?
- A gente ta fazendo um picnic logo ali em cima, ao lado do campo... Se quiser chegar... Estamos lá. - Ele me disse, colocando uma mão no ombro da garotinha, que eu suponho que fosse sua irmã, e me dando as costas, voltando de onde vieram, ladeira acima. Agradeci com um gesto, e permaneci sentado, com os braços repousados sobre os joelhos.
Talvez fosse uma boa conferir o lanche da criançada, mas sendo realista, não havia como funcionar... "Olha, papai, esse é o moço estranho que encontramos no meio do mato... Falando sozinho!", imagine como isso soaria.
A breve conversa com os pequenos não foi o suficiente pra me convencer a abandonar o meu posto, mas serviu pra que eu me sentasse e me visse livre daquela preguiça que mencionei antes. Tirei a garrafa de suco da bolsa, e junto dela o livro da capa vermelha. Deixei um espaço sobrando no nosso pano azul, pra eventualidade dela aparecer...
Eu admito que não sei descrever ao certo a sensação que me vinha ali, em baixo da árvore... Era quase como uma esperança de reencontro... Eu digo quase porque no fundo eu sabia que passaria a tarde inteira ali sozinho... Mas se um dia ela decidisse voltar, eu estaria ali, no mesmo dia de antes e de sempre, junto do seu espaço, em baixo da árvore do bosque, ao meu lado, no nosso pano azul.
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