Eu Dei Aula Essa Sexta?
- Cleyton? - Ele disse ainda atordoado, procurando abrir os olhos em meio a ardência da manhã, estranhando a chamada de vídeo tão cedo num domingo.
- Túlio, puta que pariu. Meu brother, me ajuda. - Cleyton suplicou.
- Caramba, Cleyton... Que houve, cara? Diz ai. - Túlio respondeu sentando-se na cama, quase como que num ritual que lhe trouxesse de volta uma fração da vontade de viver.
- Túlio, me diz pelo amor de Deus... Eu fui dar aula na sexta?! Eu apareci no colégio?
- Porra, Cleyton, é sério isso? - Nem por um segundo ele cogitou que fosse uma indagação séria.
- Cara, sem brincadeira. Eu juro que é mais sério que o ego de um estudante de psicologia que ainda não se formou. Por favor. Só me diz... Eu dei as caras na escola na sexta?
- Deu, pô! - Ele respondeu se levantando e abrindo as cortinas da janela. O céu porém, ainda estava no comecinho da ousadia de iluminar um domingo. - Aliás, pegou todo mundo de surpresa, né?
- Puta que pariu, cara. - Cleyton respondeu cobrindo o rosto com uma mão. - O que foi que eu fiz? Eu não lembro sequer de ter existido uma sexta-feira na minha vida essa semana.
- Cleyton, - Túlio disse, tentando dar início a uma narrativa a qual ela já sabia que seria mirabolante demais para ser considerada factual. - Primeiro que você chegou de barba feita, né? O que já assombrou alguns alunos e até a própria diretora comentou na acolhida.
- Na acolhida, cara? Poxa, mas por que ela fez isso, hein? - Cleyton lamentou profundamente enquanto parecia sentar no sofá de sua casa.
- Pô, Cleyton, por que é que tem gente que acorda um dia e decide que quer ser Matemático?
- Pior, hein... Mas continua, cara. O que mais?
- Pois é, acontece que não foi só a barba. Você tava todo lindão. Arrumado... Camisa de botão, cabelo penteado... E tava com fome, porque comeu três pratos com os meninos lá na quadra.
- Meu Deus, Túlio....... Mas eu dei aula, cara? Eu passei o dia inteiro lá? Dando aula?
- Com certeza, cara. Aliás, depois do almoço, né... Rolou aquela palestra lá. - Túlio disse esbugalhando os olhos, como quem esperasse que o amigo fosse talvez recordar algo a respeito.
- Palestra...?!
- Foi, cara... Você fez assim...Esperou todo mundo voltar do almoço, daí começou a explicar como e porque cada um de nós ali prestávamos um papel inútil e irrelevante na grande roda do tempo dentro de um contexto social fadado ao fracasso absoluto. Foi assim... Bem... Como que eu digo?Dolorosamente real. Apesar de eu só ter escutado os primeiros cinco minutos.
- Não... - Gemeu Cleyton, num tom que pesava entre o desespero e o infortúnio.
- Cara, mas assim, tu realmente não lembra de nada disso? Tu foi dirigindo pra casa! Nem disso você tem assim, um resquício de uma memória? - Túlio indagou o amigo.
- Pô, cara, que palavra bonita, essa... - Respondeu Cleyton balançando a cabeça. - Um resquício... Eu vou tentar lembrar dessa palavra quando... aliás, se eu conseguir recuperar esse dia na minha cabeça.
- Entendi. - Disse Túlio enquanto exibia um sorriso sincero no rosto. - Mas e aí, o que foi que gerou esse surto? Estresse?
- Cara, - respondeu Cleyton se inclinando pra frente no sofá. - Um amigo meu veio aqui na quinta e trouxe uns cogumelos que eu agora suponho que são alienígenas... Eu imaginei que a viagem fosse ser grande, mas tá aí que eu nunca cogitei que fosse lombrar que era um profissional dedicado e responsável... Nunca mais, cara. Nunca mais.
- Ahh, agora tudo faz sentido! - Exclamou o amigo. - Bom... Pelo menos você tá bem. Chegou em casa a salvo... Né?
- Aí é que tá... - Ele disse, se deixando empalidecer enquanto uma discreta gota de suor lhe escorria a testa. - Eu agora preciso ligar pro dono da loja de vinil, e perguntar como foi essa história de alguém ter arrombado a loja ontem e roubado metade dos discos.
Comments
Post a Comment