Danado

 - E aí, Miguel... Dá licença aí um pouco, só um pedaço aqui da cama. Eu nem vou ficar muito tempo, sério. Pode ser? Vai fazer eu implorar mesmo? - O gato Danado falou, apesar de saber que o velho Miguel jamais o poderia entender. Não completamente.

- Danado! - A voz trêmula e falha de Miguel escapou pelos seus lábios murchos. - V-veio... se despedir, né?

O leito estava dentro de um quartinho iluminado pela confortável penumbra de um abajur ao canto. Próximo da janela, havia um monitor aferindo os batimentos cardíacos e a saturação do paciente, um homem cuja idade já lhe cobrava caro demais por cada suspiro de vida. 

- É, Miguel... É hora. Eu gostaria muito que tivesse algo que eu pudesse fazer. - Danado lhe disse enquanto se aconhegava no leito, se deitando próximo do rosto do seu amigo de longas datas. 

- Como é que você sempre sabe a hora certa, hein, Danado? A Maria... O Carlos... O filho do Carlos... - Miguel questionou o amigo enquanto o acaraciava entre as orelhas caídas. 

- Eu adoraria saber também, Miguel. Mas é uma coisa de instinto... Que nem quando a zeladora coloca ração velha e mole. Eu nem preciso cheirar pra saber que aquela vadia tá me sacaneando... Eu até como, mas depois vomito na travesseiro dela. Lembra? É tudo instinto. Eu sinto um aperto, e o meu rabo fica todo arrepiado. Não é ruim, mas também não é bom. 

- Às vezes, Danado, eu sinto que você tenta falar comigo. Quer me falar alguma coisa? Palavras finais, de um amigo pro outro? - A tosse, que lhe rasgava os pulmões e maltratava a garganta, interrompeu a sua fala algumas vezes, mas ele insistiu. 

- Tanta coisa, Miguel... Segredos, histórias, e confissões que só você entenderia. Desde aquele dia, quase vinte anos atrás, que você me resgatou, eu sabia que você era um humano especial... Se ao menos você não fosse burro feito uma porta, e pudesse me ouvir. Mas eu aprecio sua companhia, Miguel. Seu carinho insistente e a sua mão, leve como um elefante crossfiteiro, vão me fazer muita falta. De todo mundo aqui, você é o meu preferido. - Danado confessou enquanto lambia a palma da mão enrugada do amigo, que sorria uma última vez, e deixava escorrer pelo rosto castigado pelos anos, uma única lágrima de amor, de saudade, e de amizade. 

- Não fica triste não, Danado... - Disse Miguel, lutando contra os seus momentos finais. - Não fica triste porque essa história de ficar triste... Isso é coisa sabe de que?

- De que? - Danado o indagou, interrompendo as lambidas, e o encarando fundo nos olhos ainda cheios de vida. 

- Isso é coisa de cachorro! De cachorro pidão! - Ele disse, e sorriu... E foi assim que se foi... Sorrindo, fechando os olhos, e levando consigo a palavra final, e o olhar do melhor companheiro dos últimos anos. 

Danado, quieto e parado como uma pedra, não se deixou distrair pelo alarme do monitor, que logo atraiu dois enfermeiros. Um deles o pegou pela cintura e o colocou no chão, o que não o deixou muito contente, mas com que forças ele poderia protestar? As presas haviam caído ano passado, quando tentou morder a perna da zeladora. Uma das patas doía muito quando andava, e ele desconfiava que havia sido de quando derrubou a árvore de natal em cima da única televisão do asilo.

Ele ficou lá, próximo do abajur, vendo os homens, em vão ele sabia, lutando pela vida do amigo. E aquela sensação, nem boa nem ruim, se fez sentir mais uma vez... Danado olhou em volta, mas não viu ninguém, nem sentiu nada que pudesse explicar o evento.

- Miguel, é você...? - Ele miou uma vez, mas ninguém o respondeu. Os homens, após alguns momentos, levaram o leito embora, e o quarto ficou vazio... Ele, então, tentando esquecer a solidão na qual agora estava preso, fez um pequeno esforço e subiu na cama de Miguel, e se enfiou entre seus lençóis, que ainda guardavam em suas fibras o perfume e a essência do velho companheiro... Danado se deitou, e só pra ter certeza, tentou mais uma vez... - Miguel...? 

Foi então que um cansaço repentino delicadamente lhe roubou as forças... Ele deitou a cabeça sobre o travesseiro, e pensou numa soneca... Numa bem longa e merecida... Sem televisões altas ligadas o tempo inteiro. Sem telefones tocando sempre no volume mais alto, e claro... Sem ração mole e velha na tijela.

O quarto foi ficando mais escuro, como se a lâmpada do abajur estivesse cansada de tanto trabalhar... 

- Miguel... - Ele grunhiu silensiosamente. - A verdade é que não queria que tivesse partido... Não sem mim.

A porta se perdeu na escuridão... E depois o teto... E por fim, só a cama permaneceu, e o travesseiro... E a sensação, nem boa nem ruim, se desfez para sempre, assim como o seu último ronronar de alegria ao ouvir:

- Eu jamais partiria sem você, Danado...!

 



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