Dezesseis Pregos

 TOC TOC TOC

- Quem é?! - Eu berrei o mais alto que pude depois de respirar fundo e sentir os ossos se esfarelando. Berrei pra que entendessem o quanto eu não queria receber ninguém. Berrei pra deixar claro que não seria hospitaleiro. Berrei por berrar, porque ainda podia. 

TOC... TOC... TOC... 

- Puta que pariu..! - Me levantei da cadeira, com uma garrafa pela metade da pior cachaça que você possa imaginar numa mão. Fui até a porta, e abri de uma vez pra ver se de repente conseguia fazer quem quer que fosse o imbecil se tocar do horário, e da inconveniência. Nada no mundo jamais poderia ter me preparado pra quem tava do outro lado daquela porta. O impacto inicial quase me fez esquecer a dor do câncer que me comia vivo, de dentro pra fora. Eu a olhei da cabeça aos pés, e não conseguia entender o que era que tava acontecendo... Até que olhei pros olhos dela, e percebi a imperfeição... O brilho do castanho tava errado. - Até que enfim, né? - Eu disse, abrindo um pouco mais a porta pra que ela entrasse. 

- Com licença... - Ela passou por mim, e incontáveis lembranças inundaram a minha mente... 

- Bora acabar logo com isso? - Eu disse, tão quanto fechei a porta e dei um gole da garrafa.

- Isso só piora tudo pra você. Você sabe disso, né? - Ela apontou pra cachaça. Teve a ousadia.

- É muita audácia, - Eu a encarei. - Ainda mais vindo de você... Você sabe o que eu tô passando, né? Mas não conhece a dor... Eu sinto essa dor todos os dias, o dia inteiro... - Eu me aproximei dela, e quanto mais perto eu chegava, mais nítido se tornava o disfarce macabro da entidade a quem eu implorei pela visita pelos últimos meses. - Meus pés doem quando eu tento andar... Meus joelhos parecem que vão explodir até quando eu tô sentado... Eu mijo sangue... sangue! Isso quando eu consigo! Porque a minha bexiga já era. Eu bebo... Por que é a única morfina à qual eu tenho acesso. Mas isso tudo, você já sabe, né?

Ela então olhou pra baixo, em direção aos meus pés, como quem pensasse em algo pra falar, ou talvez em como falar. 

- Eu sinto muito, - ela disse, voltando o olhar para o meu. - Eu errei em ter te deixado assim, de molho, por tanto tempo. Por isso decidi vir pessoalmente... De modo a tentar consertar tudo, da melhor maneira possível. - Lembra quando eu disse que os olhos estavam errados? Acontece que a voz... A voz tava perfeita. Exatamente como eu lembrava nos meus sonhos.

- Consertar? - Eu indaguei, quase arremessando a garrafa nos pés dela. - Eu implorei por você todos os momentos desde que descobri essa doença filha da puta... Eu perdi as contas de quantas vezes eu chorei só porque acordei no dia seguinte... E agora você me aparece desse jeito? 

- Eu vim assim porque pensei que pudesse amenizar a sua fúria. - Ela me respondeu com um toque gentil no meu rosto, o qual eu apenas não neguei por falta de forças, e pelo desejo irracional de que fosse, de fato, o toque dela... - Neutralizar um pouco a sua frustração com a imagem de alguém que você amou de verdade alguns anos atrás.

- Trinta e dois anos atrás. - Eu a respondi enquanto uma lágrima me escorreu o rosto. Eu dei minhas costas para ela, a fim de esconder, e aproveitei pra terminar a garrafa de uma vez só. Caminhei em passos lentos e doloridos até a pequena janela que dava para a rua deserta. - Por que foi que demorou tanto? - Me virei de volta para ela. -  Por que é que não me levou ainda? Médico nenhum explica o motivo de eu ainda estar vivo... Por que fez isso comigo?

- Sim, eu admito. - Ela falou enquanto sentava-se no chão imundo. - Fui egoísta, e adiei a sua morte, lhe causando dor e sofrimento como poucos neste mundo chegaram a conhecer. E, por tanto, eu certamente prestarei contas eventualmente... Mas você merece uma explicação, e a terá... Logo no início da sua doença, você ignorou conselhos médicos e foi até um bar não muito longe daqui... Lá, você barganhou por sua vida com um homem armado, e eu estava lá, pois ali era o momento de sua morte. Porém, a sua barganha foi algo completamente inédito em toda a existência... Você lembra disso?

- Vagamente. - Claro que eu lembrava. Era uma dívida de alguns míseros reais, que acabei coletando com a esposa do agiota. Quase me fez sorrir lembrar dessa história, mas não poderia ter havido barganha nenhuma se ele soubesse que a fiel esposa já havia coletado a dívida. - Lembro por cima. Apostei com ele que equilibraria dezesseis pregos em cima de um só. 

- E caso falhasse, ele poderia lhe matar. 

- Exatamente.

- Como foi que conseguiu?

Houve então um momento de silêncio dentro do apartamento, e a sensação foi de que a madrugada inteira se passou entre nós antes que um de nós emitisse um som sequer. 

- É sério, isso? - eu a indaguei. - Você, a própria Morte, adiou a minha passagem, pra descobrir como eu fiz um truque de zoológico, que qualquer macaco com um dedo no cu consegue fazer?!

- Isso não é verdade, - ela disse desprezando um sorriso que se formava em seus lábios, aliás... Nos lábios dela. - A História de vocês aqui nesse mundo é curta e recente, mas facilmente se estica quando procuramos os detalhes... E nestes detalhes, eu nunca vi um truque tão bem utilizado como o seu... Aguardei, e adiei a sua jornada porque tive esperanças que o repetisse. Mas nunca mais o fez!

- Você disse que tava lá! Não viu, não?! 

- Quando você selou a aposta, teu espírito se esquivou do destino... É algo extraordinariamente raro... Eu não pude permanecer, e precisei me ausentar. Não vi o truque. 

- E você acha que chegando aqui assim, - eu apontei pra ela inteira. - Vai me convencer a te mostrar... Mas não é assim. Eu viveria mais mil anos nesse inferno só pra te privar esse gostinho. Só pra me vingar da merda que é o inferno pelo qual você me deixou viver esses últimos meses.

- Eu sei, - Ela então levantou-se. - Mas acontece que hoje é o dia. A sua hora. E eu preciso te levar, de um jeito ou de outro. Com ou sem truque revelado. Porém, eu também sei barganhar, e pra compensar tudo o que te causei, e, como eu disse, consertar as coisas, que tal uma troca?

- Prossiga... 

- Geralmente, uma vez que o Caminho se abre, uma nova jornada se inicia, e tudo o que você conhece, ama e odeia tende a ficar pra trás. Mas não se eu intervir. 

- O que é que você tá tetando me falar? - Eu sussurrei pra ela, buscando um semblante de esperança me confirmasse o que eu queria ouvir.

- Em outra vida, outro mundo, outro tempo... Eu posso reuní-los novamente. - Ela me disse, abrindo levemente os braços na minha direção, e eu me deixei enebriar pela sensação do abraço dela... - E apesar de nada nem ninguém garantir o desfecho dessa história, eu posso afirmar que o sentimento permanecerá, e o encontro das suas almas é tão certo quanto a noite e o dia em todo o limiar da existência... Basta que me mostre o truque.

Eu então, me senti como quem saísse de um transe profundo... E sorri. Como que um truque tão idiota poderia ter me causado tanta dor e sofrimento? Mas só então, depois de todas aquelas palavras temperadas pela sua voz meiga e sensual, foi que eu percebi... Havia trinta e dois anos que meu inferno pessoal começara... Fiquei preso nesta merda de vida, entre a melancolia e o ódio, desde o dia em que a perdi pra sempre. Desde o dia em que ela deu seu último suspiro ainda em meus braços. Me vi então, naquele momento, com a impossível e absurda possibilidade de viver todo aquele amor novamente, e de velejar mais uma vez pelo doce mar que era a incrível sensação de conhecê-la pela primeira vez. De mergulhar naquela sensação do começo de um improvável romance, onde tudo é gostoso e intenso... Tudo isso, em troca de um truque idiota de bar.

- Dentro daquele armário, - eu apontei com uma mão trêmula. - Tem um saco de pregos, e na gaveta de baixo, um martelo... Traz pra cá. 












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