A Fada no Armário

- Por que você abriria mão de tudo que tem aí fora? 

- Essa é fácil... Aqui fora não tem você! 

...

Essa história é diferente das outras.  

Já tem um tempo que descobri algo extraordinário onde trabalho... Nem sei se daria certo escrever aqui a respeito, mas depois de considerar o absurdo dos fatos, pensei que a veracidade incomum dos eventos acabaria se disfarçando bem no meio dos outros contos... Pois bem... Vou resumir. 

Eu estava completamente sozinho numa sexta-feira à tarde quando pensei ter ouvido um pequeno ruído num dos vários armários da vasta sala de descanso. Me levantei, sem me preocupar muito com meus afazeres, e tentei escutar melhor de onde parecia vir o som. 

Me deixando guiar pelo ouvido, acabei chegando até um dos armários localizado na parte mais baixa das fileiras. Me ajoelhei, e quando toquei a mão na pequenina maçaneta, o ruído parou. Abri a portinha lentamente, e pra minha surpresa, era uma belíssima fadinha, não muito menor que meu dedo mindinho, linda e assustada, com o pezinho preso entre dois livros há muito esquecidos por seus donos. 

Ela me olhou petrificada, mal se movia, talvez na esperança que eu não a notasse, ou quem sabe rezando pra que eu me convencesse de que havia ficado louco, o que eu admito que até hoje não é algo que me foge totalmente das possibilidades. 

- Você tá presa? - Eu a perguntei, e ela arregalou os olhinhos castanhos enormes e cheios de vida! - Eu... Eu não vou te machucar! Você quer ajuda? - Eu insisti. 

Ela acenou com a cabeça rapidamente, e eu muito delicadamente levantei os livros sem muito esforço. Ela tirou o pé e desapareceu como que um sonho... Uma lembrança perdida.

Naquela sexta, eu devo ter revirado todos os armários em busca dela. Mas não a vi mais... Nem lembro como sobrevivi ao final de semana, ansioso pra que a segunda chegasse, apenas pra que eu pudesse buscá-la. Mas não tive êxito... Eu precisava esperar a sala de descanso estar vazia, o que só acontecia perto do horário do fim do expediente. Procurei por ela na terça, na quarta, e na quinta também... E foi então, na madrugada de sexta, que uma ideia me ocorreu.

Pela sexta de manhã, logo quando cheguei na empresa, deixei um pequeno chocolate pra ela, no exato local onde a vi pela primeira vez... Naquele dia, trabalhei ansioso, e contemplei a possibilidade de vê-la novamente, e poder me deixar encantar pelos seus olhinhos novamente. 

Ao final do dia, corri pra sala dos armários, e conferi pra ver se o chocolate ainda estava por lá... E ora, ora... Adivinhem só... Ela estava lá, sentadinha com os braços repousados sobre os joelhos. Linda e meiga. 

- Eu sabia que você era real. - Eu a disse sorrindo. 

- Sabia nada. Se não me visse hoje, era bem capaz que ficasse maluco de verdade. - Ela me respondeu, escondendo um sorrisinho apaixonante com uma das mãos. 

- Ué, você sumiu como uma miragem... É claro que eu realmente cheguei a pensar que foi tudo... 

- Ilusão?

- Exatamente. Mas não foi, né?

Ela balançou a cabeça, me confirmando a dúvida. Eu me sentei no chão, pra poder tentar ficar no mesmo nível de visão que o dela... 

- Eu nem devia estar aqui, e muito menos devia estar falando contigo. É muito, muito errado. Mas eu senti que precisava agradecer. - Ela confessou. 

- Agradecer? 

- Salvou minha vida uma semana atrás... e hoje me deixou um presentinho. Admito que muito saboroso! Não sabia que vocês aí de fora podiam ser assim! 

- Bom, - eu sorri - não somos todos assim. Qual o seu nome? 

- Me diz o seu primeiro!

Esse dia foi mágico... Eu nem sequer me lembro de que horas voltei pra casa. Mas lembro da melancolia que comia meu coração no caminho de volta. Não me entenda mal... Eu estava eufórico! Apaixonadamente eufórico! Acontece que minha nova amiga só conseguia acessar meu mundo por uma espécie de fenda mágica... E esta só se abria uma única vez por semana, justamente às sextas-feiras! Ou seja, eu só a veria novamente daqui há sete longos e intermináveis dias. 

Os dias passaram... E com eles, as semanas que nos permitiam nossos encontros também... Três encontros se transformaram em seis... E depois em nove... E parecia que havia uma eternidade de incontáveis assuntos a serem discutidos entre nós. Eu amava cada palavrinha que saía dos seus lábios, e ela também parecia genuinamente interessada em tudo que eu tinha pra contar. Eu admito, sem o menor constrangimento, que inúmeras vezes me passou pela mente a ideia de a prender no bolso, e levá-la comigo pra casa, onde poderia ter sua companhia, sua amizade, sua inteligência, e seu olhar sempre comigo. Mas claro que não o fiz... Até porque, como ela mesma já havia me explicado, nossos mundos eram distintos demais... imagino que você entenda... e imagino que entenda também o quão alto era o preço, pago em angústia, pelos breves momentos de sexta que eu compartilhava com ela...

Eu não sei bem se esse conto se encaixa num conto de fadas... Será? Como terminam geralmente os contos de Hans Christian Anderson? Fica aqui a dica, caso você queira parar a leitura por aqui... 

Foi numa segunda-feira chuvosa e amaldiçoada, que cheguei ao trabalho apenas pra me dar conta de que alguém da administração, durante o final de semana, havia ordenado uma reforma da sala de descanso... Consequentemente removendo todas as fileiras de armários, substituídos por sofás, cadeiras e até uma mesa nova. 

Eu cheguei a perguntar pra todos os responsáveis onde os armários haviam sido deixados, mas ninguém soube me responder... Entrei em contato com a empresa que participou da obra, e me contaram que tudo o que havia sido removido precisou ser desmontado, mas que os objetos encontrados estavam a salvo na empresa... Como se eu desse a mínima pra algum objeto. Eu queimaria todos só pra vê-la uma última vez. 

Esperei a sexta, e fiquei até o anoitecer na nova sala de descanso. Deixei um chocolate em cima da mesa, e adormeci no sofá enquanto esperava ouvir algum ruído solto pelos cantos do cômodo. 

Eu nunca mais a vi... Mas a sua mera lembrança desperta em mim o mais puro prazer de tê-la conhecido, só que junto desse prazer imensurável, também me vem a mais absurda dor de nunca tê-la tido pra mim por mais de um dia, ou até quem sabe, num conto um pouco mais absurdo, pra sempre. 



 





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