Um Dia Ruim

 - Eu preciso muito daquela tua cara de safado... - Ela disse tão prontamente quanto ele abriu a porta. 

- Eu bem que estranhei quando você mandou mensagem no meio da semana. - Ele disse sorrindo com a ponta dos lábios, enquanto seus olhos a revistavam por completo, dos pés à cabeça, por dentro e por fora. - Entra, entra... 

Ela obedeceu, e jogou a bolsa em cima do sofá, e deu meia volta pra se deixar encaixar naquele abraço perfeito dele. Era uma visita inesperada, ela sabia, mas não havia como infelizmente não se apaixonar um pouco sempre que ele se mostrava tão presente. Às vezes, aliás, ela até preferia que ele não fosse tão doce, e tão irresistivelmente imprestável. 

- Saudade... - Ela falou enquanto o beijava, ignorando o odor o sabor e o odor da erva, ainda tão frescos nos seus lábios e no ar. - Vem cá... - Ela o puxou em direção ao quarto. 

- Opa, calma aí... - Ele a segurou gentilmente pela mão. - Senta aqui rapidinho. Me conta qual foi. Que houve?

- Ai, não... Sem essa, vai. - Ela disse se encostando no seu peito despido, e passeando os dedos pelas brechas das suas calças velhas de ficar em casa à toa. - Eu não quero trazer um lamento pra um momento nosso. 

Ele sorriu e a abraçou calorosamente. Ela repousou sua cabeça em seu ombro e se deixou relaxar no seu delicioso aperto. Foi até inesperado quando ele desceu as mãos repletas de desejo pelo seu corpo e disse...

- Tira essa roupa pra mim. Senta aqui comigo, vem... Vou colocar um filme qualquer pra gente não ver. - Ele disse sentando-se no sofá, e afastando a sua bolsa pra que ela o acompanhasse. - Me conta essa lamento, bora.

- Não... Não precisa. É sério. - Ela relutou enquanto se acomodava ao seu lado, com suas pernas despidas por cima das dele. 

- Eu quero ouvir. Quer uma cerveja? Quer puxar um comigo?

- Quero tudo. Quero o filme, quero a cerveja, o trago... E quero você. - Ela o respondeu lançando sobre ele um olhar o qual ela sabia perfeitamente o tipo de efeito que causaria. 

- Quer, né? - ele disse deslizando as mãos pelas suas pernas. - Eu sei que quer... Vai ter... Já tem... Mas me fala o que houve, vai. 

Ela revirou os olhos numa mistura de impaciência e desejo de vomitar todos os eventos do péssimo dia. Uma vontade deliciosamente perigosa de apoiar a cabeça no colo dele, e se perder numa narrativa chata e interminável que não poderia ser nada além de puramente tediosa para quem quer que sofresse a ouvindo. 

- Olha, - ele disse, a tirando daquele transe. - Eu não sei se você já percebeu isso, mas eu tô aqui pra você... Pra mim, não tem essa de não trazer lamento. Eu gosto de te deixar louca? Claro... Eu gosto de ouvir teu gemido no meu ouvido? Amo... Mas essas coisas só fazem sentido se eu souber que você tá bem. Então, sem essa de revirar essas nebulosas pra mim... Conta tudo, que eu vou pegar a cerveja e o bagulho. Tá bom?

Ela cobriu o rosto com as mãos pra tentar ocultar um sorriso sem jeito. E então, revelou..

- Eu odeio quando você é assim... - Ela falou, se afastando um pouco pra que ele levantasse. - A gente vai mesmo conseguir conversar? Você acha?

- É uma boa pergunta. Quem sabe?... Sugestões? - Ele falou da cozinha, enquanto abria a refrigerador. 

- Sim! - Ela disse, já quase que sem perceber deixando uma alegria genuína lhe extinguir a angústia do dia ruim. - Talvez dê certo conversar desde que eu não esteja em cima de você, e que não me olhe com aquela cara de safado...









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