O Cheiro
- Nossa, esse perfume... - Ele levantou o rosto como quem procurasse alguém conhecido entre as mesas do restaurante. Sondou as mesas vizinhas, repletas de casais iluminados pela luz branda das luminárias rústicas, mas acabou voltando o olhar pra ela. - Tá sentindo? É um perfume masculino.
- Um pouco longe, mas tô sim... - Ela o respondeu, afastando os cabelos castanhos do rosto com um movimento sutil da cabeça. - É muito bom.
- Teve uma vez... E eu nunca esqueci esse dia... Eu tava voltando de uma reunião da empresa. Aliás, eu fiz foi conseguir sair mais cedo... Escondido! A parte final era uma análise idiota de um filme, e eu nunca tive paciência pra filme. Nisso, eu caí fora apressado, louco pra voltar pra casa, trocar de roupa, e ir ver a final com os caras.
- Isso tem quanto tempo? Você ainda tava com a outra lá? - Ela perguntou, sondando por uma informação específica enquanto brincava com a taça de vinho branco.
- Tava, tava sim. Isso foi um mais ou menos na época que eu te conheci. - Ele parou um pouco, e pensou por um momento. - Foi assim... Na pressa de chegar em casa, eu acabei chegando mais cedo que o normal. Até aí, tudo bem. Mas meu prédio não tinha elevador. Eram cinco lances de escada!
- Aff... Ninguém merece. - Ela comentou.
- Pois é! Nem me lembre. Mas aí, no que eu tava mais ou menos no terceiro andar, eu senti deslizando do meu braço essa pulseirinha aqui, olha só... Essa mesma aqui. Caiu e ainda fez o barulhinho do ouro batendo no chão e tudo. E aí, eu parei, né, claro... E comecei a procurar. Olhei pro chão, pras escadas, e nada de achar. Foi quando, do nada, veio descendo esse cara... Mais ou menos da minha altura, meio grandão, e de um jeito super gente boa me perguntou meio ofegante...
"Opa, parceiro, tudo tranquilo ai? Quer ajuda?"
"Não, cara, valeu! Deixei cair uma pulseirinha dourada por aqui, e não to achando." Eu respondi, porque por algum motivo, eu pensei que ele tava apressado... Na hora eu reparei assim por cima, meio que sem querer mesmo, que ele além de tá meio ofegante, quase cansado, ficava passava as mãos na cabeça pra limpar o suor, e tal... Então, né... Imaginei que o cara tava no mínimo apressado ou cansado, e tudo mais.
"Ahh, eu te ajudo a achar. Relaxe que a gente vai encontrar. Vai dar certo." Ele me disse na maior tranquilidade do mundo. Desceu pra onde eu tava, e começou a procurar junto comigo. Foi aí que eu comecei a sentir o cheiro do cara.
- Era esse perfume que você sentiu hoje? - Sua acompanhante o perguntou.
- Era! Mas tava fraco! Desgastado... Mas tinha um resto ainda, e eu lembro que na hora só pensei que era um perfume bom. Ainda cogitei de perguntar qual era, mas eu não quis passar a impressão errada... Mas ai, voltando pra história... Ficamos lá, procurando, e eu já pensando na possibilidade dele achar, esconder no bolso, e eu ficar sem minha pulseira. Daí eu tentei, de um jeito delicado, dispensar ele.
"Cara, de boa, dá pra ver que você tá aí meio cansadão, não precisa procurar não. Eu me viro, de boa."
"É essa aqui, parceiro?" Ele me perguntou levantando a mão e me mostrando a bendita pulseira que tava no canto, entre um degrau e outro. Claro que eu teria achando, uma hora ou outra. Mas na hora eu fiquei tão aliviado que eu quase abracei o cara. Agradeci horrores mesmo, e até pensei de chamar pro jogo também. Mas ai reparei que ele tava usando uma camisa daquelas bem nerd, daquele filme lá do espaço nas guerras, que tem as espadas de laser.
- Eu não lembro o nome, mas acho que sei qual é. - Ela disse terminando a segunda taça, quase implorando silenciosamente pelo fim da história interminável.
- Daí, né, nem chamei pro jogo. Mas aí perguntei...
"Mora aqui, cara? Qual apartamento?"
"Não, parceiro! Vim só visitar alguém pra bater um papo. Valeu, hein! " Nisso ele continuou descendo as escadas, e sumiu.
"Subi os outros dois lances de escada que faltavam. Cheguei na minha porta... Tirei os sapatos ainda do lado de fora, como de costume, e ajeitei o capacho que tava torto. Entrei no apartamento, e a outra lá tava no banho, de porta fechada... Eu até que achei bom, porque podia só trocar de roupa e já sair, sem todo aquele conflito típico.
Entrei no quarto... Abri o armário, peguei uma camisa limpa... Tirei a pulseira do punho, e aí... Do nada senti o cheiro do cara de novo! E o pior é que parecia que tava mais forte!
"Na hora, eu tentei raciocinar o seguinte... Eu fiquei tão feliz dele ter me ajudado com a pulseira, que eu acabei lembrando quando olhei pra ela!
- Sério? - Ela disse tentando esconder um sorriso debochado.
- Juro! Antes de sair, eu ainda cheirei a cama... o sofá... até o tapete da sala...! E sim, eu me abaixei pra dar uma fungada até no tapete da sala. Tudo com o cheiro dele...
- Nossa... - Ela disse esticando a mão pela mesa até tocar a dele. - Como você reagiu?
- Eu fui ver o jogo com os caras, claro. Não tinha porque estragar a noite só porque o perfume do cara tinha impregnado meu nariz.
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