Janeiro

 - Sabe qual é o principal problema de Janeiro? - Eu perguntei pra ela, enquanto ela anotava alguma baboseira qualquer no caderninho. - É que ele acaba. As oportunidades que ele traz vão se extinguir com ele. - Eu continuei, mesmo achando que ela não me ouvia. E daí? Se ela não se importava, quem diria eu... Eu só queria desabafar um pouco sobre toda aquela sensação de explosão dentro de mim. - São alguns dias de aventura, êxtase, euforia, e claro, saudade... Saudade pelos dias que já se acabaram, e é sempre assim, em Janeiro. Vivendo cada dia sorteado intensamente, porém, tentando manter frescas, na memória, as lembranças do dia anterior. As aventuras devassas, e os toques proibidos...  O calor emprestado do corpo dela, e o som do seu beijo, tão hipnotizante quanto o prazer do seu gemido. Quase sempre, o que eu faço é parar um pouco... Daí eu seguro o rostinho dela nas mãos e fico olhando, tentando tirar uma fotografia mental, sabe? Eu tento parar aquele momento, com ela nos braços, uma mão nos cabelos lisos dela... E eu fico ali só... Observando. Tentando captar cada detalhezinho, cada ponto minúsculo daquele sorriso, só pra tentar assistir de novo quando esses dias estiverem pra trás, e tudo não passar de uma lembrança dolorosa. Eu nem sei se eu amo ou se eu odeio esse mês, de tão louca que é essa mistura toda.

- Poxa, que intenso esse romance. Chega a ser quase... Fictício, né? Será que a personagem se sente da mesma forma que o autor...? Será? - Nem adiantava ficar irritado com ela. Claro que ela pensaria aquilo. Bastava olhar pra mim com vontade pra poder ver o caso perdido. Eu só sorri, e ergui os braços como quem dissesse que talvez ela tivesse razão. Talvez realmente fosse ficção, e eu estivesse imaginando tudo. Eu só não pensei que fosse doer quando pensei aquilo. - Bom, - ela continuou. - Me parece uma relação de amor e ódio com o mês em si. Nesse caso, me corrija se eu estiver errada... O mês inteiro é uma grande janela de oportunidades, e você se sente irritado com isso? Com a iminência do fim de um período regado a, como você mesmo disse, aventuras, extase e euforia?

- É por aí, doutora. O que eu faço...? - Me surpreendi dela ter de fato escutado tudo... Nem eu lembrava direito o que foi que eu falei.

- Bem, - Ela disse tirando os óculos, que por acaso me lembravam de outra pessoa. - Não sei, e nem devo te falar o que é que você deve ou não deve fazer. Mas... Supondo que essa sua narrativa desse romance incendiário seja de fato mera ficção, e eu pudesse me colocar no lugar dessa sua personagem que se derrete nos seus braços... Talvez eu gostasse que, por mim, você ligasse o foda-se, e escrevesse essa ficção da sua forma egocêntrica e orgulhosa... Por que ter só um Janeiro?

- Quando, na verdade, eu posso fazer de todos os outros meses Janeiro...?


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