Medo e Tes--... Desejo!

- Tá sozinho aí? - Ela me perguntou quando me encontrou sozinho na varanda, com uma cerveja na mão, e quase triste espiando as janelas dos prédios vizinhos pra ver se dava a sorte de ver alguma sacanagem. 

- Tava. - Eu respondi me virando pra ver quem era. Era uma moça alta, do cabelo curtinho e loiro. Trazia uma serenidade no olhar que eu nem sabia que tava precisando naquele momento. - Mas pode ser que eu precise de companhia. 

- O que tem aí fora de tão interessante? - Ela falou se aproximando, deixando a festa pra trás e fechando a porta de vidro que separava os cômodos. 

- Olha, além desse vento frio, só tem eu mesmo... Sinto muito. 

- Mas já me parece valer a pena. - Ela disse tomando a cerveja da minha mão e dando um gole. - Por que você tá aqui fora? Tá muito doidão? - Ela perguntou num tom de preocupação genuína, o que me fez sorrir.

- Ainda não. Mas eu chego lá, com certeza. 

- Chegaremos. - Ela disse pouco antes de dar outro gole. - Mas fala, tá pensando em que? Em quem? Não faz sentido você aqui fora enquanto lá dentro tem tudo.

- Não é te expulsando. - Eu falei tocando seu braço gentilmente. - Eu vim pra aproveitar. Pra ser irresponsável. Pra amanhã, quando eu lembrar de hoje, dar graças a Deus não ter morrido, sabe? Mas quando eu vi a varandinha escurinha... Eu precisava desse silêncio um pouquinho. Só pra pensar um pouco. Pra ficar bem, entende?

- Hmmm... - Ela me olhou de cima a baixo. - Entendi tudo. Você veio pra festa pra se afundar no desejo. Mas precisa estar aqui agora, né? Pra encarar outra coisa. Outro sentimento. Que parada louca, né? - Ela não tava errada... Só se expressava de forma estranha. Ou talvez eu, ainda em estado de "não doidão", não tivesse compreendido por completo.

- É... Pode ser. Eu com certeza vim pelo desejo. Pela festa... - Voltei o rosto pra porta de vidro, e vi cerca de vinte pessoas no apartamento. Algumas no sofá da sala, umas no chão... Outras em pé dançando e curtindo, enquanto uma ou duas transitavam pelos demais, certificando-se que os produtos não se esgotassem. Era exatamente o que eu procurava quando saí de casa. Então porque diabos agora eu estava isolado?

- Eu to vendo que você tá louco pra entrar. - Ela falou me lançando um olhar bastante convincente. - Mas esse outro sentimento... O que é? Me conta?

- Medo.

- De quê? - Ela disse terminando a cerveja... 

- Eu acho que é por isso que tô aqui fora. Pra tentar entender isso. - Eu falei sorrindo. 

- Mas sóbrio? Sem nenhuma ajudinha?

- Óbvio que não. - Eu lhe disse enquanto abri um sorriso enorme nos lábios. - Tinha duas balas naquele restinho de cerveja que você deu fim. Daqui uns vinte minutos, a gente vai quebrar esse apartamento inteiro. 

- Mentira! Mentiroso! É sério?! - Ela me disse enquanto me socava fraquinho no ombro. 

- Seríssimo. 

- Então a gente tem pouco tempo pra resolver esse babado teu aí! - Ela me disse já um tanto eufórica, repousando as mãos nos meus ombros. - Medo... Medo de que? Da morte? Da solidão? 

- Nada... Já me entendi com essas duas ai, - Eu respondi olhando de volta na direção da festa. - Medo de não entender direito o que outra causa em mim. Medo de não conseguir curtir a festa direito porque vou passar a balada toda imaginando ela aqui, curtindo comigo, se entregando ao momento ali no meio da sala... No sofá... 

- Sério...? - Ela me perguntou quase decepcionada. 

- Justamente. Eu não sei se tudo isso que eu falei é sério. Eu não optaria por isso, sabe? Por essa dependência... Sentir essa saudade. Olha onde eu tô... Olha pra essa festa... Mas... E se acontecer? É meio idiota, eu sei... Eu sei! Não sei nem se faz sentido.

- Sentido... - Ela disse ponderando. - Não sei. Se nem pra ti faz sentido, quem dirá pra mim, né? Mas... E se você só curtir? Desligar o cérebro, anestesiar a saudade?  

- Sim, claro! É o que eu tô tentando fazer... E aí, pode ser que eu entre... A bala faça efeito... - Nessa hora retornei aquele olhar que ela havia me lançado antes, e ela percebeu, claro. - E aí só o momento pra dizer o que vai acontecer. 

- Eu até imagino, homem da varanda. 

- Eu também, moça intrometida. 

- Mas e se o tal medo bater junto com a bala? - Ela questionou, descendo as mãos dos meus ombros até meu abdômen. 

- E daí? - Eu a indaguei, bastante sério, enquanto a encarava. 

- Vai deixar de degustar do menu da festa? 

- Improvável. - Eu respondi. 

Ela soltou uma gargalhada leve e sorriu alegremente. Me deu um beijo no rosto e me disse...

- Gostei de você, sabia? Me fala mais... Me fala dela... O medo eu acho que já peguei.

- Dela? - eu falei massageando a cabeça com as mãos, sentindo a brisa fria da varanda escura. - Se ela estivesse aqui, você não estaria aqui fora comigo. Já teria visto ela por ali, num vestidinho lindo e inundando o apartamento todo com um carisma idiota e irresistível que te deixa sem jeito... Só que quando você chega mais perto, é ai que você entende que ela é muito mais do que você imaginava...

- Em qual sentido? - Ela me perguntou, totalmente entretida pela minha descrição.

- No pior sentido possível... É como se uma ninfa obscena e devassa, cheia de desejo, se disfarçasse de uma fada doce e meiga, cheia de um sentimento que gera um medo específico, sabe? Só que no fim, ela não é uma nem outra, e sim as duas juntas! O pior e o melhor dos dois mundos, numa só pessoa... Ela é isso!  

- Uma ninfa que nasceu fada... - Ela falou me olhando profundamente, como se visualizasse tudo que falei, sílaba por sílaba, sensação por sensação. Daí ela fechou os olhos por um momento e inclinou a cabeça pra trás, acompanhando a batida do som que vinha de dentro do apartamento. Eu sabia exatamente o que tava acontecendo, até porque eu também estava quase lá... Quase chegando no comecinho da sensação. E aí, ela me disse... - Chama ela!

- Chamo? Chamo, né?! - Eu indaguei surpreso, tirando o celular do bolso. 

- Entende uma coisa! - Ela me disse quase colando o rosto dela no meu, quase sentindo minha mandíbula tremer em êxtase. - Pega esse receio, esse medo, e se entrega ao impulso. A festa não vai durar pra sempre! Erra! Corre o risco... Se queima. Aproveita o momento, a noite, o prazer, e principalmente esse tesão todo... Liga, fala, chama, convence... E se a fada não vier, porque talvez esteja com medo, quem sabe a ninfa mostra as caras, transbordando e pingando de desejo? 


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