A Confissão
- Que houve, meu filho? O que é que te aflinge dessa vez? - O padre me perguntou sentando-se ao meu lado depois que a capela já estava vazia, e apenas eu permaneci lá, com os olhos molhados... de sono.
- Tem tanta coisa, padre, que eu nem sei se vale o seu tempo. - Eu respondi, já quase me levantando e partindo.
- Não sabe? E ficou a missa inteira aí pra decidir isso agora? Que tal, - ele me questionou cruzando as pernas e se sentando de frente para o altar. - se a gente deixar o drama de lado, e você me falar logo o que é que tá te comendo por dentro?
Eu admirei o quão direto ele foi... Isso é algo que eu gosto nas pessoas, apesar de ser muitas vezes incapaz de usar essa habilidade. Porém, pela admiração, eu me senti... Inspirado.
- Eu acho que eu tô apaixoado, padre. - Imediatamente depois de falar, me veio uma tsunami de vergonha alheia, e eu me senti como um garotinho de 5a série... Fechei os olhos e levei uma das mãos até a cabeça numa espécie de manerismo de disfarce... Nem eu sei descrever direito essa sensação. Você ai, lendo isso, sentiu um pouco da vergonha alheia também...?
- Ué, e qual é o problema disso? Não é pra ser uma coisa boa?
- Acho que sim, padre, sei lá... É meio complicado pra explicar, e se eu tentar, acho que só vai ficar pior.
- Mas você veio até aqui por um motivo. - Ele me disse, ainda de lado pra mim. Estávamos mais ou menos na fileira do meio, entre a entrada, e o altar. - Esperou a missa inteira porque tem algo pra falar... Eu entendo que talvez seja complicado, mas você já veio decidido a me contar a respeito. Daqui pra frente é um caminho só. Que tal começar me falando por que é complicado?
- É complicado porque é gostoso demais, padre. A euforia é muito intensa... É complicado porque é como se existisse um contrato social que me enche de limites, sabe? Eu queria agora, por exemplo, estar curtindo o domingo com ela, em vez de estar aqui, com todo o respeito. Desculpe se fui rude.
- Não se preocupe... Por que não pode passar o domingo com ela? - Ele indagou.
- Porque... - Eu nem sabia direito como explicar. - A gente meio que só se vê, assim no sentido de passar tempo juntos, uma vez por semana. Mas nossa... Eu mataria pela oportunidade de passar mais tempo juntos! Aliás, eu não mataria ninguém, é só uma expressão, claro. Desculpe.
- Meu filho, eu entendo expressões e coloquialismo. Se a cada denotação de coloquialidade você for pausar a história pra pedir perdão, você vai sair daqui tendo que rezar três rosários.
- Se ao menos isso me ajudasse a ficar mais tempo com ela, né? A aproveitar melhor o pouco tempo que temos juntos toda semana. - Ele sorriu, e finalmente se virou pra mim.
- Você já tentou falar essas coisas pra ela? Se expressar desse jeito? Quem sabe ela também não sente algo... Remotamente parecido?
- Não dá, padre... Ela não me escutaria.
- Por que você acha isso? - Ele encostou a mão no meu ombro, e eu senti a sua genuina vontade de ajudar, como já havia feito algumas vezes no passado. Mas foi ali onde eu percebi que acabei levando toda uma bagagem emocional pra alguém que nem de longe merecia aquele peso. Um peso que, no final das contas, era meu...
- Sabe, padre... Eu acho que de alguma forma a gente acabou falando sobre coisas diferentes. Não é nada tão sério quanto parece. - Eu falei sorrindo, rezando pra que ele caísse no meu papo, ou que pelo menos entendesse a dica, e deixasse tudo como estava.
- Coisas diferentes? Como assim? De quem é que estamos falando? - Ele entendeu a dica, mas seu espírito altruísta preferiu insistir. E eu até que adoraria me abrir mais... Mas sabe o que é que eu não suporto? Achar que de alguma forma tô perturbando as pessoas... E quando isso acontece, tchau tchau.
- Eu disse que tava apaixonado, e estou... Eu sinto que sim, mas não é coerente. Eu só a vejo uma vez por semana, e o sentimento não tem como ser recíproco. Isso porque eu tô me referindo à nova série de Star Wars que estreou no aplicativa da Disney duas semanas atrás... Toda semana, um capítulo novo! E é como eu disse... É gostoso demais... E a euforia é insustentável...
- Uma série de Star Wars? - Ele me olhou com os mais profundos ohos de decepção que eu já vi... Não sei se por ter acreditado... Ou não. - Sabe o que você poderia fazer?
- Diga... - Eu o respondi acenando com a cabeça.
- Coloca essa nossa conversa naquele seu blog. - Ele disse levantando-se, e me tocando no ombro mais uma vez. - Dessa forma, se alguém te perguntar o que significa, você pode falar que é apenas um conto.
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