Além do irreversível

Quando o célebre e inconfundível Dr. Tithonus adentrou o auditório, um breve e estranho silêncio se construiu entre todos os cientistas, jornalistas e especialistas das suas respectivas áreas que estavam ali presentes para a conferência. O momento de puro silêncio então perdurou até que, num irrisório intervalo que separa um suspiro do outro, como que em sintonia, todos lembraram de aplaudir a lenda viva que se prestava a caminhar entre eles. 


- Bom dia a todos. - Disse Tithonus, sorrindo e buscando contato visual com o máximo das pessoas que o assistiam atentamente enquanto incontáveis flashes de várias câmeras capturavam os menores movimentos do seu rosto durante as suas falas. - Eu gostaria de agradecer a todos que se dispuseram a estar aqui hoje para, enfim, presenciar a comprovação final de uma tese que há muito nos foi lançada como um desafio... - Ele então olhou em volta, e novamente o seu semblante foi tomado pelo brilho das câmeras. - Conforme a humanidade foi capaz de atingir marcos importantes da medicina, a sua expectativa de vida se estendeu exponencialmente, e em poucas décadas de evolução desde o evento que mudou a bio-engenharia de uma vez por todas, nós rapidamente nos vimos ultrapassando marcos nunca antes imaginados... Órgãos cuidadosamente desenhados pelos mais dedicados especialistas do ramo da bio-engenharia. Meus caros... Nós fomos testemunhas quando corações fragilizados foram substituídos por réplicas artificiais desenvolvidas em laboratório, e vimos a humanidade estender a sua capacidade de vida de forma ousada! 


Houve então uma série de murmúrios entre os seletos expectadores que o assistiam, e todos, numa espécie de impulso, levantaram-se segurando seus aparelhos ao alto para que pudessem ter o privilégio de serem selecionados para uma das primeiras perguntas que seriam enfim respondidas depois de quase duas décadas de reclusão do famoso pesquisador. Tithonus, porém, os acalmou gesticulando para que voltassem a permanecer sentados... 


- Calma, meus amigos. Eu sei que há muito tempo não vos dirijo a palavra, e compreendo que certamente há de se haver ansiedade entre todos vocês. - Ele novamente lançou o olhar para todos, e, por um breve instante, pensou ter visto alguém que não parecia se encaixar no padrão dos demais... Mas a imagem lhe escapou a visão e ele voltou ao seu discurso. - O avanço desta vez se deu por conta de algo verdadeiramente inimaginável. Não foi por mera pompa ou ego que eu precisei chamar aqui hoje todos vocês... Imagino até que alguns de vocês já saibam qual é a grande novidade, e o que é exatamente que isso significa para todos nós... Quantos de vocês aqui presentes possuem pelo menos um órgão sintético, moldado no seu próprio órgão original, e assim evitou a morte ou livrou-se de uma doença incurável? Ou simplesmente tenha melhorado a qualidade de vida? Quem?


Foi neste momento em que todos aqueles presentes no auditório, desde os mais renomados médicos e pesquisadores até os técnicos de imagem que filmavam o evento, ergueram as mãos. Tithonus sorriu, e na sua feição, o orgulho tomava de conta da sua pele sintética levemente enrijecida pelos castigos do tempo. 


- As pesquisas foram extensas, claro... Minha fiel equipe e eu passamos nove anos desenvolvendo o material que mais se assemelharia ao original, e de que forma poderíamos replicar as nuances e as sinapses nervosas que compõem e constroem... O cérebro humano? -  Sussurros cheios de requinte de assombração e surpresa rapidamente ecoaram pelo salão inteiro. Uns e outros arregalaram os olhos maravilhados pelo anúncio de Tithonus, enquanto outros expressaram uma certa preocupação nos seus semblantes... Todos, porém, positiva ou negativamente, estavam chocados. - Sim, meus caros... Nós reproduzimos com sucesso, a primeira réplica de um cérebro humano... Os testes em animais nos sugaram mais seis anos de estudos clínicos, mas foi então que, com ajuda dos nossos generosos investidores, nós fomos capazes de alcançar o impensável. É claro que... - Foi quando um jovem ergueu-se em meio aos demais, na terceira fileira quase ao centro. Ele não possuía nenhum aparato jornalístico, nem tão pouco aparentava ter idade ou aspecto de algum pesquisador da área. - Pois não? Posso ajudá-lo?


- O senhor não me reconhece? - O rapaz o disse, chamando a atenção e despertando a curiosidade dos demais para si mesmo. - O passo agora não é buscar nos seus arquivos a imagem do meu rosto e rodar uma análise que filtrará os incontáveis rostos que passaram pela sua frente desde o upload?


- Upload? - Algumas vozes perdidas e soltas entre os presentes se fizeram ouvir. 


- Do que ele está falando? 


- Que upload?  


- André...? - Tithonus o questionou deixando que se desenhasse pela sua face um requinte de dúvida e incerteza.


- Impressionante. - Disse o jovem. - A sua análise deduziu corretamente! 


Foi então que o famoso pesquisador olhou em volta num breve instante de contemplação e anunciou o inesperado. 


- Meus caros convidados, eu sinto muito, mas nós agora faremos um pequeno intervalo... Por favor fiquem tranquilos, pois o dia ainda não está encerrado. Tudo o que lhes foi prometido ainda será atendido! - As vozes inquietas dos repórteres associada ao murmúrio das suposições incertas dos demais pesquisadores inundaram o salão enquanto três ou quatro seguranças de Tithonus conduziam as pessoas para as portas do auditório. Todos menos a figura inquietante de André. 


Foi somente quando o ambiente então ficou vazio e em silêncio, e lá havia apenas a presença dos dois homens, que um deles lançou a palavra ao outro novamente. 


- Há quanto tempo, André... 


- Quinze anos, mais ou menos. - Disse o jovem. 


- Você está desapontado. - O pesquisador falou, buscando confirmação. 


- Não. - Ele lhe disse calmamente, aproximando-se um pouco do pequeno palco no qual Tithonus ainda encontrava-se. - Eu entendo o que houve e o que está acontecendo... E talvez entenda melhor do que você, se é que isso pode ser possível. 


- Bom... - Tithonus disse caminhando lentamente pelos degraus do palco até aproximar-se de André. - Se tem alguém no mundo que pode saber mais de alguma coisa do que eu, essa pessoa só pode ser meu neto preferido, né? - André permitiu que o semblante de um sorriso quase se desenhasse pela sua feição séria, e retribuiu o abraço do avô. 


- Eu senti tua falta, vô... - Ele o disse. - Senti falta do teu abraço e das nossas conversas pelas madrugadas. Das lições de casa que só o senhor sabia explicar e das notas baixas que a gente escondia pra revisar em segredo. Quando o senhor foi embora, eu fui o que mais sentiu saudades, vô... Era eu quem insistia que o senhor ia voltar. Era eu quem insistia que o senhor tinha prometido que ia voltar. O senhor ainda lembra, vô? Do André de dez anos que ficou lá atrás? O senhor lembra de mim, ainda? 


- Claro que eu lembro de você, André! - Ele disse, estendendo os braços novamente até o rapaz, e passeando suas mãos robustas pelos ombros dele. - Lembro muito bem das nossas conversas e dos nossos estudos! Das nossas madrugadas observando as estrelas com os binóculos e a musiquinha do aplicativo que ficava tocando enquanto você me perguntava das constelações. Claro que eu lembro! Eu demorei a te reconhecer, eu sei, mas por conta do tempo... Olha o teu tamanhão! Já é um homem! Já tem o quê, vinte e cinco? Vinte e seis? 


- Vinte e... Vinte e seis. 


- Vinte e seis? Não é mais no dia 29 de Agosto, o teu aniversário? 


- É sim. - Disse André, sustentando a seriedade no olhar e na feição do rosto. 


- Então é vinte e cinco! - Bradou Tithonus, como quem buscasse alegrar o neto. - Não é?!


- É sim. 


- Se não está desapontado, André... - O pesquisador o perguntou enfim, enquanto os dois sentaram-se sobre o confortável tecido esponjoso das cadeiras do auditório.  - O que é que há, então? O que é que está havendo? 


- O que acontece é que sinto falta dele. - Foi então que André puxou do bolso um aparelho contendo na tela uma foto dele ainda pequeno abraçado com o avô. - Foi papai quem tirou essa foto nossa, e acho que é nossa última juntos. O senhor lembra do dia exato, eu suponho. Deve lembrar até das minhas falas, e das tuas, e das de papai também. 


- Lembro mesmo! Tá tudo aqui, olha só... - Ele falou orgulhoso levando uma mão à cabeça e apontando o dedo até a testa. - Eu lembro de tudo, André! Mas se o problema é saudade, então venha ficar aqui no complexo uns tempos! Você será muito mais que bem-vindo! Fique aqui o tempo que precisar... Participe das pesquisas! Que me diz? O que não falta aqui é espaço! 


- É como eu disse... - André o disse, dessa vez um tanto menos sério, dando espaço a um requinte de compreensão. - Entendo o que se passa melhor que você... Sinto falta do meu avô... O Dr. Tithonus que me conheceu e me amou de verdade. Eu tô falando do meu avô... Um homem que você conhece muito bem, eu admito... Mas que já não está mais aqui. 


- Como assim, André? Que história é essa? - Construiu-se então pelo semblante dele uma preocupação genuína que há muito ele não acessava. 


- Me diz uma coisa, doutor, e me diz com sinceridade... - André o questionou olhando fundo nos olhos do pesquisador. - Quando foi que decidiu trocar as veias cheias de sangue e vida por esses intermináveis circuitos de cobre e silicone? Você lembra do momento exato, não lembra? Do dia em que soube que era isso que queria. Você é capaz de lembrar até dos comerciais que passavam no rádio quando teve essa ideia, não é? 


- Sim... - Ele o disse friamente. - Sim, eu lembro de tudo. 


- Você não entendeu ainda, né? - André o disse quase permitindo que a sua tristeza sorrisse. - Você quis... Você desejou isso. Visualizou esse patamar no qual a tua mente resistiria ao teste do tempo... E conseguiu, não foi? Com o desenvolvimento de um dos únicos órgãos artificiais que te faltavam, você de fato alcançou o ponto de não precisar mais se preocupar com o fim... O teu novo cérebro, completamente conectado à rede neural, está constantemente passando pelo processo de backup... Mas não só os momentos que constrói agora, como também todos aqueles que já viveu nos teus séculos de vida prolongados pelos órgãos sintéticos... É uma maravilha da bio-engenharia... Você acabou se tornando uma criatura que perdura muito além dos anos que já te foram dados pela natureza... Você se tornou um ícone... Uma lenda no mundo inteiro... Quantas doenças você erradicou com a substituição dos órgãos defeituosos? Nem eu sei... Mas você sabe, não sabe? Você sabe o número exato, pois essa conquista é nada mais que só mais um dado no teu banco de memória... Assim como... - A sua voz então quis falhar, mas ele se recompôs brevemente. - Assim como eu. Nada mais que um dado. Um rosto a ser atribuído a um nome. André Tithonus... Quarto neto. 


- André... - O pesquisador o analisou de cima a baixo, como quem buscasse algo a mais. - Que ideia é essa? Eu ainda sou o teu avô. Você não é um mero dado... O meu cérebro ainda é meu... Vai além de um banco de memória. Eu ainda... Estou aqui. 


- Não, vô... - Ele disse derramando uma lágrima sorrateira. - Eu vim pra te mostrar o que o senhor ainda não entendeu... Mas quem sabe possa compreender se vier de alguém que te conta isso com um coração pesado. O senhor já se foi... O que ficou foi a sua genialidade... O senhor olha pra mim e pensa que me conhece, mas é só o teu centro de dados trocando gigabytes de informação pela rede neural que o senhor montou quando ainda era vivo. Aos poucos, o senhor foi se aprimorando... Primeiro um coração... Depois os pulmões... Alguns ossos... Córneas... Até que em determinado momento, quase não havia mais partes originais que faziam do senhor... O senhor! 


- Essa ideia é uma questão filosófica, André...! - Ele o disse tocando-lhe o ombro. - Eu não sou um navio cujas partes foram substituídas até que a embarcação original se desfez com o tempo até se transformar noutra coisa! Eu sou uma pessoa, André... Eu sou eu! EU tô aqui dentro ainda! Eu vivo, e respiro e penso... A minha transformação é tão orgânica quanto a da águia que troca de bico no alto da montanha a fim de viver mais quarenta anos! Entenda... O seu ponto não é válido, meu filho. Eu estou aqui... Por dentro de cada circuito e cada vaso de silicone está ainda a minha essência!


- Eu acredito que acredite nisso, vô. - Ele o disse segurando a sua mão na dele. - Por favor... Só pense comigo, e seja sincero consigo mesmo. O senhor teve três filhos e duas filhas, e os criou com muito amor e carinho, e por isso os conhece e lembra deles. Eu tenho certeza de que o senhor lembra do carinho que sentia, mas será que isto não é uma mera recordação? Feito a criança que pensa lembrar do primeiro passeio da escola, quando de fato está lembrando de ver as fotos desse passeio fixadas à geladeira... Ela lembra-se apenas da memória... 


- Uma memória de uma lembrança... - Tithonus sussurrou para si. 


- O senhor lembra deles... Mas qual foi a última vez que sentiu saudades? Ou que sentiu o seu estômago embrulhar diante de um problema pessoal aparentemente sem solução? Diga-me, vô, qual foi a última vez que sentiu a sua respiração pesar por conta de uma crise de ansiedade? Ou o coração palpitar seja de alegria ou preocupação? Ou que ficou nervoso por se encontrar com uma linda mulher pela primeira vez? O fato é, vô, que a sua transformação foi muito mais além do orquestrado... O senhor já ultrapassou todos os limites daquilo que qualquer um de nós podemos chamar de 'completo'... O senhor, na verdade, quer queira ou não, caminha além da fronteira do irreversível... O homem a quem um dia chamaram de Dr. Tirhonus, e a quem um dia me amou como avô e foi amado pelo neto, já não está mais sequer aqui. O que resta é um casco da mais alta classe tecnológica e intelectual... Um disco contento todo o seu conhecimento, inteligência e maneirismos... Mas nada da sua real e verdadeira essência. O que houve com meu avô foi uma transformação que somente pode ser denominada como irreversível, pois apesar de o senhor ser talvez o mais inteligente dos seres do planeta, e o mais pleno perito ou especialista pesquisador desta fascinante monstruosidade bio-engenhada que se tornou, sei também que o senhor entende o bastante do mundo para compreender que não é possível trazer, de volta à vida, os mortos! 


Então houve o que poderia muito bem ser o mais longo momento de silêncio da vida inteira de Tithonus. Ele sabia que sim, pois uma rápida análise de suas memórias confirmaram a questão. E ele se viu ponderando quanto aos sentimentos que André o havia cobrado... Há quanto tempo de fato não sentia saudades? Ou encontrava-se nervoso? Ou pelo menos ansioso? Receoso? Onde haviam ido parar os impulsos químicos da paixão e do amor, e como ele poderia diferenciar tais ausências de mera indiferença? Poderia mesmo ser verdade...? Seria ele.... Um mero compilado dos atributos e memórias do ser que um dia fora chamado de Dr. Tithonus? 


- Como saber, André? - Ele o questionou, enquanto o semblante de realização tomava conta da sua face. 


- Esta pergunta em si não é o bastante...? - 

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