A Personagem Desaparecida

Era uma noite sombria e chuvosa quando o autor, cujo nome se perdera nas emaranhadas teias do tempo, se encontrava sentado numa sua velha escrivaninha de madeira sofrida, mergulhado nas lembranças mais profundas que por vezes nem ele mesmo as reconhecia... Era um criador de mundos, um tecelão de histórias que, por décadas, havia dado vida a inúmeras personagens que povoavam as páginas de seus incontáveis livros...


Entretanto, algo o atormentava naquela noite de tempestade. Aconteceu que uma personagem, e não uma qualquer, mas sim a sua mais preciosa criação, havia desaparecido de suas obras completamente. Não tratava-se um sumiço casual, pois todas as personagens que ele já havia desenvolvido antes deixavam um rastro, uma memória viva em suas histórias no formato doce ou amargo de suas pegadas pelas linhas e entrelinhas dos mil contos. Mas essa, cujo nome ele havia selado numa caixa dentro do coração, havia se desvanecido como uma estrela que perde o brilho no céu noturno.


O autor revirava os manuscritos empoeirados, folheando cada página com dedicação e uma pitada de esperança. O coração apertado, lembrava-se dos detalhes de sua personagem perdida: a expressão nos olhos, a personalidade vibrante e os sonhos que ela carregava. Porém, quanto mais folheava, mais claro se tornava que a personagem havia sido apagada de suas histórias, como se nunca tivesse existido... Que espécie de bruxaria poderia ter sido aquela, se não a cruel imaginação de um louco que pensou um dia ter sido feliz ao ponto de ter deixado se apaixonar por uma ficcção?


Desesperado e determinado a encontrar alguma pista sobre o destino da adorável personagem desparecida, o autor passou noites e dias imerso em suas obras passadas. O passado e o presente se misturavam em sua mente já cansada e temerosa enquanto ele a buscava, ignorando o mundo lá fora e os murmúrios que ecoavam sobre seu paradeiro... Murmúrios que ele jurava escutar de forma tão real quanto a própria personagem.


Em suas andanças pelos recantos de sua própria imaginação, ele acabou por se encontrar com outras personagens que havia feito nascer do puro arder imaginativo do qual detinha um orgulho incomensurável... Elas o olhavam com uma mistura de nostalgia e compreensão, como se soubessem o que estava afligindo o coração do criador. Mas, ainda assim, nenhuma delas parecia se recordar da personagem desaparecida... Havia tantos anos que ele sequer por aquelas bandas passeava...


Foi em uma madrugada cinzenta, quando a luz da aurora começava a clarear o horizonte, que o autor se deu conta de algo essencial.... A personagem desaparecida não havia sido apenas esquecida por ele; ela havia sido esquecida por todos os leitores. Era como se uma sombra tivesse varrido a memória coletiva de sua existência, apagando-a de todas as mentes.


O desespero do autor se transformou em uma depressão profunda, porém também numa determinação que, numa espécie de transubstanciação, se fez combustível para trazer a sua amada criação de volta. Ele escreveu e reescreveu, tentando trazer à tona as lembranças enterradas de sua personagem perdida. Suas palavras eram carregadas de emoção, esperança e uma saudade que doía na alma.


No entanto, quanto mais ele escrevia, mais percebia que não seria capaz de devolver a vida àquela que se perdera no vácuo do mais profundo esquecimento que era então a sua mente imaginativa de outrora. A triste verdade se impôs então... Eis que algumas histórias, por mais que sejam criadas com amor e dedicação, estão destinadas a desaparecer sem deixar rastro.


Em seu momento de maior fragilidade, o autor se viu diante de uma escolha difícil. Poderia abandonar a busca e aceitar o vazio deixado por sua personagem perdida, permitindo que ela se desvanecesse de vez, ou poderia continuar a escrever sobre ela, mantendo-a viva dentro de si, mesmo que fosse apenas em suas lembranças. E foi assim então, na clareza daquela manhã, cujos primeiros raios de sol pintavam o céu, que o autor encontrou a resposta. Ele escreveu uma última frase que ecoou em sua mente como um suspiro de resignação e esperança...


Com lágrimas nos olhos, o autor fechou os manuscritos e guardou suas histórias numa enorme caixa de lembranças, onde sabia que, apesar de sua personagem perdida ter desaparecido das páginas e das mentes dos leitores, ela nunca realmente se apagaria dos calor que provocava em seu coração, e seria por tanto eternamente viva em suas memórias, que jamais seriam expostas ou transcritas e, assim, permaneceria viva somente em suas palavras... 


Em um canto remoto de sua imaginação, a personagem desaparecida sorria, sabendo que, mesmo esquecida, havia encontrado um lar na alma do seu autor.... E ali ela permaneceria, lendo e relendo incontáveis vezes, no calor seguro da sua alma criativa e imaginativa, junto das suas incontáveis criações passadas e futuras, a frase que ele lhe dedicou quando pensou tê-la perdido para sempre... 


"Não se vá embora... Fique pra sempre."

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