O Abismo

Será se faz sentido mudar a narrativa assim tão de repente? 

A escalada não foi fácil, e eu sei que deixei muito sangue nas rochas que ficaram pra trás... pra baixo. Mas na realidade, eu nem sequer havia enxergado, ou melhor, percebido! que se tratava também de um abismo. De uma jornada pra cima. Muitas vezes, praticamente até ontem, me parecia uma jornada linear, repleta de altos e baixos. Um mar violento. Uma ilha carinhosa ao longe. 

É um penhasco também. E eu sinto que finalmente toquei a rocha mais alta. Não é que tenha sido fácil. Não foi. Não vem sendo... As palmas das mãos, entre calos e lacerações, já me parecem dormentes, e, conseuetemente, eu me pergunto se o meu carinho ainda causa algum prazer na pele de quem ouso amar. 

Celebrar a vitória antes do tempo me assusta. É uma das minhas pouquíssimas superstições... Porém, não acho que haja mal em visualizar o fim da linha. O objetivo final. Estar, sempre que possível, em perfeita sintonia com o sonho que se esconde na luz branda do fim do túnel... Surpreenda-se com o meu otimismo recém descoberto... Pode ser um espólio da escalada. Um presente do abismo grego que deixo pra trás, talvez?

Enfim, a felicidade de estar aqui é real, e apesar de estar incapaz ou indisposto de espiar o que vem pela frente, eu quero me permitir sentir-me bem. Finalmente. 

Olhar pra trás... Pra baixo? 

Eu não ousaria.

Se já é de conhecimento que nossos abismos nos encaram de volta, eu temo que, num olhar estúpido de bondade ou altruísmo, o meu nao se limite só ao mero ato de encarar, e em sua imensurável escuridão de sede vampiresca, me puxe de volta para si. 

De onde temo que jamais teria forças pra retornar novamente. 

Nem cinzento. Nem branco.

 

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