Uma Parede

Alguém construiu uma parede aqui, tá vendo? Bem aqui, olha só. Entre você e eu... 

Como eu sei que você tá do outro lado? Pois é, eu não tenho como saber de verdade... Mas eu posso apostar que sim, e por tanto o faço. Quando o assunto é você, eu penso que talvez nem seja tão sábio apostar tão alto. Mas quem disse que eu ligo, afinal? 

Não é uma parede qualquer, caso você não consiga ver. É o que qualquer um espera de uma parede, eu acho. Tapa a visão... Prende a luz... Não me deixa chegar perto de ti do jeito que eu quero, e te impede de vir até mim sempre que você quer. Pois bem, não que estejamos impedidos de estar um com o outro... Não é por aí, é? Já saltamos fossos medievais pra estarmos perdidos no abraço um do outro. Quebramos contratos tão reais quanto as mentiras que contamos pra si mesmos no começo. 

Não é a parede que parece que surgiu do nada que me assombra. Não é isso. 

Não é a altura que parece aumentar a cada dia... Não é isso também. 

O que me assombra é que, apesar de eu ter marretas, martelos, e até as próprias mãos para abrir buracos que me permitam apreciar o mero som da tua voz nervosa e trêmula ao longe, quem quer que tenha erguido esta maldita parede, parece fazer questão de não nos presentear com uma simples porta. 

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