À Luz de Velas

O quão incrível foi a noite chuvosa de ontem, na qual eu pude, pela primeira vez, ver a cor e o brilho selvagem dos teus olhos alimentados pelas chamas delicadas das velas?

Em quantos sentidos será que eu fui a tua prioridade no decorrer de um dia interminavel, que insistia em se arrastar cruelmente pelas noções do tempo?

- Em pelo menos dois, meu amor. - Eu ouço a tua resposta no eco da tua voz castigada pela rouquidão do ofício.

Dois? Eu pergunto, mas já sei a resposta. É só por vontade e egoísmo de querer ouvir novamente, e não pela última vez. Dois como?

- Num deles, eu optei, em meio a diversos outros convites distintos, por estar contigo, à luz das velas improvisadas, num colchão qualquer arremessado ao chão, deixando e desejando tuas mãos pelo meu corpo... 

Me lembro bem. Não será uma noite facilmente esquecida. 

Mas... E o outro? Esse primeiro, se não fosse uma lembrança deliciosa, quase poderia ser uma alfinetada. Quase merecida. Quase requisitada.

- No outro, eu optei por estar contigo... Mas de um jeito novo. - Ela enfatizou conforme eu a imaginava movendo sutilmente as sobrancelhas, como faz quando tenta, e consegue, me seduzir. - Inexplorado até então! 

Inexplorado como...? 

Repete pra mim. Só mais essa vez. 

- De um jeito que as minhas provocações de "sou tua" aos teus suplícios de "te quero" sejam, enfim, a mais absoluta verdade.

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