Sem Espaço

O apartamento sempre havia sido pequeno. Bastante pequeno. Demasiadamente pequeno. 

Mas naquela tarde... A percepção mudou. 

Ela percebeu, enquanto aguardava a sanduicheira assar alguns sanduíches de frango desfiado, o quanto, na realidade, o espaço apertado e claustrofóbico do imóvel era, no final das contas, perfeitamente adequado pra todo aquele amor que emanava daquela relação entre ela e ele.

A janela na sala, por exemplo, permitia que a luz do dia iluminasse o ambiente inteiro. Desde as paredes creme da sala e da cozinha, até as marcas do rosto dele...

A porta do quarto, de frente pra sala e ao lado da porta de entrada, facilitava a entrada apressada daqueles que sentiam saudade excessiva da cama, desde as motivações devassas às mais sonolentas... 

Da cozinha, pequena e separada da sala por um balcão americano discreto, não era muito chegada à ideia de mais de um visitante por vez... Por isso ela costumava se inclinar sobre o balcão para observá-lo enquanto ele preparava as tapiocas com queijo coalho assado, pra merenda do fim da tarde.

Era pequeno demais, de fato... E ela sorriu quando percebeu o tamanho da falta de espaço. 

Em pouquíssimos passos, ela foi até ele no sofá de dois cantos, e sentou-se coladinha dele, se engraçando quando ele se contorceu pra encaixá-la aquele abraço gostoso, e com a mão livre deu o 'play' no último filme da trilogia. 

De fato, era demasiadamente pequeno, o ambiente. A sala. A cozinha. Até a cama... E ela sorriu quando acolheu a ideia. Era um cantinho pequeno, sim... 

Sem espaço pra correr. 

Sem espaço pra esconder. 

Sem espaço pra saudade. 
 

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