A Ninfa do Mar Insólito

 - Acorde, acorde, - Ela sussurrou em seu ouvido enquanto alisava delicadamente o seu rosto e a sua barba áspera, procurando em todo o seu semblante de paz, algum motivo que justificasse as condições nas quais ele foi capturado, quase dois dias atrás, pelas bravas acólitas. 

A luz do sol, sorrateira e discreta, encontrou uma brecha pela qual decidiu se convidar para dentro do quarto, que se iluminou brandamente enquanto o distante som das ondas do mar velava o sono do prisioneiro.

- Vamos, homem... - Ela disse, quase impaciente. - Se não despertar logo, te jogo no meu zoológico de espécies!

- Quem...? - Ele desertou, enfim, abrindo os olhos lentamente, se adaptando ao ambiente. Seus olhos encontraram os dela, e por um breve momento, a felicidade quase lhe tomou conta da face... Quase. - O que é isso? Que lugar é esse?!

- Olá, estranho... Eu sou Anya! - Ela disse, melhorando sua postura e, permitindo que seu vestido fino e translúcido se tornasse mais revelador que o necessário, sentando-se na vasta cama de tecidos e mantas na qual eles se encontravam. - Minhas meninas te encontraram à deriva pelo nosso mar enquanto buscavam criaturas raras para o meu zoológico, mas quando viram que era um homem, foram gentis o suficiente de resgatá-lo para que possa ser julgado. 

- Suas meninas? Seu mar? - Ele esfregou os olhos enquanto buscava compreender o que estava acontecendo. - Ser julgado? Que loucura é essa? Eu morri...?

- Não! - Ela respondeu, sorrindo maliciosamente. - Ainda não! Você precisa prestar atenção! Ainda será julgado! 

- Julgado pelo quê? - Ele indagou, levantando-se da cama, e deixando seus olhos confusos buscarem ao redor do cômodo estranho por pistas que lhe dessem algum indício de o que estaria de fato acontecendo.

- Pelo seu desempenho, é claro! - Ela disse, se atirando sobre lençóis e trapos que compunham a cama. - Eu sou Anya, a rainha das ninfas do Mar Insólito... Você é o meu mais recente convidado, senhor...?

- O Mar Insólito? - Ele a questionou, sentindo suas forças se esvaírem completamente. Seu sorriso vazio demonstrava exatamente o quanto ele conhecia das lendas e mistérios que envolviam aquela região, e principalmente os mitos que cercavam as figuras das ninfas responsáveis pelos incontáveis marinheiros que nunca retornaram. - Eu sinto muito por ter invadido seu território. Não foi a minha intenção... 

- Eu acredito em você. - Ela disse se virando de bruços na cama, se posicionando de frente para ele, segurando o rosto com as mãos delicadas. - Quem é você? Qual o seu nome?

- Vai me deixar partir? - Ele indagou. 

- Não sem antes julgá-lo! Preste atenção! Não dar atenção a o que eu falo é um defeito seu, ou uma das suas várias falhas? - A sua agressividade inerente, superada apenas pela sua beleza provocativa, soava, para ele, de forma além de perturbadora. - Qual seu nome?

- Darian... - Ele a respondeu, sem deixar-se abater pela raiva. 

- Finalmente! - Ela comemorou sarcasticamente. - Bem, Darian... Imagino que precise comer algo? Reunir suas forças? 

- Seria interessante. - Ele respondeu, sentindo-se um tanto coagido, porém sem alimentar muito esta sensação. - Pode ser que seja minha última refeição, sim?

- Eu garanto que não, Darian. - Ela disse sorrindo sedutoramente. 

Anya bateu palmas três vezes, e as portas do cômodo, quase como que duas conchas enormes, se abriram, e duas outras ninfas de aparência mais jovial, tão belas quanto a própria rainha à qual serviam, entraram com um belíssimo desjejum... Frutas... Sucos... Dentre outros alimentos estranhos e variados. 

- Coma o que quiser. Sinta-se em casa. - Anya lhe disse alguns momentos depois. 

- Muito obrigado pela hospitalidade, mas já estou satisfeito... - Ele sentia alguma espécie de armadilha no ar. Algo que rodeava o cômodo como uma presença maligna, ou uma intenção de maldade. - Só precisava recuperar um pouco as forças. Acontece que não consigo comer muito quando fico ansioso. 

- Não há o menor motivo para ansiedade, Darian. 

- Eu discordo. 

- Pois bem, - ela disse, levantando-se do chão, e voltando para a cama, percebendo os olhares que ele lançava esporadicamente para o seu corpo e suas feições. - O seu julgamento não será diferente dos demais que o precederam. Não se trata de nenhuma prova, nem muito menos questionamentos que não têm como serem atestados ou provados. A sua tarefa é até bastante simples... 

- Prossiga... - ele disse, impaciente. 

- Você precisa me surpreender. - Ela então se deitou novamente sobre os trapos, mantos e lençóis. 

- Eu... Acho que não entendi. 

- Você, Darian, precisa me surpreender... Nesta cama. Me mostrar que eu ainda não vi nem senti tudo o que há para ser visto e sentido, no que diz respeito aos prazeres carnais deste mundo... Me surpreenda, e poderá seguir seu caminho, pra onde quer que isso seja... 

- Não posso, - Darian respondeu cabisbaixo, deixando escapar um sorriso triste de quem já havia tanto compreendido e aceitado o seu destino. 

- Não pode...? Não consegue? Não... Me acha atraente? Tem outras preferências? - Ayna o questionou.

- Não me entenda mal. você é estupidamente linda, não há dúvidas. - Ele respondeu erguendo a cabeça. - Mas no meu estado atual, eu não seria capaz de te satisfazer como merece... Quem dirá te surpreender. Seria inteiramente em vão. Eu sinto muito. Mesmo. 

- Não entendi, Darian. - Ela levantou-se e foi até ele. - Como assim, no seu estado atual? Está... ferido? - Ela o inspecionou com os olhos, dos pés à cabeça.

- Estou... Por dentro, Ayna. Por dentro. - Ele revelou, olhando para ela e revelando enfim o sorriso que trazia consigo a tristeza quase infantil de um homem adulto.

- Me conte. - Ela o tomou pelas mãos, e os dois sentaram juntos nos trapos. - Isso tem relevância sobre o estado no qual te encontramos, sozinho, fraco e esquecido numa jangada improvisada?

- Tem sim... - Ele prosseguiu com a sua breve história. - Acontece que regido pelo terrível e assombroso pensamento de um fim que eu nunca desejei que me encontrasse, eu me lancei às cegas pelo oceano inóspito em busca de alívio. Eu tinha encontrado o paraíso... Uma pequena ilha escondida entre os mares, esconderijo de uma... - sua voz então lhe falhou, e ele precisou de um momento. 

- De uma...?

- Uma linda e encantadora sereia, que em algumas poucas semanas de puro desejo e alegria me mostrou algo que passei uma vida inteira sem conhecer. - Ele prosseguiu. 

- Darian... Está apaixonado? E por uma sereia, quem diria? - Ayna questionou com brilho e curiosidade nos olhos. - Isso é real, essa história? 

- Eu nem sei mais... 

- O que houve? - Ela perguntou. - Por que abandonou o tal paraíso, afinal?

- Ela disse que outros viriam, e que me matariam... E então partiu, para que eu também pudesse fazer o mesmo. - Ele se mostrou entristecido, porém inabalado. Até onde seria uma espécie de disfarce, Ayna pensava que saberia, mas não poderia ter certeza. 

- Ela o deixou viver? - A ninfa suspirou, aparentemente surpresa. - Pelos mares... Ela também está apaixonada. E por um náufrago, quem diria! 

- Apaixonada ou não... Como tudo que acontece ou ainda está pra acontecer neste mundo, já se acabou, e agora só me resta as lembranças do seu toque gentil, e o som da sua voz meiga e sedutora. Me deixei ficar a deriva pra morrer, e quem sabe escapar destas memórias. 

- Agora tudo faz sentido, Darian. Tudo. - Ela disse passando as mãos pela sua barba. 

- Como eu disse... Por mais tentador que seja, eu estou totalmente incapacitado de realizar o tal do seu julgamento. Eu sinto muito, Ayna... mas todo o meu pensamento, a todo instante, está preso à ela. 

- Você, meu caro Darian, - Ela disse o abraçando como uma cobra. - está completamente fodido. 

- Eu sei... - Ele respondeu. - Se eu puder lhe pedir algo... Apresse a execução, sim? 

- Execução? - Ela pareceu genuinamente confusa. - Meu amor, fazia séculos que eu não era tão surpreendida por um homem! - Ela se ergueu sorrindo majestosamente. - Primeiro você me nega completamente... a mim! A ninfa rainha das ninfas do Mar Insólito! Depois me conta como está apaixonado! Você! Um homem! E por fim, me deliciou com a história de como uma sereia, uma das criaturas mais imprestáveis deste mundo, lhe retribuiu a paixão! Darian, meu bem, você não será executado, mas sim condecorado! 

- Condecorado? - Ele quase parecia desapontado. - Como sabe que não inventei tudo?

- Séculos ouvindo todas as mentiras imagináveis e inimagináveis dos homens, meu bem. Séculos! Acredite em mim, a sua história é única... E ficará ainda mais! - Ela disse batendo palmas algumas vezes enquanto várias outras serviçais, similares às duas primeiras, entraram e delicadamente se puseram a despir o homem confuso. 

- O que está acontecendo? - ele perguntou, não muito relutante às mãos que o despiam. 

- Uma sereia apaixonada, Darian, não é algo do qual se ouve falar! Chega a ser mais rara que um homem sob o mesmo efeito, eu ouso dizer! Levem ele daqui, meninas! Pendurem ele na jaula de fora! Ele servirá como isca! - Ela esbanjou, no rosto, um sorriso tão maléfico quanto o próprio plano.

- O que está havendo aqui, Ayna?! - Ele levantou a voz enquanto as ninfas o arrastaram com força incomum. - Explique-se! 

- Ah, Darian, Darian... - Ela o explicou, pouco antes das demais ninfas o arrastarem para fora. - Se uma mulher apaixonada é capaz de qualquer asneira pelo seu objeto de desejo ... Imagine, então, o tipo de estupidez que não faria uma sereia pelo seu náufrago! - As portas no formato de conchas gigantes se fecharam por trás do prisioneiro, e ele ouviu apenas um eco de Ayna celebrando, em gargalhadas, a próxima adição ao seu infame zoológico.


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