O César
- Esses aviões de hoje são tão pequenos que são quase um ônibus, né? - Olha... tudo o que eu mais queria era poder descansar durante a viagem. O voo não seria longo, durando um pouquinho mais de uma hora. O dia em si já tinha sido desafiador, e eu não tava muito interessado em ter que fingir interesse no papo de ninguém. Então... Quando ela tentou puxar assunto comigo, eu retribuí com o meu melhor olhar de desinteresse absoluto. Ela... Continuou falando.
- A gente paga tão caro. Eu digo assim, - Ela falou movendo os mãos no ar, procurando uma forma melhor de explicar algo pela qual eu de nenhuma forma havia requisitado. - Porque não é barato, uma passagem dessas... O César é quem diz que a gente precisa viajar mais pra poder conhecer o mundo, sendo que as minhas sobrinhas sempre sabem dos melhores dias pra comprar as passagens, e acaba que sempre que ele pergunta pra elas sobre preço e essas coisas, a gente acaba nunca comprando porque é sim um valor alto.
- Quê...? - Eu me irritei, e acabei questionando toda aquela baboseira que ela parecia desenvolver com tamanha proeza e maestria. Eu não me considero lá uma pessoa digna de uma inteligência absurda, mas penso que pra falar tanto lixo de forma tão espontânea num intervalo de tempo tão curto, eu precisaria no mínimo escrever tudo antes, e decorar.
- O preço! - Ela não soube interpretar a insatisfação no meu semblante, e por tanto, prosseguiu com a tortura. - O que eu tô falando é que as poltronas, que aliás não são poltronas né? Tá mais pra cadeira mesmo! São muito pequenas. O conforto não existe mais. A mãe do César, na época que a gente namorava, era quem dizia que tudo só piora com o tempo. Mas como a gente só queria saber mesmo era de namoro e coisa que não presta... Ninguém nem dava atenção.
... Como ela conseguia? De onde tirava as forças? E será que ainda dava tempo de correr até a porta da aeronave e voltar ao salão de embarque? De repente fingir um derrame? Ou melhor, sofrer um?
- Enfim, só tô falando que é um absurdo né? Eu acho uma falta de consideração. De respeito. Imagina se a gente fosse um casal aqui! Pelo menos nem precisava tentar ficar se pegando! - Ela disse sorrindo de forma grotesca, e já puxando ar para o que provavelmente seria mais alguma fala absurda e interminável. - Eu tô é com saudade do bichinho... Deve tá louco sentindo minha falta. Se duvidar já preparou até alguma surpresa, do jeito que o César é...
Foi nesse momento que algo em mim se partiu. Eu não sei dizer ao certo o que foi... Minha paciência... Minha sanidade... Ou talvez o último resquício de gentileza que ainda me restava na alma desprivada de luz. Algo saiu do canto pra nunca mais voltar. E eu, numa expressão à qual acredito ser bastante próxima a de uma possessão demoníaca, pouco antes de ser escoltado para fora do avião, soltei como quem cuspisse ácido...
- De que caralho é que você tá falando?! E quem é esse filho da puta desse César?!
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