De Manhã, Cuscuz com Café

"Chego por aí em dez minutos." Eu nem acreditei quando, quase as 22h, o celular vibrou em cima da mesa e mandou aquele som estranho pela sala inteira. Me assustei, e pensei de pegar o aparelho nas mãos e conferir quem havia falado comigo... Mas existe um receio que talvez você conheça... O de decepcionar-se conferindo uma mensagem que não vem de quem esperávamos. Não seria ela. Não poderia ser. Poderia?

 Era ela! E o melhor... Em dez minutos! 

"Tudo isso? Quero você aqui comigo AGORA!" Eu prontamente respondi, sem medo de parecer que estava a postos esperando uma resposta. 

Acontece que me pareceu que os tais dez minutos duraram toda uma eternidade. Bebi água... Fui ao banheiro... Conferi a rua... Voltei pra dentro... Acendi duas velinhas pequenas ao lado da cama pra deixar o ambiente mais... Sedutor? Mágico? Místico? Não sei! Mas queria que fosse perfeito. 

Um carro parou pertinho da porta, e eu sabia que só poderia ser ela. 

- Meu Deus do Céu... Tu veio! - Eu falei abrindo a porta junto de um sorriso imensurável que decidiu alugar minha face. 

- Não era pra vir? - Ela respondeu debochando da minha cara de bobo impossível de ser disfarçada. 

Puxei ela pela porta, e ela se entregou aos meus braços soltando a mochila no chão, e naquele momento... Nossa... Como explicar? O que aconteceu foi que houve um encaixe diferente de todos os outros. Uma sensação nova que me foge as palavras não por falta de habilidade com a prosa, mas por falta de conhecimento e vivência com tanta alegria e euforia... Foi como se naquele instante, naquele abraço, tudo fizesse sentido, como nunca antes houvesse feito. 

- Obrigado por ter vindo. - Eu falei olhando pra ela ainda na porta. 

- Obrigado pelo convite. Fiquei surpresa. Admito. - Ela me falou sorridente, me envolvendo no seu charme sedutor.

- Eu quis que fosse assim. - Eu respondi trazendo ela mais pra dentro, pegando a mochila dela do chão, e fechando a porta. - Adoro te pegar de surpresa, porque assim você não enjoa de mim. 

A casa estava impecavelmente arrumada, limpa, e cheirosa. Nenhuma louça suja... Na sala, com os livros cuidadosamente planejados em suas devidas estantes acopladas às paredes, havia a mesa do computador, que encarava a parede dos posteres de alguns dos melhores filmes já feitos na História. 

Pude ver ela explorando cada cantinho daquela salinha pequena, porém acolhedora. Passamos alguns breves momentos falando sobre os livros que ali havia, e não demorou muito pra que fossemos parar no quarto... 

- Eu sinceramente não consigo acreditar que você tá aqui. - Falei porque precisei falar... Apesar de me ater ao costume de falar pouco, meramente a cumprir o intuito de incomodar pouco, com ela ali, eu me sentia inteiramente livre... E abracei esse sentimento como um garoto que aprende que na casa da vó, tudo não é somente permitido, como também apreciado... Esse é o tipo de alegria que ela me traz... Que ela me trouxe naquela noite. 

Eu não lembro exatamente quanto tempo ficamos perdidos nos milhares de assuntos e conversas que nunca fomos capazes de prolongar, ou sequer terminar, no decorrer de semanas e meses trabalhando juntos... 

Não sei ao certo que horas decidimos colocar um filme no laptop, e deixar o enredo se desenvolvendo enquanto nos beijávamos devagarzinho na cama, trocando carícias e gemidos íntimos que nos faziam esquecer o mundo lá fora tão facilmente. 

Começamos algo no quarto... Depois na pequena varanda das plantinhas, tentando ver se conseguíamos ver alguma estrela por entre as folhas da árvore do outro lado do muro... Pra ser sincero, nunca tive tanto desinteresse pelo céu noturno e seus mistérios como naquela noite... O meu olhar era inteiramente dela... 

Da varanda para o quarto... Do quarto para a sala... Tentamos folhear alguns dos livros mais raros da minha coleção, e chegamos a ler algumas poucas frases, enquanto ela praticava seu inglês involuntariamente sedutor, e eu treinava o auto-controle pra não jogá-la na mesa, e fazer dela minha boneca mais uma vez... O que, claro, acabou acontecendo... 

O tempo passou, claro. Mas dessa vez, passou com respeito às nossas vontades. Falei tanto... E ouvi mais ainda. Me encantei novamente enquanto, deitados na cama um por cima do outro, eu passava as mãos pelos seus cabelos negros, e ouso afirmar que sinto que encantei o dobro enquanto pedi que ela me contasse histórias dela que eu ainda não sabia... 

- O que foi? - Ela me perguntou passeando as unhas delicadamente pelo meu braço, percebendo meu olhar enebriado.

- É incrível, isso. Você... Eu... Aqui... É como uma alegria que se partiu em mil pedaços... E a cada momento a gente vai pegando uma parte e vivendo... De um jeito totalmente antagônico à música do Renato, claro. - eu falei sorrindo, sabendo que ela entenderia tanto a referência, quanto a mensagem. 

Ela, então, me retribuiu o sorriso com o abraço que eu costumo sentir falta, às vezes no decorrer do dia, às vezes na calada da noite. E eu me deixei fechar os olhos e descansar com ela nos braços, hipnotizado pelo calor do seu corpo no meu, naquela noite perfeita... 

Antes de sonhar, sorri em silêncio, lembrando das mensagens que mandei horas antes, enquanto a convidava pra vir passar a noite comigo... "Dorme comigo hoje?" eu falei, absurdamente sem o menor planejamento... "É sério?" ela respondeu... E eu, ansioso como o ponteiro dos segundos num relógio, lhe disse enfim, "Vem... Quero dormir contigo hoje, pra de de manhã, fazer cuscuz com café pra gente."











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