Mentiras Delicadas
- Puta que pariu...! - Ele exclamou em êxtase, apertando suas mãos nas dela, enquanto os dois trocavam beijos e abraços marinados no calor um do outro, encharcando os lençóis da cama de desejo e paixão. - Onde tu vinha se escondendo esse tempo todo?
- Eu? - Ela respondeu num gemido delicioso, carregado das mais sórdidas necessidades... - Você que demorou pra me achar. Mas agora tô aqui... - Ela disse, lançando sobre ele aquele olhar... Aquele que certamente era a sua arma mais penosa e certeira.
- Tá sim...
Entre os intermináveis momentos observados pelo relógio de parede do quarto, os dois pareciam não saber exatamente onde começava ou terminava o próximo carinho, a provocação seguinte, o beijo adjacente, ou a iminente transa que se sucederia... Era nisto, um ritmo próprio, envolto num sentimento de saudade mesclado quase que num desespero de estar um no outro, perdidos de propósito entre as horas intermináveis da madrugada.
Toda tempestade, porém, se vê seguida por uma calmaria...
- Vem sexta? A tarde? - Ele disse se virando pra ela, flagrando um sorriso bobo em seus lábios.
- Sexta? - Ela o respondeu indagando.
- Não? - Ele a indagou confirmando.
- Não.
- Tudo bem. - Ele disse, desprivado de qualquer resquício de curiosidade... Ou quase isso.
- Eu tenho uma reunião com o pessoal nesse horário. Tenho que ir. - Ela disse, pintando uma tela que teria sido melhor aproveitada como estava: Vazia.
- Tudo bem. - Ele repetiu, ocultando em vão um sorriso no canto do rosto... Aquele que lhe afetava os olhos, e os deixava cerrados e malinos, do jeito que ela gostava...
- Que foi, hein? - Ela o questionou, quase sorrindo também, sentindo o sarcasmo se formando como uma nuvem.
- Nada...
- Fala!
- Nada!
- Não vai falar, né?
- É assim...
- Diz.
- Tô falando... É que eu gosto tanto de ti... Que até das tuas mentiras delicadas eu gosto... É o tipo de narrativa que eu faria questão de dar pra não arriscar magoar ou deixar um clima estranho.
- Mentira delicada? - Ela estranhou o termo, mas não parecia mais irritada do que curiosa. - Como assim? Onde eu menti?
- Não tô falando que você mentiu... Eu só ri porque pensei aqui pra mim... Às vezes, uma mentirinha pequena e delicada, pode representar muito mais do que isso. Pode ser um modo delicado de não magoar alguém como a verdade provavelmente o faria. Entendeu?
- Mais ou menos, eu acho... - Ela disse enquanto beijava seu ombro repetidas vezes, do jeito que ele gostava.
- Imagina que você tem planos com outra pessoa... Mas se eu souber disso, pode ser que talvez fique chateado ou ofendido, ou sei lá... Com um tiquinho assim de um pouquinho de ciúmes.
- Entendi... E aí?
- E aí, que uma mentirinha delicada ajuda a poupar isso... Coisas simples, que não fazem mal nem bem a ninguém, sabe? Uma reunião esticada... Uma reposição de estoque... Um seminário... Um workshop...
- Já entendi. - Ela disse se levantando na cama, e sentando sobre ele, usando o lençol para cobrir ambos do frio da hora escura. - Mas pode ser que a minha reunião acabe mais cedo que o esperado...
- Ah, seria maravilhoso... - Ele disse, deixando as mãos passearem soltas pelo seu corpo quente.
- Seria, né? - Ela sussurrou em seu ouvido.
- Mas acontece que eu acabei de lembrar, - ele disse beijando e mordendo seus lábios enquanto se contorciam novamente um no outro, se deixando levar pelo calor irradiante de o que quer que fosse aquele romance... - essa sexta a tarde tenho uma aula particular.
Eu também acabei de lembrar que tenho uma aula particular pra dar.
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