Os Planos de Amanhã

- Quais os planos pra amanhã, Danilo? - Ele me perguntou já no final da sessão, quase que numa precisão cirúrgica. Senti um leve aperto no peito, e uma leve palpitação de ansiedade, mas pensei ter disfarçado na respiração.

- Vou almoçar com meus pais. - Eu disse. - Talvez fique por lá o resto da tarde. Faz tempo que eu não vou por lá, sabe?

- Sei... - Ele disse, esticando o ditongo de um jeito irritante. - E de verdade, vai fazer o quê?

- É sério. - Eu reafirmei. - Vou almoçar com eles. Tá aqui a mensagem, olha só. 

- Não precisa mostrar nada. - Ele protestou enquanto eu buscava o celular nos bolsos. - Eu só quero sinceridade, Danilo. Tudo bem que o almoço é real... Mas e o resto da narrativa... Qual é?

- Olha... - Fica a dica de que essa é a parte onde eu geralmente penso no que vou falar em seguida. Pode ser uma mentira. Mas pode ser uma espécie de arranjo das palavras pra que elas soem melhor do que a ideia em si que eu estou sugeringo. - Não é que não tenha uma narrativa tangente ao almoço, mas não significa que seja algo totalmente fora do padrão das nossas conversas. 

- Não entendi nada. - Ele reclamou chacoalhando a cabeça. - Qual é o esquema, Danilo? É com a moça do parque?

- Olha, é o seguinte... - Eu resolvi abrir o jogo... Uma parte dele. - Não tem esquema nenhum. Não marquei nada com ninguém. Eu até quero, mas não marquei nada. Nem sequer avisei que vou sair. Mas quero.

- Danilo.....

- Eu sei, tá? Eu sei. - Eu disse, me exaltando um pouco e me levantando da poltrona. Disfarçando os dentes agitados que me mordiam os lábios por dentro.

- Cara, nem eu nem ninguém pode te impedir de mandar uma mensagem pra ela. Só você pode fazer isso. Só você tem essa capacidade de se permitir esse raciocínio lógico. Agora, o que eu posso fazer é te perguntar mais uma vez... Por que? 

- Não dá pra responder isso sem ser clichê. 

- Danilo, você é a personificação do clichê. Nada mais te salva disso. - Ele retrucou. - Fala aí, vai... Me diz só isso. Por que?

- Porque eu me sinto bem com ela. - Eu respondi rapidamente.

- Ela sabe que você é um dependente? Ela sabe que hoje mesmo, na sua consulta de um ano sóbrio, você usou? Você contou essas coisas pra ela? Ou você esconde como tenta fazer comigo com as suas mentiras delicadas? - Ele deixou de lado a delicadeza por um momento.

- Eu não minto pra ela... - Eu respondi, me sentando novamente. - Na realidade, sempre que estamos juntos, eu gosto de revelar um pouco mais... Em pequenas doses, claro. 

- Danilo... - Ele colocou o pequeno caderno no qual fazia suas anotações (ou desenhos) sobre a mesa ao lado, e em seguida passou as mãos pelos cabelos, como quem tentasse explicar, para uma criança, algo complexo demais. - Uma hora isso tudo vai findar, cara. O livro que você insiste em ler vai se encerrar. E aí vai ter um ponto final. Um último parágrafo. Uma página derradeira... E aí? Me diz com toda a sinceridade, mas falando sério mesmo... O que é que vai acontecer contigo, Danilo? 

- Não sei. - Eu disse sorrindo. - Eu não faço a menor ideia. Mas se depender de mim, doutor... Eu releio o livro inteiro de novo... e de novo... E de novo.

Ele sorriu, e se permitiu relaxar na sua poltrona... Não sei se apoiou minha resposta otimista, ou se desistiu de todo o nosso progresso. 

- Por que você usou de novo? Só pra jogar fora um ano de sobriedade? 

- Eu precisava comemorar esse um ano de alguma forma, né? - Eu brinquei. - O fungado é só alergia ao ar-condicionado da recepção, que aliás você devia mandar limpar. E a agitação é dos três espressos que a lojinha da esquina tá vendendo. 

- Tudo bem... Eu admito quando tô errado. Mas por que três espressos num sábado a noite? Tá com medo de dormir sem escrever...?

- Você me conhece bem demais... - Eu o respondi. - Já tô liberado?

- Claro. Cuidado com a leitura, tá bom? E bom almoço amanhã. Não exagera na sobremesa.

- A leitura, doutor... - Eu disse antes de sair do consultório. - É a própria sobremesa.

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