Beijos de Café

- Sai, sai sai, - A moça da mesa ao lado, acompanhada do namorado, reclamou quando ele tentou beijá-la após degustar de alguns poucos goles de café. - Nem vem com esse bafo horrível de café. Não suporto! 

A incoerência era além de insuportável, chegando a ser quase tangível, pensou a adorável moça da mesa vizinha. Em qual mundo uma pessoa concordaria de ir numa livraria-cafeteria como aquela, onde o tão singular e acolhedor cheiro do café pairava pelo ar, enebriando os fregueses com os seus feitiços, só pra ao final do encontro negar, em pleno abuso e repulsa, um beijo recheado pela própria essência daquilo que os cercava? Era tal qual recusar um beijo gelado de alguém a quem você mesmo oferecera um pouco do seu sorvete. 

O rapaz, num sorriso ensaiado de quem talvez já escutara a reclamação incontáveis vezes antes, recuou desapontando e trouxe consigo o braço com o qual abraçava a moça, quase como quem removesse a coroa de um monarca destronado. Passeou os olhos pela mesa, e acabou encontrando a pequena xícara, simpática e inofensiva, ainda com algum conteúdo dentro. Sorriu e suspirou. 

- Vai tomar mais mesmo?! - Ao vê-lo tomar a xícara nas mãos, a moça o questionou, como quem cobrasse alguma atitude mais sensata... para com os interesses dela, é evidente. 

O sorriso ensaiado desvaneceu, e em seu lugar, um outro, mais sarcástico e quase perverso, acompanhado de um olhar cerrado com uma porção de deboche, se formou... E, adivinhe só, cativou a atenção da moça da mesa vizinha, já infinitamente mais atenta ao pequeno drama ao lado do que na impecável narrativa de Saramago em suas mãos. 

Passados alguns instantes, o casal finalmente desocupou a mesa, e, se distanciando da área da cafeteria, ela e ele seguiram caminhos distintos por entre os diversos corredores de estantes de livros à venda. 

Fica inteiramente a seu critério se foi coincidência ou premeditação, essa próxima parte. 

O que ocorreu foi que enquanto o rapaz se ocupava, procurando por um título que ainda não sabia qual era, a moça da mesa vizinha, cativada pelo seu sorriso e intrigada pelo beijo negado, se deixou esbarrar em seu ombro...

- Opa, mil perdões. - Ele disse, sem ter ao menos uma grama de culpa pelo acidente incidental. 

- Não, imagina... - Eles trocaram olhares enquanto ela fingia que não o conhecia de momentos atrás. - Mas, ei... - Ela disse tocando seu braço, enquanto ajeitava a sandália desnecessariamente a ganhar tempo para o seu charme. -  Eu nunca experimentei um beijo de café.

A ousadia, ela pensou! O ultraje! Era insistir no absurdo achar que ele iria--

Ele a tomou pra perto de si, com uma mão gentil e seu rosto, outra em volta de sua cintura, e tocou seus lábios com os dela num instante tão breve e memorável quanto somente um delicioso primeiro beijo pode ser... O primeiro de muitos. 













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