Eu Pensei...

- Calma... - Ele disse cautelosamente, de braços abertos, tentando se aproximar dela sem que aparentasse fazê-lo. 

- Calma? - Ela o questionou com um isqueiro numa mão, enquanto o cheiro de querosene tomava o cômodo para si. - Mas eu tô super calma. Quem parece meio inquieto aqui... é você.

- Você jogou... querosene nas minhas coisas? - Ele a indagou sentindo o cheiro hostil, e vasculhando seu escritório enquanto procurava os resquícios da substância, porém sem sucesso.

- Não, né? Eu não sou nenhuma louca. - Ela o respondeu, se inclinando na poltrona na qual estava sentada. - Eu despejei um copo em cima do seu computador... 

- Quê...? - Ele a questionou surpreso, virando o rosto para o objeto de trabalho. 

- Por acaso eu sei que é onde você guarda os arquivos dos contos. - Ela disse se permitindo um semblante de presunção. - Dos meus contos. Os que você fez pra mim... Né?

- Eu tenho cópias online também... Não adianta incendiar o computador. 

- Mentira. Você me contou, lembra? Que tem pavor a expor os contos na internet... Porque alguém podia roubar alguma ideia. Não lembra, né? Mas eu lembro. - As suas palavras frias contracenavam a cena de terror com o som do isqueiro sendo ligado algumas vezes, soltando a típica faísca inofensiva de sempre. 

- Eu... - Ele disse, como quem buscasse palavras. - Eu não tô entendendo. Por que isso? 

- Eu atendi a ligação da editora. Você vai publicar os meus contos, e nem sequer tinha me falado? 

- Era pra ser uma surpresa! Pra você! - Ele se exaltou, apontando pra ela enquanto deu alguns passos em sua direção. 

- Ah! Mas foi! - Ela se levantou, e acendeu o isqueiro, dessa vez sem permitir que apagasse. - Foi uma baita surpresa mesmo! É interessante demais ver que você não tinha nem ao menos cogitado a possibilidade de que eu fosse me sentir assim... E isso que eu preciso fazer, isso é culpa sua! Inteiramente sua! Me acostumou mal com esses contos! Meus contos! Me disse várias vezes que eram pra mim!

- Porque são! São pra você! - Ele a interrompeu, como quem suplicasse. 

- Tem certeza? - Ela o indagou, quase carinhosamente. 

- Sempre foram. Cada um deles. - Ele a respondeu, fabricando a mais genuína sinceridade que ele já havia depositado numa frase. 

- Essas coisas que você fala na impulsividade... Na hora parecem ser tão plausíveis... - Ela o revelou - Mas olhando em retrospecto, não sei como, mas eu acreditava... O problema foi só esse. Acreditei. - Ela suspirou como quem soltasse um peso dos ombros, deixando o isqueiro cair sobre o computador, que em uma fração de um momento foi tomado pelo fogo. - Pensei que era só pra mim, e não que teria de dividir com o resto do mundo. 







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