O Meu Poço de Virtudes
As carícias entre uma xícara de café e outra eram discretas, porém tão verdadeiras quanto os sentimentos que os dois mantinham reprimidos superficialmente, na mais fina camada de pele, quase como uma tatuagem escondida que se revela em pequenos relances vez ou outra pela manga da camisa.
A mesa no canto da parede, perto da janela que exibia o jardim da padaria, um tantinho isolada das demais, já era íntima dos segredos compartilhados em sussurros amorosos e apaixonados de um domingo de manhã... Mais um, isto é, de um casal que não deveria, pelo menos em teoria, sequer existir.
- Por que é tão bom estar contigo? - Ela disse enquanto procurava arrumar os cabelos com uma mão, e degustava de um pedaço de bolo. - É de uma delícia que só perde pra esse bolo.
- Ah, perde pro bolo, é? - Ele a questinou beliscando seu braço num carinho tão sutil quanto o aceno das rosas do jardim para o vento.
- Só pro bolo. - Ela sorriu. - Eu gosto disso. Da gente. É fácil ficar contigo... Se entregar... É leve. Eu sinto que não preciso ser o poço de virtudes que todo mundo sempre espera ser... Não contigo.
- Cada um interpreta o que é uma virtude de um jeito diferente. - Ele disse pausadamente, enquanto fotografava com a mente intermináveis poses do seu rosto. - Às vezes, o que é uma qualidade imensurável pra ti... Pra mim, é um defeito.
- Ahh, - ela o indagou com um toque de sarcasmo. - Então agora você vê defeitos em mim?
- Nenhum que me incomode. - Ele disse tomando um gole de café. - Todos os que eu vejo, ou sei lá, de repente os que você deixa eu ver, me atraem mais ainda... Ao meu ver, tudo o que você considera virtude ou desvirtude, pra mim é tudo igual. São partes tuas, e eu não consigo não amar cada uma delas.
- Não vem com essa pra cima de mim, não... - Ela disse, tocando sua mão na dele... Arranhando de leve seus dedos... Lançando olhares despretenciosos para os outros freguezes, na esperança de não reconhecer ninguém.
- Eu falo sério... Não é nenhum disfarce. Assim... Não tô falando que você é perfeita. Claro que não é... De perfeito aqui, basta eu. - Ele sorriu, cerrando os olhos, como de costume. O sorriso preferido dela.
- Eu odeio amar essa tua presunção. - Ela o disse, se inclinando, quase buscando um beijo que eles não ousariam trocar ali.
- A minha presunção não é uma virtude? Pra mim, é! - Ele disse soltando uma piscadinha clichê. Porém, pra muitos, não... Mas presunçoso ou não... Entendeu o que eu quis dizer?
- Entendi... É como eu disse, então! - Ela o respondeu, voltando a encostar as costas na cadeira. Um garçom passou pela mesa, e retirou os pratos vazios enquanto os dois navegavam no olhar apaixonado e devasso um do outro... - Junto de ti, eu não preciso pensar nisso. Eu apenas sou... Entendeu?
- Claro que entendi...- Ele disse se levantando da mesa lentamente, enquanto ela fez o mesmo.
Seguiram para a saída, onde trocaram um abraço longíncuo e dolorosamente incendiado pelo fogo da paixão que os consumia por dentro. Ele passeou as mãos pelo seu corpo, enquanto ela sentia na pele tanto a dificuldade de deixá-lo partir, quanto a de ter que fazer o mesmo; até o próximo encontro, ela pra um lado, ele para o outro.
Só mais uma coisa...- Ele disse, renovando o abraço e o prolongando por mais um breve momento. - Eu amei o que você falou sobre a facilidade de gostar de mim, e eu quero, ou preciso, não sei bem, falar uma coisa ou outra sobre aquilo...
- Não precisa! Eu falei por falar. - Ela quase lamentou a fala... Não por outro motivo que não fosse o de ter, talvez, ultrapassado alguma fronteira emocional cujos limites não se enquadravam no contrato social daquele caso amoroso deliciosamente errado.
Você, junto com tudo o que vem nessa tua bagagem física e emocional... - Ele prosseguiu, apesar das suas objeções superficiais. - Teus ranços, teus defeitos, teus problemas, e até as tuas falhas... Todo esse conjunto de imperfeições, pra mim são as tuas principais virtudes... É quem você é quando não tem ninguém olhando. Na tua melhor ou pior versão, você é o poço de virtudes que eu quero pra mim.
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