As Últimas Duas Horas

Se algumas coisas fossem um tiquinho diferentes... E de alguma maneira mágica eu viesse a descobrir que só me restavam duas horas de vida pelo mundo... Eu escreveria um último conto pra ti. 

Nele, eu faria questão de escrever tudo o que ainda não fui capaz de expressar nos decorridos últimos dias, aliás dias estes nos quais meu maior e principal prazer tem sido me deliciar nas minhas próprias palavras, muitas vezes tão confusas quanto minha própria personalidade é pra ti, somente pra poder manter uma espécie de comunicação entre nós. 

Eu me permitiria estar nesse espaço uma última vez, que é onde eu consigo estar em plenamente em paz... E não é porque o conto é meu, ou por conta das palavras serem minhas, não não... É porque consigo sentir teus olhos devorando cada letra... cada palavrinha... cada sentença... cada mensagem que eu deixei aqui pra ti. Só pra ti... Especialmente pra ti. 

Duas horas seria pouco demais pra todo o resto. Pouco demais pra encaixar todos os nossos beijos, nossos abraços, nossos gemidos... Nosso romance, se me permite. Eu acho que permite... E talvez até goste... 

Eu seria presunçoso em cada parágrafo, pois sei o quanto te agrada a minha ousadia em prestar a mim mesmo elogios sinceros e por vezes exagerados... 

Eu usaria cada segundo de cada minuto destas duas horas pra criar um texto que você pudesse ler somente uma única vez, ou quem sabe sempre que quisesse lembrar de uma fração do que tivemos juntos. 

Eu iria me deliciando conforme uniria as letras numa expressão textual que eu saberia que, de uma forma ou de outra, te traria um sorriso aos lábios.

E eu estaria sorrindo junto contigo, te imaginando tão claramente quanto a luz que eu vejo no teu olhar quando me vê, ou talvez seja apenas o reflexo da minha ao te ver... 

E eu saberia, de um jeito estranho e gostoso, que você estaria me desejando ao teu lado lendo isto pra ti, colados pelo desejo, numa sintonia de um romance intenso e delicioso, tal qual aquela pintura que você nunca mais encontrou, mas que nunca esqueceu.


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