Desprovido
Eu tentei ler as tuas cartas hoje, mas as letras não faziam mais sentido...
Era quase como se alguém as tivesse espalhado de uma folha pra outra, ou encaixado as sílabas com outras que não fossem as mesmas. Passei os olhos por todos os bilhetes escondidos... Todos os contos escritos à mão que te demoraram dias, e as vezes até semanas pra me entregar... E nada fazia o menor sentido.
Lembro que arremessei a pequena caixinha de lembranças e palavras no chão, e que tentei correr pra ver se te encontrava na cama, ou no sofá, mas até isto se mostrou um desafio incomum... Acontece que quando cogitei a possibilidade de que talvez você não estivesse mais ali, minhas pernas estremeceram, e eu me vi impedido, pela própria força que me faltava, de correr até você, onde quer que estivesse...
Pensei em berrar teu nome, pra que de alguma forma, você pelo menos soubesse que eu te procurava incansavelmente... Mas na hora, meu berro soava tão fraco que mais se adequava num sussurro de uma lamentação...
Finalmente, conforme todas as agonias se somaram, e eu pude sentir o gosto amargo que é estar longe de ti, e impossibilitado de ir até você, ou sequer de trocar uma palavra contigo... Eu consegui enfim acordar...
E despertar do pesadelo interminável que é estar desprovido das tuas palavras, da tua presença, da tua voz... Do teu romance.
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