O Tapa
O estalo ecoou pela escadaria principal do palácio como o vento de inverno invade a abadia no silêncio da noite e perturba a paz das chamas que alumiam o salão. Tomada pelo ímpeto do desejo intenso que lhe consumia os nervos e a pele, a princesa dos olhos castanhos como o mel cedeu, apenas por um breve instante, a um de seus momentos de impulsividade incontrolável, e logo após o beijo quente e acolhedor de seu amante, o estrangeiro, desferiu-lhe contra a face nua um tapa tão forte quanto a paixão do romance que lhes consumia por dentro...
- Agora sim... - O estrangeiro disse por trás de um sotaque vizinho, tomado por um vestígio de surpresa, e pela deliciosa ardência que lhe beijava o rosto, sorrindo como quem desse as boas vindas ao golpe inesperado...
- Como ousa? - Ela agora, em puro deboche e pudor clandestino, em virtude enfim da compreensão da força demasiada do tapa, como sugerido pela vermelhidão na pele dele e pela dormência na palma de sua mão, optou por acariciar sua feição aparentemente tão castigada. - Como ousa sorrir assim pra mim, com esse olhar que me deixa...
- Que te deixa...? - Ele prosseguiu, prendendo suas mãos nas dele, tornando a beijá-la às escondidas.
- Acanhada. - Ela enfim completou, escapando, sem a intenção da fuga, do seu beijo aliciador.
- Não é pra sorrir, nem é pra te olhar... - Ele disse conforme a marca gravada em sua face se esvaía lentamente. - Aqui no seu reino, o que é exatamente que se espera depois de um golpe tão cativante?
- Ora... - Ela sussurrou em seu ouvido, pressionando suas mãos contra as dele, devorando sua devassidade com um único olhar sedutor... - Que o devolva, é claro!
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