Nunca Mais...
"Eu vinha caminhando pensativo pela calçada, sem sequer perceber o som do trânsito caótico do final do dia.
"Perceber som de carro pra quê? Porra, que narrativa tão idiota e forçada é essa que eu tenho às vezes? Vai me ajudar a ficar menos irritado se eu parar e ficar feito um inútil percebendo o som dos carros? Não! O que ajudaria seria ver ela... Aliás, onde eu enfio esse ódio e essa frustração, que nem sequer são justificados? É quase estranho pensar nisso, considerando o modo pelo qual o dia teve a audácia de começar..." Eu pensei, ou talvez ele. Uma parte de mim... A menos inteligente, e consequentemente a mais sofrível. A que age na impulsividade e acaba fazendo com que o resto de nós seja sugada na espiral do poço das lamentações sem fundamento."
- Nunca mais. É isto. - Ele disse pra si mesmo no ritmo de um pé após o outro. Vinha concentrando nisso desde que descera do veículo, e insistia na tecla, a pedido do raciocínio guiado pela fúria, que se referia a ela, é claro. - É sério... Nunca mais. Nunca mais. - Ele repetiu, pra ter certeza de que havia escutado a si mesmo mentindo.
"Nunca mais por que? Ora... Pra evitar o aborrecimento. A distração.
"A fadiga. A necessidade.
"O vício.
"O charme. O cheiro...
"O beijo..... Ah, o beijo..."
- Nunca mais! Sem brincadeira. É sério.
"Mas nunca mais é tempo, hein... Nunca mais, no sentido de nunca mais mesmo?" Ele pensou quase dobrando a esquina. "Claro. Nunca mais é nunca mais. Só hoje, já a vi perto de umas sessenta e nove vezes... Basta não olhar mais. Se ver, finjo que não vi, e passo direto. Ignoro como um profissional da arte. Dou conta... Fácil."
- Nunc-- O SUSTO!!! de dobrar a esquina e se deparar justamente com ela, encostada contra o muro, armada com aquele sorrisinho provocador, foi tão inesperadamente arrasador...
"...que o meu sorriso bobo escapou e casou com o encaixe perfeito do abraço dela...
"... Bom demais, né? ... Mas aí lembrei do que eu falei! Lembrei sim. E quer saber?
"... Esse nunca mais pode esperar."
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