A voz... O Olhar... O Sabor...

- Vai um cafezinho? - Ele me perguntou naquela voz rouca e cansada de sempre.

- Vô, - Eu respondi, sentado na mesa da cozinha, observando ele tirar o filtro e o coador de um pequeno armário embutido na parede. - já são quase 22h...

- Olha só! Ele sabe as horas! - Ele retrucou, e dessa vez foi até gentil. - Macho, tu já pensou em ser detetive, com essa esperteza toda? Quem foi Dupin perto de ti, hein? 

- Eu falei pelo horário, vô! Deixe de ser sabido, que o senhor entendeu. 

- Quer ou não quer? - Ele disse enquanto deixava a água da torneira encher a chaleira devagar.

- A mãe só deixa eu tomar uma vez por dia. Dezesseis anos ainda é criança, segundo ela.

- Quer ou não quer?!

- Vai, - eu me rendi, enfim. - Quero.

- Tá vendo? Tá vendo o arrodeio? Pelo amor de Deus... - Ele acionou o botãozinho do fogão elétrico, e uma das bocas acendeu, aquecendo a água. Daí ele veio e sentou perto de mim à mesa. - E ai, como que tá aquele lance lá com aquela gatinha do colégio? Chamou pro cinema, igual eu te disse?

- Chamei! 

- Opa! E ai?! - Ele perguntou esbugalhando os olhos e jogando as sobrancelhas grossas bem alto.

- Nossa, vô... Ela é sensacional. - Eu continuei me levantando da mesa, e indo até a chaleira pra verificar a água. Me apoiei no balcão e continuei. - Além de ser linda igual uma fada, ela é inteligente... Sagaz... Esperta... Afiada! A ideia do cinema foi realmente muito boa!

- Eu te disse, moleque. - Ele falou se reclinando na cadeira, e sorrindo enquanto o ego se permitia inflar. - Eu não entendo em excesso de muita coisa, mas disso... Ah, disso eu sei uma besteirinha ou outra. 

A água começou a ferver justamente quando ele embarcou em alguma viagem pela própria mente. Às vezes ele fazia isso, mas principalmente quando a gente tava na mesa da cozinha... Partia pra algum lugar distante e ficava por lá até que alguém falasse algo ou chamasse sua atenção. Descrevendo ele assim, deu até saudade daquele olhar cerrado e distante, cheio de experiência e presunção.

Peguei a chaleira pelo cabo e fui despejando devagar pelo pó do café. E aí, tão certo como um relógio, eu aguardei o comentário clássico.

- Não coloque açucar. 

- Eu sei, vô. O senhor sempre fala isso.

- No dia que eu não falar, você vai colocar. - Ele respondeu sem nem se virar. Pensei ter ouvido algum ruído de angústia dessa vez, escondida entre a rouquidão e o cansaço... Não sei se você já passou por isso, mas é estranho... A gente fica preso entre mostrar interesse e constranger, ou fingir que não reparou e magoar. 

- Tá tudo bem aí? - Eu lancei o dado... 

- Traga o café ainda hoje, que fica sim. Consegue? 

Ignorei o bruto, e levei o bendito café até a mesa. Busquei, no armário, as nossas xícaras clássicas de todo domingo a noite, e nos servi. Ele se serviu de uma única colher de chá do açucar demerara em cima da mesa, e eu tomei puro, um hábito recente que segundo o nutricionista, me ajudaria com a dieta. Ele riu sorrateiramente, escondendo alguma história do passado... Alguma que ele não queria compartilhar... Ou talvez até quisesse, mas a julgar pela alegria clandestina, poderia ser que fosse dolorosa demais.

- Me fala mais sobre a menina... Não peguei a imagem ainda. - Ele disse.

- Bom... - Eu falei ocultando a careta que o sabor amargo tentou me dar. - Ela tem uma voz... Não tem como descrever. É impossível.

- Tente.

- Não dá... É o som da meiguice. Se a delicadeza e a gentileza fossem uma pessoa, ela teria essa voz. 

- Delicadeza e gentileza? - Ele me perguntou, quase me degolando com o olhar. - Não tem uma terceira categoria ai? 

- Bom, - eu admiti meio envergonhado. - Ela consegue ter uma voz bem sensual também... Bem mais do que meiga ou delicada.

- Corta esse bolo ai pra gente... E continue... - Ele falou apontando para o centro da mesa.

- Os olhos dela, vô! Não tem como você entender. Não tem.

- É, - Ele falou enfiando a fatia de bolo inteira na boca, e então reclamando ainda de boca cheia. - Eu sou um ser desprovido de qualquer noção que possa me ser útil pra compreender a singularidade celestial que são os olhos dela. 

- Vô... Calma... Lembra daquele almbum que você tem aí, daquela banda lá da pimenta? Da piscina laranja? 

- Sei... Californication... Red Hot Chili Pepers. O que tem?

- Eu falei pra ela sobre esse disco. Os olhos dela, vô... A segunda música tem uma parte que fala a solar system that fits in your eyes... É isto!

- E ela entendeu a referência? - Ele indagou cortando outra fatia do bolo.

- Ela disse que vai pesquisar.

- Melhor que nada. Melhor que mentir pra impressionar. Mas... E aí? Viram o filme? - Ele perguntou.

- A gente foi pra aquele novo de terror... Do serial killer. 

- Mas assistiram o filme? - Ele insistiu.

- Mais ou menos, vô..... - Nem consigo começar a explicar o sorriso dele, que acabou me contagiando, me forçando a imitar o mesmo. - Se eu me concentrar, ainda consigo lembrar do beijo dela, vô... Do sabor indescritível. Nada supera. 

- Eu sei, cara. Eu sei. - Ele ficou lá me encarando um tempo... Depois desconversou... Pegou um último pedaço do resto do bolo... E eu tomei coragem.

- Você já teve alguém assim, né, vô? 

- Todo mundo teve. - Ele falou de costas pra mim, organizando a louça no escorredor.

- Todo mundo acho que não, hein... 

- Todo mundo. - Ele se virou, balançando a cabeça sutilmente, mostrando uma expressão quase dormente. 

- Mas... - eu insisti... - Se fosse assim, então todo mundo ia ficar na pior de ter acabado. Era pra ter uma porrada de gente triste pelo mundo. 

- Advinha só, moleque... - Ele me disse jogando o pano de prato em cima da mesa. - Tem uma porrada de gente triste no mundo. Uns acham mais fácil esquecer... E outros não. 

- Qual desses é o senhor? - Eu perguntei, quase me arrependendo logo depois.

- Eu sou o que se entope de café toda noite pra justamente lembrar de tudo isso... Da voz, do olhar... E do sabor dela.  







Comments

Popular posts from this blog

Torniquete

Lounge

Olhos de Penélope